Dilma prefere formar classe média rural a aumentar assentamentos

A presidente Dilma Rousseff aproveitou ontem a cerimônia de posse do novo ministro do Desenvolvimento Agrário, Pepe Vargas, para deixar claro qual é a sua política para o setor: em vez de priorizar apenas a distribuição de terras, o governo buscará reduzir a pobreza no campo por meio de mecanismos que aumentem a produção da agricultura familiar. Dilma anunciou ainda que o governo lançará, nos próximos dias, um programa de qualificação da população rural batizado de Pronacampo.

O deputado Pepe Vargas (PT-RS), novo titular do Ministério do Desenvolvimento Agrário, reforçou o discurso de Dilma. Logo destacou em sua fala que trabalhará pela formação de uma grande classe média rural. Afirmou ainda que o Ministério do Desenvolvimento Agrário deve ser visto como um ministério do “desenvolvimento econômico”. O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), no entanto, voltou a cobrar do Executivo maior celeridade no assentamento das milhares de famílias que continuam sem acesso à terra. Vargas substituiu Afonso Florence (PT-BA), que retorna à Câmara dos Deputados.

“A política de assentamentos vai perseguir a ideia de que a gente deve priorizar as regiões onde temos populações de extrema pobreza. A reforma agrária tem esse sentido. É lógico que significa assentar, mas significa também dotar os assentamentos de condições para o seu desenvolvimento produtivo. Do contrário, de nada adianta jogar o pessoal na terra sem dar condições de produzir”, explicou Vargas. “Isso significa um maior volume de recursos. No ano de 2011, o volume de recursos investidos nos assentamentos foi maior do que nos anos anteriores. O número de assentados um pouco menor porque se buscou essa diretriz.”

Para Dilma, o desenvolvimento da agricultura rural é essencial para que o Brasil se torne um país majoritariamente de classe média e o país consiga reduzir a extrema pobreza. “Esta nova lógica da agricultura familiar não olha a reforma agrária pura e simplesmente como distribuição de terra. Porque ela não pode ser só isso. A reforma agrária tem de ser a forma pela qual se garanta o acesso à terra, mas também se garanta as condições de desenvolvimento para as populações que acedem a essa terra”, destacou a presidente. “Nós queremos pequenos proprietários que utilizem todos os ganhos de tecnologia da Embrapa para se transformarem em excepcionais produtores.”

Mesmo assim, o MST sinalizou que não abrirá mão das manifestações pela aceleração da reforma agrária já agendadas para abril. Apenas do MST há 100 mil famílias acampadas à espera de lotes de terra, contabiliza a organização. “Não vai haver um desenvolvimento do campo se não destravar o problema da terra”, criticou Alexandre Conceição, integrante da direção nacional do movimento.

Pepe Vargas assegurou que tentará ampliar o diálogo com os movimentos sociais do campo, que têm reclamado da falta de interlocução com o governo. Sua ideia é convocar uma reunião com representantes dessas entidades já na semana que vem.

A cerimônia contou com a presença de diversos ministros e parlamentares. Esteve presente também o governador da Bahia, Jaques Wagner (PT), padrinho político de Florence.

Em seu discurso, Afonso Florence tentou afastar os comentários de que fora exonerado porque a presidente não aprovava sua gestão. Disse que o Ministério do Desenvolvimento Agrário bateu todas as metas no ano passado, e narrou que ouvia aplausos quando falava dos diversos programas da Pasta em eventos país afora. “Criamos todos nós esse projeto e instrumentos de políticas públicas em que os resultados são incontestes”, disse, saudando seus antecessores que estavam presentes à solenidade realizada no Palácio do Planalto.

Por: Fernando Exman e Yvna Sousa
Fonte: Valor Econômico 

Deixe um comentário