Compra de eleitores via aérea

Polícia encontra R$ 1,3 milhão em aeronave que, segundo denúncia anônima, seria destinado a um dos candidatos a prefeito de Parauapebas, no interior do Pará.  Suspeita é de que ocorreria a distribuição de recursos à população

Aeronave em que foi encontrado o dinheiro: recursos foram depositados em uma conta da Justiça Eleitoral. Foto: Correio Braziliense

Em pleno julgamento do mensalão pelo Supremo Tribunal Federal (STF), em que políticos tem sido condenados pela compra de apoio parlamentar durante o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, a Justiça Federal no município de Parauapebas, no leste do Pará, apreendeu um avião de pequeno porte com R$ 1,3 milhão, quantia que seria endereçada a um dos candidatos à prefeitura da cidade — o nome do político não foi confirmado.

O valor da apreensão foi confirmado por volta das 21h40 de ontem, após autoridades passarem cerca de cinco horas contando as cédulas. Uma denúncia anônima ao cartório eleitoral provocou uma operação no aeroporto da cidade. O dinheiro foi localizado e apreendido e, depois, enviado para um banco em Carajás (PA). O caso está sendo investigado pela delegacia da Polícia Federal em Marabá.

Quando a aeronave aterrissou no aeroporto de Parauapebas — município com cerca de 166 mil habitantes —, uma guarnição da Polícia Militar já o esperava, acompanhada pelo juiz eleitoral do município, Líbio Araújo Moura. O dinheiro estava distribuído em três sacolas e foi levado para Carajás, onde a contagem foi realizada e deveria durar até a noite de ontem. As primeiras informações eram de que a quantia seria em torno de R$ 4 milhões.

Acompanhados do juiz eleitoral, os ocupantes do avião, um casal e o piloto, foram levados para a PF em Marabá, onde estavam prestando depoimentos. Os investigadores trabalham com a hipótese de que os recursos seriam usados para a compra de votos no dia das eleições — segundo a denúncia anônima que motivou a operação —, mas também consideram a possibilidade de que haja crime de lavagem de dinheiro, pois não há a comprovação da origem dos recursos.

O delegado da Polícia Federal Antônio Carlos Breaubum se reuniu com Alberto Teixeira, da Polícia Civil de Parauapebas, além do juiz eleitoral, para ouvir os três envolvidos, mas até o fechamento desta edição os depoimentos ainda não haviam terminado.

Tropas federais

Em quase todas as eleições, a Justiça Eleitoral enfrenta dificuldades com a questão da segurança no Pará. Para este ano, foram convocados cerca de 12 mil homens das forças locais e tropas federais, que atuarão em 67 cidades do estado, além da região metropolitana de Belém. O Tribunal Regional Eleitoral (TRE) pediu reforçou para mais seis municípios, mas aguarda decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que deve se pronunciar ainda esta semana. O reforço na segurança segue hoje para várias regiões paraenses, inclusive para Parauapebas.

Memória

Dólares na cueca

Dinheiro suspeito, distribuído em grande quantidade, em cofres e sacolas — até mesmo escondido numa cueca — não é novidade no período eleitoral no país. O primeiro e mais rumoroso caso ocorrido nos últimos anos envolveu a governadora do Maranhão, Roseana Sarney (PMDB), então candidata a presidente da República, em 2002. Uma operação da Polícia Federal que investigava desvios de recursos da Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (Sudam) apreendeu R$ 1,3 milhão no escritório da Lunus, a empresa de seu marido, Jorge Murad. O caso causou uma crise política no país.

Outros dois fatos marcantes aconteceram em 2005. O primeiro envolvia o secretário do PT do Ceará, José Adalberto Vieira da Silva, que trabalhava com o deputado estadual José Guimarães (PT-CE), irmão de José Genoino, ex-presidente nacional do partido. Silva foi flagrado em São Paulo tentando viajar com US$ 100 mil e R$ 200 mil na cueca. O outro caso aconteceu no aeroporto de Brasília, onde a Polícia Federal apreendeu R$ 10 milhões distribuídos em sete malas, dentro de um jatinho. O dinheiro era de uma igreja evangélica. Além dos recursos, a PF também reteve o avião. Não havia, à época, a demonstração da origem dos recursos.

Por: Edson Luiz
Fonte: Correio Braziliense 

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