Municípios enfrentam o isolamento

De hora em hora uma voadeira deixa o porto do Ceasa, em Manaus, rumo a Careiro da Várzea. Único meio de transporte entre os dois municípios da região metropolitana da capital do Amazonas, vai e volta lotada de moradores que vivem do outro lado do rio. Cerca de 30 minutos depois de “voar” sobre o rio Negro e cruzar o Encontro das Águas, a embarcação chega ao porto de Careiro, às margens do rio Solimões. Apesar da curta distância, o que se vê é um retrato da Amazônia profunda, majestosa, mas carente de infraestrutura básica. Além de transporte, faltam tratamento de água, rede de esgoto, coleta de resíduos e uma rede de comunicação.

Como a maior parte dos municípios amazônicos, Careiro da Várzea também é vulnerável à ação das águas: 95% de seus 2.631,128 km2 são compostos por várzea, e somente os 5% de terra firme escapam das inundações, habituais entre novembro e junho. Nem mesmo a pequena Vila do Careiro, erguida à beira rio, em área mais elevada, resiste à invasão das águas. Por isso, a maioria das casas do município de 23.963 habitantes (dos quais apenas mil vivem em área urbana) foi construída em madeira sobre uma base elevada do solo.

Careiro da Várzea é um dos oito municípios da Região Metropolitana de Manaus (RMM), que deverá oferecer a investidores os mesmos benefícios fiscais da Zona Franca de Manaus (ZFM).

É também exemplo claro das enormes diferenças físicas, econômicas e sociais existentes entre os municípios da região, que afastam empresas como as que se estabeleceram no Polo Industrial de Manaus e lá movimentam bilhões de dólares.

As atividades econômicas de Careiro da Várzea, porém, indicam que o município pode responder bem aos objetivos elencados pelo governo para explicar a extensão dos benefícios fiscais aos demais municípios da RMM: descentralizar a Zona Franca e diversificar as atividades econômicas regionais. Com um rebanho superior a 60 mil cabeças, o terceiro do Estado, Careiro da Várzea tem sua economia centrada na pecuária leiteira, sustentada por produtores que vendem leite, queijo e manteiga diretamente à população local e de Manaus e também à pequena Cooperativa Laticínio da Várzea.

Tudo floresce, é claro, fora da época das cheias. Nessa ocasião, o gado precisa ser confinado em marombas (bases sobre toras de madeira que flutuam) ou então deslocado para terras mais altas dos municípios vizinhos, e a produção de queijo despenca. “Há contratempos geográficos, climáticos, operacionais, governamentais, produtivos e logísticos, mas o município e a cooperativa têm potencial de crescimento sustentável, que poderá se transformar em desenvolvimento”, resume o professor Evandro Brandão Barbosa, assessor técnico da Suframa e organizador do livro “Socioeconomia do Careiro da Várzea nas Águas da Região Metropolitana de Manaus” – um estudo conduzido por alunos dos cursos superiores tecnológicos do Centro Universitário Luterano de Manaus.

“Há também espaço para a produção de hortaliças, culturas agrícolas de ciclo curto, como a do milho, frutas regionais e o desenvolvimento da piscicultura”, acrescenta Ofir Hage, gerente da unidade local do Instituto de Desenvolvimento Agropecuário e Florestal Sustentável do Estado do Amazonas (Idam).

O desafio, concordam Barbosa e Hage, são as cheias, época em que os empreendimentos agroindustriais que consideram viáveis em Careiro estarão à mercê da ação da natureza. “O Polo Industrial de Manaus também nasceu modesto, num pequeno galpão improvisado no meio da floresta, em 1967, e hoje é responsável pela quase totalidade do PIB do Estado”, argumenta o presidente da Suframa, Thomaz Nogueira.

Segundo ele, a expansão dos benefícios fiscais para os demais municípios terá resultados a longo prazo. “Antes da Zona Franca, Manaus tinha 254 mil habitantes e hoje, 1,8 milhão”, compara a coordenadora-geral de estudos econômicos e empresariais da Suframa, Ana Maria Souza, diante de uma vasta lista de avanços sociais e econômicos em todas as áreas, em Manaus e no Estado, nos 45 anos de Zona Franca.

Como Careiro da Várzea, os demais municípios da RMM têm uma população enxuta. Presidente Figueiredo e Rio Preto da Eva abrigam, respectivamente, 27 mil e 25 mil habitantes. Novo Airão é ainda menor, com 14 mil. Itacoatiara e Manacapuru são os maiores, com 86 mil e 85 mil habitantes. Os outros cinco municípios (Manaquiri, Itapiranga, Autazes, Silves e Careiro Castanho) agregados à RMM no ano passado exibem contingentes que variam de 10 mil e 40 mil moradores.

Nesses municípios, o anúncio da presidente Dilma Rousseff, em outubro, de assinatura de uma proposta de emenda à constituição (PEC), que prorroga a vigência da ZFM até 2073 e estende os benefícios fiscais para a RMM, é motivo de constantes discussões. Há esperança e descrença. É consenso, porém, que nada acontecerá sem investimentos pesados em infraestrutura, o grande desafio da região. E ideias para desatar esse nó não faltam.

O Plano de Desenvolvimento Sustentável Integrado da Região Metropolitana de Manaus, apresentado pelo governo estadual no fim de 2010, reúne uma série de propostas de ações necessárias para impulsionar as vocações econômicas de cada município.

Para Careiro da Várzea uma das sugestões é transferir os núcleos urbanos situados em regiões de várzea para terras firmes do município. Com a requalificação urbana, o plano sugere o desenvolvimento de um polo frigorífico para o beneficiamento de carne de gado e de peixe e industrialização de leite para agregar valor e competitividade à produção local. Além disso, recomenda a capacitação de mão de obra e a criação de um terminal de abastecimento e distribuição e de outro para passageiros.

Para Manacapuru, o plano propõe um polo pesqueiro e para Itacoatiara, já conhecida pelo seu porto graneleiro, a criação de um polo moveleiro.

As vocações dos demais municípios seriam o ponto de partida para o desenvolvimento de atividades como exploração de minério em Presidente Figueiredo; do turismo e da indústria naval em Novo Airão e Manaus e a produção de tijolos, blocos e telhas em Iranduba.

 

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