Brasil é pioneiro em guia para o campo

O Brasil será o primeiro país a ganhar um guia próprio de medição da emissão de gases do efeito-estufa para o setor agropecuário. A decisão de estabelecer uma iniciativa específica para o Brasil se deve ao grande peso do país no cenário global do agronegócio. Hoje, só a agricultura é responsável por 55% das emissões brasileiras. A análise será realizada como parte do projeto do primeiro guia global do setor, produzido pelo World Resources Institute (WRI). “Esse guia será produzido a partir das informações e do feedback colhido junto a empresas, governo, ONGs e outras organizações, diz Kaleigh Robinson, líder de treinamento e capacitação internacional do projeto Greenhouse Gas Protocol, da WRI. “Depois vamos adaptar o guia para o contexto brasileiro, realizando testes de campo e colhendo novas informações”, explica.

O estudo no Brasil conta com o apoio do Ministério do Meio Ambiente e do governo do Reino Unido, que vai financiar parte do projeto. “O mundo terá quase 3 bilhões de pessoas a mais em 2050 e teremos de produzir mais alimentos, reduzindo a emissão de CO2. O Brasil pode ter um grande papel na solução desse problema”, afirma o embaixador britânico no Brasil, Alan Charlton. Para ele, ter a metodologia para medir as emissões é fundamental. “Sem saber o quanto realmente estamos emitindo, não podemos decidir que ações tomar.”

Sem dúvida, estabelecer um padrão internacional para as emissões do agronegócio é um desafio e tanto. No nível global, o setor responde por 10% das emissões totais de gases do efeito estufa. “Há um forte grau de incerteza nas medições, porque elas variam muito de acordo com o espaço e o tempo”, afirma. O projeto prevê um levantamento detalhado das emissões da cadeia do agronegócio e pretende contabilizar também o sequestro de carbono retido no solo pelas plantações, e outras práticas que podem diminuir a liberação de CO2 para a atmosfera.

Para o secretário nacional de mudanças climáticas e qualidade ambiental do Ministério do Meio Ambiente, Carlos Klink, “sem números, não dá para discutir”. Ele chama a atenção, no entanto, para o fato de que o Brasil está sabendo usar as exigências internacionais e a pressão ambiental a seu favor. “Estamos usando as regras para construir capacidades para a nova economia verde”, diz.

Os esforços do WRI em criar mecanismos de medição cada vez mais precisos não se limitam ao agronegócio. A organização trabalha na criação para um padrão de medição de emissões para cidades, que respondem por 70% do total de CO2 produzido por atividade humana, e na terceira versão do protocolo de medição de emissões para empresas, incluindo mais fatores indiretos. Isso será fundamental para que o engajamento das empresas na economia verde tenha o efeito desejado. “As empresas têm controle direto sobre apenas cerca de 20% das emissões de sua cadeia produtiva”, diz Andres Hobday, diretor de sustentabilidade da empresa americana do setor de alimentos Mars Inc.

Hobday afirma que a Mars estabeleceu metas ambiciosas como adotar 100% de energia renovável até 2040 e vai precisar trabalhar com toda sua cadeia de valor para atingir o objetivo. Um dos projetos de sustentabilidade da empresa é realizado no sul da Bahia, por meio do Centro Mars de Ciência do Cacau. O objetivo é aumentar a produtividade e a qualidade. “Queremos mais cacau, sem aumentar a área plantada.” Ele lembra que o Brasil já foi o maior produtor do mundo de cacau e hoje é apenas o quinto colocado. Ao mesmo tempo em que os agricultores são capacitados para produzir cacau de melhor qualidade, a empresa usa o conhecimento adquirido com o mapeamento do genoma do fruto, para criar variedades mais resistentes, produtivas e saudáveis.

No entanto, a adaptação das empresas à economia verde talvez não seja veloz o bastante para deter o aquecimento global. A equação é simples, mas a conta é difícil de fechar. Em 2050, a população do planeta subirá de 7 bilhões para 9 bilhões de pessoas e as emissões de CO2 devem aumentar 50% até lá, em função da demanda de energia e do crescimento econômico dos grandes países emergentes. “As melhores práticas não são mais suficientes, precisamos de mais escala e velocidade nas mudanças para conter o aquecimento global. E precisamos de empresas que atinjam essa velocidade”, afirma Jennifer Morgan, diretora do programa de clima e energia do World Resources Institute, durante o debate Economia Verde: Impulsionando Valor e Competitividade aos Negócios, no Forte de Copacabana, no último domingo.

Para o inglês Peter Madden, CEO da ONG Fórum para o Futuro, o apelo ao setor privado não mobiliza as empresas como deveria. “Precisamos mudar nossa maneira de fazer negócios, mas muitas corporações ainda veem essa mudança como um peso e não como uma oportunidade de lucros”, observa. Apesar disso, ele acredita que a adoção bem-sucedida de práticas sustentáveis por gigantes da economia como Siemens e Unilever, pode ter um efeito multiplicador, levando mais empresas a aderir à chamada economia verde.

Para Madden, os governos têm um papel indutor e devem incentivar as empresas a adotar práticas sustentáveis por meio de benefícios fiscais. “Se ninguém coloca um preço na emissão de carbono, por que eu vou cortar as emissões da minha empresa?” No entanto, segundo ele, está faltando um fator decisivo para empurrar o setor privado: o consumidor. “A maioria das pessoas ainda não entendeu ou não integrou a sustentabilidade a suas decisões de compra e muitas empresas estão à frente dos consumidores em suas práticas.”

Robert ter Kuile, diretor sênior de sustentabilidade ambiental da Pepsi Co., lembra que uma economia sustentável tem de ser construída por todos. “Você só consegue grandes mudanças se trabalhar junto aos governos locais, por isso, precisamos de mais parcerias público-privadas nessa área, e de mais cooperação entre os setores. Ou então, os esforços não vão funcionar.”

As boas intenções podem cair por terra se não houver energia limpa para sustentar a cadeia produtiva da economia verde. Pryia Barua, pesquisadora do WRI, diz que não se trata só de saber quem investiu mais em energias alternativas, mas de quem está tirando maior proveito dos investimentos. Em uma pesquisa do WRI sobre os resultados dos investimentos em energia alternativa solar e eólica – que correspondem a 80% dos investimentos energéticos alternativos em nível mundial – a China se sobressai, com o menor custo de implantação e o maior número de instalações solares em 2011.

Por: Carlos Vasconcellos
Fonte: Valor Econômico

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