Arthur Virgílio ruma para votação histórica

Após meses de uma campanha marcada por fofocas, polêmica em torno de suposta “ovada”, busca de vingança pessoal e queixas de traição e chantagem, o processo eleitoral de Manaus (AM) termina apontando possibilidade de votação histórica do ex-senador Arthur Virgílio, numa vitória que o PSDB quer nacionalizar, enquanto a base da presidente Dilma Rousseff tenta restringir à política local.

A despeito dos ingredientes da campanha, novelescos ou políticos, o resultado da eleição já vem sendo capitalizado pelo PSDB como vitória mais emblemática para o partido, especialmente num cenário de perda na disputa pela Prefeitura de São Paulo.

Com pouco mais de 1,2 milhão de eleitores e o sexto maior PIB (Produto Interno Bruto) entre as capitais, Manaus está longe de compensar uma derrota paulista, mas os tucanos ressaltam a importância política de ganhar a prefeitura da capital do Amazonas: mostrar que a oposição está viva e tendo inserção em regiões das quais havia sido dizimada. O simbolismo é reforçado pela expressão nacional de Virgílio, que foi um dos mais atuantes líderes da oposição contra o governo Luiz Inácio Lula da Silva.

No primeiro turno, Arthur Neto, como é conhecido em Manaus, teve 40% e a senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB) – candidata de Lula, Dilma, do governador Omar Aziz (PSD) e do líder do governo no Senado, Eduardo Braga (PMDB) -, 29%. Virgílio já foi prefeito de Manaus (janeiro de 1989 a janeiro de 93).

Vanessa: candidata do PcdoB tenta manter o ânimo da militância, pedindo que trabalhem para virar o jogo

Na primeira sondagem do Ibope para a Rede Amazônica no segundo turno, o tucano teve 61% das intenções de voto e Vanessa, 29%. Pesquisa CBN Manaus/UP/DMP (Unidade de Pesquisa e Design, Marketing e Propaganda), divulgada na quarta-feira, mostrou Virgílio com 69% e Vanessa com 22,96%, uma vantagem para o tucano de mais de 50 pontos entre os votos válidos (75% a 24%).

Confirmado esse cenário, Lula e Braga serão os principais derrotados, além de Dilma, que foi a Manaus defender a eleição de uma pessoa do seu “time”. A presidente também tentou vincular o tucano à posição do PSDB paulista contrário aos benefícios da Zona Franca de Manaus. Virgílio passou a campanha defendendo a Zona Franca. O discurso de Dilma foi rebatido pelo senador Aécio Neves (PSDB-MG), pré-candidato a presidente, que aproveitou as eleições municipais para se tornar mais conhecido no país. O mineiro participou do comício de encerramento da campanha tucana.

Lula, que se empenhou em 2010 para evitar reeleição de Virgílio para o Senado, voltou a Manaus para pregar a derrota do tucano, que, em 2005, ameaçou, da tribuna, bater no então presidente. Naquele momento, a família de Virgílio estava sendo ameaçada. Ele foi derrotado e Braga e Vanessa conquistaram as duas vagas do Senado.

Braga, ex-governador e ex-prefeito de Manaus com gestões bem avaliadas, cuja eleição para governador em 2014 era considerada certa, sai enfraquecido e com divisões em seu grupo político, nem sempre explicitadas. Nos bastidores, há informações de sinais de aproximação do governador Omar Aziz com Virgílio. “O que aconteceu aqui não tem nada a ver com a política nacional. Tem a ver com traição, um monte de coisa”, disse Braga ao Valor, sem deixar claro o raciocínio.

O prefeito de Manaus, Amazonino Mendes (PDT), que, desgastado, abriu mão de disputar a reeleição, ficou afastado, embora o partido apoie o tucano. Segundo Vanessa, Virgílio esconde o apoio de Amazonino, pelo alto índice de rejeição.

A senadora do PcdoB foi escolhida candidata do grupo governista depois de Rebecca Garcia desistir, na noite anterior à convenção do PP em que seria lançada. A desistência foi anunciada após conversa com Braga. Ele alega ter mostrado a ela “pesquisas qualitativas” e nega as versões segundo as quais teria dito que ela sofreria uma “campanha sórdida”, com questões pessoais voltando à tona. Na interpretação de pessoas ligadas à deputada, foi chantagem. No ano passado, foram divulgadas gravações clandestinas de conversas telefônicas pessoais da deputada.

Um dos momentos marcantes da campanha ocorreu quando a campanha tucana acusou a adversária de montar uma farsa em torno de suposta “ovada” que ela teria sofrido. Alguma coisa foi jogada sobre a candidata, mas não ficou provado o que e quem jogou.

Se ganhar, Virgílio diz que não sairá da prefeitura daqui a dois anos para disputar o governo, mas passa a ter força no processo. O tucano ganhou a adesão dos três outros candidatos mais votados no primeiro turno: deputado federal Pauderney Avelino (DEM), ex-prefeito Serafim Corrêa (PSB) e deputado Henrique Oliveira (PR). O tucano conta, também, com a popularidade do vice, o vereador Hissa Abrahão (PPS).

Vanessa tenta manter o ânimo da militância, pedindo que trabalhem para virar o jogo. Hoje, os candidatos participarão de debate na TV Amazonas, afiliada da TV Globo.

Por: Raquel Ulhôa
Fonte: Valor Econômico

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