Em busca de mais apoio dos brasileiros, Greenpeace troca diretores no país

Marcelo Furtado, diretor do Greenpeace: “Mundo rápido e integrado, que requer novo aprendizado organizacional”

O Greenpeace Brasil está em um processo de reestruturação interna. A ordem é dar mais agilidade à capacidade de resposta dos ativistas aos desafios atuais e aumentar o engajamento dos brasileiros às causas ambientais. Com 20 anos recém-completados, o braço brasileiro da ONG também precisa elevar as doações no país, que representa hoje uma das principais vitrines de atuação nas campanhas globais do grupo, mas conta com a metade do número de colaboradores da vizinha Argentina, por exemplo.

Nas últimas semanas, três ativistas do alto escalão foram realocados ou afastados do cargo. Paulo Adário, diretor da campanha Amazônia e talvez o rosto mais conhecido do Greenpeace no Brasil, deixa nos próximos meses sua base em Manaus para se tornar um líder global em florestas tropicais. O convite veio no fim do ano passado da direção-executiva do Greenpeace Internacional, na esteira de uma premiação de Adário pela ONU. A ideia é transpor o trabalho de preservação liderado pelo ambientalista na Amazônia às florestas sob risco da África e do Sudeste Asiático.

Sérgio Leitão deixa a direção de campanhas e retorna à direção de políticas públicas, onde tradicionalmente atuou, e Kiko Britto deixa a direção de comunicação da ONG. De acordo com o Greenpeace, nenhum nome foi escolhido ainda para ocupar esses cargos.

“Entramos em nova fase: a de um mundo rápido e integrado, que requer novo aprendizado organizacional”, diz Marcelo Furtado, diretor-executivo e mentor das mudanças, que deseja buscar no mercado “gente nova”, que formará os quadros sucessórios do Greenpeace, e com novo olhar para o ativismo. “A receita de identificar o problema, expor e propor solução está desgastada.”

Esse não é o primeiro ajuste de orientações do Greenpeace no Brasil. Desde 2004, quando os países emergentes passaram a ser priorizados na ONG como novas fronteiras socioambientais, o escritório brasileiro tem aumentado a sua capacidade intelectual, de mobilização e formação de campanhas, que culminaram com a moratória da soja e o acordo com a cadeia de produção da carne.

O foco na luta contra os transgênicos diminuiu e a discussão sobre mudanças climáticas foi incorporada à campanha de preservação da Amazônia, onde o desmatamento deixou de ser associado apenas à perda de biodiversidade e madeira, mas também como um vetor importante de emissão de gases de efeito estufa.

Agora, diz Furtado, o desafio está em responder mais rapidamente às questões da atualidade. O tradicional método do “constrangimento” – e-mails indignados às empresas e ações dos voluntários – continuará. Mas a comunicação para o engajamento de diferentes públicos-alvos será aprimorada. “O fosso do desejo da sociedade e a estrutura política ficou claro com a discussão do Código Florestal. É uma sinalização de que precisamos resgatar a cidadania”, afirma. Nessa linha, a ONG diz querer deixar de ouvir o “olha lá o Greenpeace fazendo o protesto deles” para “fazendo o protesto nosso”.

Com R$ 6 milhões anuais, entre contribuições e aporte da matriz, e 50 mil colaboradores, o Greenpeace Brasil precisa também crescer. Só a Argentina possui o dobro de colaboradores. A meta é ter R$ 8 milhões no caixa neste ano.

As mudanças vêm no momento em que o escritório brasileiro enfrenta uma ação na Justiça da JBS pela divulgação de um relatório que acusa a empresa de não respeitar acordos ambientais firmados com o Ministério Público Federal. A JBS nega as acusações e uma liminar impede o Greenpeace de comentar o assunto. Para alguns ativistas, o fato ajudou a precipitar a troca de cadeiras na ONG.

Por: Bettina Barros
Fonte:  Valor Econômico

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