Médicos: desafio às políticas públicas

Não faltam médicos no Pará. O que falta são incentivos para que os profissionais saiam da capital rumo ao interior. Essa é a avaliação do Sindicato dos Médicos do Estado (Sindmepa) ao analisar os dados de um estudo divulgado na semana passada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). O estudo “Presença do Estado no Brasil: federação suas unidades e municipalidades” traz informações sobre várias áreas, incluindo a saúde, e revelou que o Pará tem uma das piores relações no que se refere ao número médicos por habitantes do Sistema Único de Saúde. Apenas 1,5 para cada mil moradores do Estado. Esse número só não é pior que o apresentado pelo Maranhão, onde a relação é de 1,3 médico para cada mil habitantes. O melhor índice fica em Sergipe, com 4,2 médicos para cada grupo de mil moradores.

O diretor do Sindmepa, João Gouveia, afirma que há inconsistências no estudo do Ipea. Um erro teria sido ter como base da pesquisa o Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde, onde os profissionais que prestam serviços no Sistema Único de Saúde são obrigados a fazer um registro. “Um médico que trabalhe em três lugares pode acabar sendo contado três vezes”, explica, ressaltando, contudo, que no caso do Pará o número de 1,5 médico por habitante está dentro dos registros da entidade.

Para o Sindicato, mesmo com esse índice baixo, não há razões para lamentar. “Não existem estudos consistentes sobre a relação ideal entre número de médicos por habitantes, mas em geral se preconiza que o ideal seja de um profissional para cada grupo de mil pessoas”, diz Gouveia afirmando que o Pará atende a esse critério.

No Estado, existem em torno de 10,5 mil médicos registrados. Apenas 6,4 mil estariam em atividade, já que há casos de profissionais aposentados, gente que está fora do Estado fazendo residência e aqueles que simplesmente deixaram a profissão. Desses, segundo os dados oficiais, 70% atuam na Região Metropolitana, o que contribui para aumentar a sensação de que há falta de médicos no Pará. “O que falta mesmo são políticas de interiorização. E isso não se resume a salários. É preciso dar condições adequadas para que o profissional fique no interior com a família”, afirma Gouveia, lembrando que, apesar dos altos salários oferecidos no interior, muitos médicos ainda preferem ficar na capital pela insegurança desses contratos. “Recebemos número grande de queixas de médicos que vão para o interior com ótimas propostas, mas passados, dois três meses começam a levar calotes”.

Carências

O diretor do sindicato admite, porém, que em algumas especialidades há carência de profissionais. É o caso da pediatria e da psiquiatria. Poucos profissionais estariam procurando fazer essas especialidades pela baixa remuneração.

O secretário estadual de Saúde, Hélio Franco, também fez críticas à pesquisa do Ipea. Segundo ele, um dos erros é relacionar número de médicos com a qualidade da saúde da população. “O médico é importante para diagnóstico e tratamento, mas saúde é um conceito mais amplo”, diz. “Doenças como malária, dengue e leishimaniose não se combatem só com médico”.

Hélio Franco admite, porém, que é necessária uma política de incentivos para que esses profissionais trabalhem no interior. Para ele, um das medidas que podem contribuir é a residência médica em cidades como Santarém e, em breve, o curso de Medicina da Universidade do Estado do Pará será oferecido em Marabá.

Apesar das dificuldades em algumas áreas, Franco afirma que hoje não há faltam profissionais. “Temos, por exemplo, anestesistas em todos os hospitais do Estado e esse é um profissional raro”, diz.

Uma das dificuldades do Estado na hora da contratação são os baixos salários. No serviço público, um médico ganha em torno de R$ 2 mil por mês, considerado muito pouco para profissionais que, às vezes levaram mais de onze anos apenas entre a graduação e residência médica. Para tentar contornar esse problema, Franco explica que o Estado tem recorrido a contratos por meio de cooperativas ou deixado a administração dos hospitais nas mãos das Organizações Sociais, que não têm as mesmas amarras burocráticas do setor público na hora da contratação, e com isso podem oferecer salários mais atrativos.

Consultórios em crise: já faltam pediatras

Uma das especialidades que têm ficado cada vez mais raras é a pediatria, um das mais importantes, porque, ao atender crianças, pode ajudar a prevenir doenças na idade adulta. “Os profissionais estão desaparecendo por causa da baixa remuneração”, diz a presidente da Sociedade Paraense de Pediatria, Rejane Cavalcante. Não existem números precisos sobre a redução de pediatras no Pará. A entidade ainda está fazendo um levantamento do tamanho do problema, mas estima que dos 390 pediatras registrados no Pará, menos de 100 mantém consultórios. As razões seriam os baixos valores pagos pelas consultas, especialmente pelos planos de saúde que pagam em média R$ 45 por atendimento. “A consulta do pediatra é complexa. Ele trata das doenças, mas também precisa estar atento para vacinas, alimentação, desenvolvimento da criança e prevenção de acidentes. Acaba atendendo a mãe, o pai, avós e até a babá. É uma consulta mais demorada e, em 40% dos casos, há necessidade de retorno em menos de 30 dias, e os planos só pagam uma consulta por mês”, diz a presidente da entidade. Na prática, uma consulta com um pediatra pode custar menos que uma manicure. “Alguns estão pagando para trabalhar porque o que ganham não cobre os gastos com o consultório”, diz Rejane. O resultado disso é que muitos pediatras estão fechando consultórios e buscando outras especialidades. “É comum a gente ver pediatras que estão fazendo outras especialidades como a dermatologia. Quem sofre é a população, porque há uma demora maior para marcar uma consulta”, diz a médica. Se continuarem as atuais condições, a tendência é que o quadro se agrave não apenas no Pará, mas em todo País. (Diário do Pará)

Índices

1,5 médicos para cada mil moradores é o número levantado pelo instituto no Pará.

10,5mil médicos são registrados hoje pelo Sindmepa. Só 6,4 mil estariam em atividade e 70% atuam na Região Metropolitana.

Fonte: Diário do Pará

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