Desmatamento na Amazônia trará aumento do custo de vida aos brasileiros

Região vem perdendo 200 mts2 de floresta por segundo em média nos últimos dois anos.Produção de energia e de alimentos deverá ser comprometida. Menos favorecidos deverão ser os mais atingidos pelas consequências da devastação.

A devastação em curso na Amazônia deverá contribuir decisivamente para o aumento do custo de vida dos brasileiros nos próximos anos. A perda florestal que vem acontecendo na região, da ordem de 200 mts2 por segundo em média nos últimos dois anos, deverá causar ao país prejuízos imensuráveis, em função das alterações climáticas decorrentes do desmatamento.

Inúmeras pesquisas e trabalhos científicos relacionam a precipitação em uma enorme área do Brasil à presença da Floresta Amazônica. Já está provado que a umidade atmosférica nas regiões centro-oeste e sul vem principalmente da região norte, sendo esta umidade a principal responsável pela formação das nuvens e das chuvas que garantem a produtividade da agropecuária nacional, que forma a base da cadeia produtiva no país.

Desde que o ciclo hidrológico e o regime de chuvas sofrem alterações e prejuízos a partir do aumento da área desmatada e das queimadas na Amazônia, são esperadas menores produtividades nas lavouras em grande parte do território nacional. Esta situação irá certamente causar uma menor oferta de alimentos, com o consequente aumento dos preços aos consumidores.

Além disto, a alterações climáticas decorrentes do desmatamento, como o aumento dos períodos de estiagem, deverão causar prejuízos também na produção de energia. Com relação à produção de álcool, assim como na produção de alimentos, também são esperadas menores produtividades, com uma redução na produção total e na oferta do biocombustível derivado da cana.

A maior probabilidade de secas prolongadas também deverá afetar a produção da energia hidrelétrica. A redução do nível dos reservatórios necessários à geração de energia pelas turbinas das diversas usinas espalhadas pelo país irá fatalmente obrigar o ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) a determinar com maior frequência o acionamento de térmicas movidas a óleo combustível e diesel, visando suprir a carga que deixará de ser fornecida pelas hidrelétricas ao sistema.

Esta situação está ocorrendo neste exato momento no país. Em outubro foi determinado pelo ONS o acionamento de térmicas movidas à derivados de petróleo, onde o custo por Mwh (megawatt hora) gerado está muito acima do gerado pelas hidrelétricas e térmicas a gás natural, que igualmente já foram ligadas com o objetivo de tentar frear a queda dos reservatórios do sistema elétrico brasileiro. A razão para essa decisão está unicamente pautada no atraso das chuvas. O ONS só determina o acionamento destas térmicas quando a situação é crítica.

Desde setembro, o ONS verificou a necessidade de ligar as térmicas a óleo, mas retardou a decisão para evitar o aumento de custos à população, porém em outubro não teve mais como adiar a decisão. No Sudeste e Centro-Oeste, o conjunto de reservatórios das hidrelétricas está com 41,8% de sua capacidade. No Sul, as hidrelétricas estão com uma reserva de 38% e, no Norte, de 46%. No Nordeste, a situação é ainda mais grave: os reservatórios apresentam atualmente um volume equivalente a apenas 37,4% de sua capacidade.

Por conta desta situação, poderão ocorrer aumentos nas tarifas. Caso não ocorra o subsídio, os consumidores devem sentir os efeitos desse aumento já no próximo ano, quando as distribuidoras responsáveis pelo fornecimento da energia receberem o reajuste das tarifas. Para se ter uma ideia do diferencial de preço, no verão, quando há abundância de água nos reservatórios, as hidrelétricas produzem energia a um custo abaixo de R$ 50 por Mwh, enquanto o custo da energia produzida pelas usinas movidas à combustíveis derivados de petróleo está entre R$ 400 e R$ 500 por Mwh.

Durante o próximo verão, caso as chuvas não sejam suficientes para repor o volume nos reservatórios, não será possível ao país atravessar o próximo período seco sem ter de manter ligadas as térmicas, o que irá pressionar para cima as tarifas de energia elétrica. Esta situação poderá frustrar os planos do governo de reduzir as tarifas, conforme vem sendo prometido para janeiro, quando as novas regras do setor elétrico entram em vigor. Em 2008, quando isso ocorreu, o custo repassado aos consumidores foi de quase R$ 3 bilhões. Logicamente que os menos favorecidos acabam sofrendo mais com esta condição, que os afeta direta e indiretamente, já que as industrias acabam por repassar aos produtos finais os acréscimos de custo na linha de produção.

Apesar de todas estas evidencias, e das inúmeras pesquisas demonstrando a insatisfação da população brasileira com o desmatamento na Amazônia, a proibição para novos desmatamentos na região ficou de fora do novo Código Florestal. Os parlamentares ignoraram o artigo 225 da Constituição Federal, desprezando a condição de Patrimônio Nacional adquira pela Floresta Amazônica em 1988. Aparentemente a bancada ruralista, maioria no Congresso, ainda não percebeu a conexão existente entre a mata, a chuva e a produção de alimentos e de energia no país, para não falar de outras consequências negativas associadas às mudanças climáticas potencializadas pela supressão das florestas, como por exemplo a perda em massa de biodiversidade e às catástrofes ambientais, como a ocorrida em Teresópolis no ano passado.

Por: Marcos Mariani
Fonte: Preserve a Amazônia 

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