Estradas ficariam sob as águas

Não são apenas as unidades de conservação da Amazônia que teriam parte das reservas inundada pelas águas das barragens de São Luiz do Tapajós e de Jatobá. Com o enchimento dos lagos dessas usinas, pelo menos 60 km da rodovia Transamazônica (BR-230), que circunda boa parte das reservas florestais da região, ficariam completamente debaixo d”água.

Esse trecho da rodovia está localizado dentro do Parque Nacional da Amazônia, que é cortado por 112 km da estrada de terra. Com a inundação, o governo seria obrigado a desviar a rodovia para outra área do parque, ampliando ainda mais a faixa de desmatamento.

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A construção de hidrelétricas no coração da Amazônia ameaça ainda outras estradas que, ao contrário da Transamazônica, estão recebendo asfalto. É o caso da BR-163, rodovia à margem direita do Tapajós, que liga Cuiabá (MT) a Santarém, no Pará. A BR-163. A estrada, que está com vários trechos em obras, corta ao meio a Floresta Nacional do Jamanxin, área de extrema relevância ambiental, porque é o único elo protegido entre o complexo de biodiversidade do rios Tapajós e Xingu, onde está sendo construída Belo Monte.

Os técnicos do instituto Chico Mendes de Biodiversidade (ICMBio) avaliam que, se saírem do papel as três usinas previstas para o rio Jamanxin, principal afluente do Tapajós, quase toda a BR-163 ficaria embaixo d”água no trecho que corta a reserva.

“A BR-163 chegou a ter plano de desenvolvimento sustentável, que ainda não foi executado. Hoje, está sendo asfaltada, mas, ao mesmo tempo, o governo pretende instalar usinas no Jamanxin. É mais um exemplo da falta de planejamento sobre o tipo de desenvolvimento que se quer para a Amazônia”, diz Brent Millikan, da organização Amazonia International Rivers.

Embora ainda não haja números precisos sobre esse tipo de impacto que seria causado pelas usinas do Tapajós, a tendência é que a inundação da Transamazônica seja ainda maior, à medida que as barragens avancem em unidades de conservação cortadas pela rodovia. “O governo tem sido incapaz de realizar esse conjunto de empreendimentos de maneira correta e estruturada”, diz Alessandra Cardoso, coordenadora do Observatório de Investimentos na Amazônia, ligado ao Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc).

Parte das dificuldades do governo apontadas pelos especialistas está atrelada à baixa qualidade de informações técnicas sobre a região. Órgãos ambientais e ministérios ligados ao setor de infraestrutura possuem tipos diferentes de mapeamento. Há sobreposição de dados relacionados às terras indígenas e às unidades de conservação. Além disso, faltam informações para suportar avaliações técnicas mais aprofundadas.

Fonte: Valor Econômico

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