Para número 2 da ONU, Rio90 foi “espetacular”, e Rio+20, “mais séria”

Para Lalonde, um dos méritos do documento final é contemplar quase todos os temas da agenda global do desenvolvimento sustentável

O francês Brice Lalonde, 66 anos, foi o segundo homem na hierarquia das Nações Unidas para a Rio+20, fazendo o elo entre os governos e a sociedade civil. O coordenador-executivo da conferência diz que um dos méritos do documento final, “O Futuro que Queremos”, é ter contemplado quase todos os temas importantes da agenda global do desenvolvimento sustentável e ter deixado portas abertas, mas reconhece que o conteúdo ficou no terreno das intenções. Na comparação com a Rio92, considera que aquela foi espetacular e esta pode ser “mais séria”. Emenda dizendo que não temos o “Himalaia, mas são alguns degraus”.

Ex-ministro do Meio Ambiente da França, Lalonde diz que a ideia da economia verde ficou no texto “graças aos brasileiros”, mas que a discussão foi ideológica e não avançou como poderia. A seguir, trechos da entrevista Valor. (D.C.)

Valor: O que o senhor achou do resultado da Rio+20?

Brice Lalonde: Bem, nós temos um acordo.

Valor: Um acordo fraco.

Lalonde: Foi difícil. Temos que tirar o chapéu para os diplomatas que tiveram êxito e fizeram aquilo em três dias. O Itamaraty diz que este é um compromisso e acho que foi um grande sucesso para o time que organizou esta conferência. Agora, os resultados, como todos dizem, não são tão fantásticos como todos teriam gostado, mas isso é complicado mesmo.

Valor: Há boas coisas neste texto?

Lalonde: Na minha visão, sim. Quase tudo está ali, mesmo que bastante fraco.

Valor: Quais serão os próximos passos?

Lalonde: Há alguns mandatos no documento, algumas decisões. Pediram à Divisão de Estatística das Nações Unidas que faça uma proposta que nos leve além do Produto Interno Bruto (PIB), há a decisão de um Fórum de Alto Nível para o Desenvolvimento Sustentável que tem que ser construído. Há o fortalecimento do Pnuma. E o processo para criação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, o que, na minha visão, é o ponto mais excitante.

Valor: Por quê?

Lalonde: Porque as Nações Unidas têm sido um palco do forte diálogo entre ricos e pobres, desenvolvidos e em desenvolvimento, mas nos ODS, a coisa é universal. É para todos os países e temos que descobrir como fazer isso. Como poderemos transformar as nossas economias para que respeitem o planeta.

Valor: E a sociedade civil? Na plenária, o representante disse que queria que se retirasse o nome sociedade civil do documento final…

Lalonde: Nunca tivemos tal participação da sociedade civil. O protesto é decorrência de um processo que é novo. É como perguntar a um produtor de carvão se ele gosta de energias renováveis. É bem difícil encontrar um modo em que dois ou três índios representem todos os povos indígenas do mundo, ou que duas ou três empresas representem todas as companhias do mundo. Integrando a Internet ao processo, como, claro, não aconteceu em 1992, engajamos muito mais a opinião pública com mais representação.

Valor: Quais os pontos de decepção, na sua opinião?

Lalonde: Na economia verde. Acho que graças aos brasileiros ela está no texto, mas algumas pessoas dizem que se trata de um modelo entre outros. Na minha visão, é o modelo inevitável, aquele que diz que temos que cuidar da natureza porque não há modelo possível se a destruirmos. Então é bastante curioso que exista um compromisso sobre isso. A polêmica não é sobre economia verde, mas sobre mercados e regulamentação estatal. Mas esta é outra questão. A discussão de economia verde ficou refém de uma discussão ideológica.

Valor: Teria dado para avançar?

Lalonde: Sim. Eu gostaria que a Rio+20 tivesse dito: em 2 anos vamos fechar algo sobre energia, em 3 anos será sobre cidades, em 5 teremos decisões sobre agricultura. E agora teríamos que trabalhar. Mas não há calendário, não há mapa do caminho. Então ainda há muita hesitação. É absolutamente crucial que um grupo de 10 países comece a liderar. Isso foi algo que faltou aqui, a liderança, o país que mostrasse o modelo. Precisamos deste grupo, que mostre que é possível, lidere pelo exemplo e influencie os outros.

Valor: Precisamos de liderança, então?

Lalonde: Sim, de um acordo melhor, com compromissos mais fortes. O Brasil pode ser um destes países. Tenho certeza que alguns europeus, também. Há que escolher os aliados.

Valor: O presidente francês François Hollande disse que não estava feliz com o status do Pnuma e mencionou a taxa sobre operações financeiras como um meio de apoiar o desenvolvimento sustentável.

Lalonde: Fiquei muito feliz. Ele avançou. A Rio92 foi muito espetacular, tivemos todos aqueles acordos. Desta vez é menos espetacular, mas talvez seja mais séria.

Valor: Como assim?

Lalonde: Bom, não temos o Himalaia, mas pequenos degraus. A Rio+20 pode ser o começo de um processo de trabalho melhor. Temos pontos de partida em energia, no estudo do PIB, até em oceanos. É hora de fazer o que se prometeu. Os brasileiros permitiram que todas as portas ficassem abertas. Este foi o maior esforço – deixar aberto, não fechar. Quem quiser trabalhar nesta agenda agora, pode.

Fonte: Valor Econômico

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