Ajuda financeira é forma de cooptação, dizem críticos

“Esta é uma punhalada traiçoeira na cultura dos povos indígenas. Eles vão morrer. Os índios vão morrer física e culturalmente.” A profecia pouco otimista é do bispo dom Erwin Kräutler, da prelazia do Xingu. A ameaça aos índios do Xingu, na visão do religioso, tem nome — a usina de Belo Monte, que está sendo construída na região.

“A cultura indígena, tão admirada, está com os dias contados”, fazendo referência à lista de compras que recebem da Norte Energia. “Eles não roçam mais, não pescam mais, não têm mais a sua organização de povo. Isso é o final.”

Uma das lideranças mais fortes contrárias à Belo Monte, dom Erwin compara: “No tempo das invasões do continente americano, compravam-se índios com espelhos e bugigangas. Hoje, os índios são entupidos com dinheiro para que estejam a favor, para que não se manifestem contrariamente à obra”, diz. “Simplesmente corta-se a luta em favor de sua própria terra e de sua organização social.”

Ele não acredita que os índios sejam a favor de Belo Monte, mas habituados à lista de compras. “A questão dos indígenas é muito dolorosa”, diz dom Erwin. “As pessoas me perguntam: os índios estão a favor da obra? Eu não defendo essa tese. Os índios estão a favor dos benefícios que recebem. E isso tem um preço muito alto”, explica. “Até pouco tempo atrás, eles estavam abandonados, colocados de escanteio, entregues à própria sorte, doentes, sem acesso a coisa nenhuma. De repente, vem a Norte Energia e gasta milhões com alimentação, combustível e roupas pagas no comércio.”

Marcelo Salazar, do Instituto SocioAmbiental (ISA), ONG famosa pelo trabalho junto às comunidades indígenas, diz que “as listas surgiram como uma forma de cooptação”. Continua: “Foi tão forte que, em determinado momento, os índios deram mais importância a isso do que aos debates sobre politicas públicas e planos de longo prazo.” Segundo Salazar, “grande parte das etnias da região de Altamira vivia em situação de isolamento, com assistência bastante deficiente da Funai”, e portanto, “vulneráveis a Papai Noel”.

“Foi um impacto muito grande na cultura indígena”, analisa o antropólogo Guilherme Eurich, do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ele está fazendo uma pesquisa de doutorado com os índios Araweté e conhece os efeitos das listas de compras na cultura das aldeias. Lembra que as demandas iam de barcos a motor (as chamadas “voadeiras”) a alimentos, combustíveis, roupas e colchões.

“Alguns índios estão deixando de construir canoas”, diz o antropólogo, lembrando que as mudanças nos hábitos alimentares são preocupantes. “Como vai ficar depois? Como os índios comprarão combustível?”, pergunta, destacando a relação de dependência que se criou com a prática de dar “mesada” nas aldeias.

“O resultado disso é horrível, com consequências que não foram previstas”, diz. Eurich trabalha com 400 índios Araweté distribuídos em seis aldeias diferentes. “Foi uma coisa muito rápida, com planejamento zero”, continua. “Agora os índios estão querendo entender o que vai ser o PBA indígena. Mas é outro plano que novamente não os escuta, que está sendo feito sem conversa nenhuma.” A lista de compras, diz o estudioso, “criou uma dependência extremada por produtos não indígenas”. “Como podemos achar que esses projetos podem funcionar, se nem damos conta da diversidade indígena?”.

“O PBA indígena ainda não foi aprovado pela Funai. Deveria ter sido aprovado antes de começar a construção de Belo Monte, antes da licença de instalação”, critica Salazar, do ISA. A intenção do PBA, lembra, era preparar os índios para receber a obra e mitigar os impactos, com projetos de saúde e educação e de proteção territorial, entre outros. “Essas ações devem ser efetuadas antes, ao longo e depois da construção da obra, como reparação e compensação dos impactos”, diz Salazar.

Hoje, grupos indígenas irão se reunir no Xingu+23, um encontro de três dias em na vila de Santo Antonio, perto do canteiro de obras da usina, em Altamira. O evento é organizado pelo movimento Xingu Vivo para Sempre e pela Universidade Federal do Pará.

Fonte: Valor Econômico

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