Marina mantém distância de disputa

Fundadora do PT e uma das principais articuladoras da Frente Popular no Acre, a ex-senadora Marina Silva assiste à distância a eleição em Rio Branco. Marina gravou depoimentos para um vereador do PV e outro do PT, mas não declarou voto a nenhum candidato à prefeitura. O postulante do PT, Marcus Alexandre, não a procurou.

Afastada do cotidiano da política do Acre, Marina defende mudanças na Frente Popular, da qual foi expoente. Para a ex-petista, “seria bom” ter um segundo turno na capital: “Quando a gente fica muito tempo em um lugar, tem ensinamentos que são pedagógicos. Essa pedagogia se revela nas dificuldades.”

Marina construiu sua trajetória na Frente Popular. A ex-senadora lembra das dificuldades enfrentadas ao combater a elite que governou o Acre até os anos 90 e reconhece os avanços nos últimos anos. Mas alerta seus antigos aliados quanto à possibilidade de cometerem os erros que combateram.

“Há uma memória que se perde naturalmente, de como era antes e como ficou agora. Isso acontece não só em relação aos graves problemas que ajudamos a superar, mas também em relação aos que não devemos repetir. Quais são os erros que nós não podemos repetir?”, diz.

A ex-senadora mantém amizade com políticos do grupo, como os irmãos Viana, mas afastou-se politicamente sobretudo quando deixou o PT, em 2009. Seu marido, Fábio Vaz de Lima, trabalha na gestão estadual de Tião Viana (PT) como secretário-executivo. Mas pessoas próximas à ex-senadora lembram de problemas enfrentados com os irmãos Viana.

Em 2005, Marina era cotada para disputar o governo do Acre, depois dos oito anos de mandato de Jorge Viana. Então ministra do Meio Ambiente, sua candidatura era tida como “natural” no PT, mas Tião, que estava no Senado em 2006, articulou sua própria candidatura para suceder o irmão, ao tentar aprovar uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC) para derrubar o impedimento a candidaturas ao Executivo de parentes consanguíneos. Com essa sinalização, Marina decidiu não se lançar. Tião não conseguiu aprovar a PEC a tempo para se candidatar e o escolhido foi o vice de Jorge, Binho Marques, com perfil técnico.

O período mais delicado, no entanto, se deu na eleição passada, quando Marina disputou a Presidência pelo PV. O mal-estar dura até hoje e o senador Jorge Viana relaciona a candidatura da ex-senadora ao resultado ruim que o PT teve no Estado. “A eleição passada foi um inferno”, diz. “Era certo apoiar a Dilma [Rousseff] ou a Marina e não tivemos dúvida em apoiar a Dilma. Tivemos uma situação muito grave. Culpa de quem? Do Acre, porque daqui que saiu a candidata. Foi a [ex] ministra do Lula que levou a disputa para o segundo turno”, comenta. “Foi lamentável ela não ter nos apoiado no segundo turno. Para o eleitor, a mensagem é que gente não se entende e votaram contra [o PT], diz Jorge.

No Acre, Dilma e Marina tiveram votação semelhante no primeiro turno: a petista teve 23,92% dos votos e a ex-senadora, 23,45%. José Serra (PSDB) teve 52,12%. No segundo turno parte dos votos de Marina foi para Serra: o tucano teve 69,67% e a petista, 30,33%.

Marina é moderada ao falar sobre 2010 e lembra que apoiou a candidatura de Tião e Jorge sem cobrar o apoio deles. “Para mim era uma espécie de salvo conduto para minhas relações no Acre. Mas não precisariam ter criado alguns desconfortos”, diz.

Recentemente, a atuação de Jorge como um dos relatores do Código Florestal também gerou atritos. Para Marina, o senador deveria sido mais firme. “Ele, com certeza, teria que tensionar com o governo para se diferenciar desse acordo que foi feito com a bancada ruralista”, afirma.

Em meio a metáforas, Marina diz que seu “silêncio” é uma resposta a seus aliados. “Talvez a gente esteja precisando escutar um pouco os nossos silêncios”.

Fonte: Valor Econômico

Deixe um comentário