Alcoa adia plano de expansão de sua mina de bauxita de Juruti

Franklin Feder, presidente: “Com as operações da mina ainda no vermelho, ficamos sem argumentos para convencer a matriz americana para fazer novos em investimentos na ampliação de Juruti”

A Alcoa pôs o pé no freio em seus planos para o Brasil. A expansão da mina de bauxita Juruti, no oeste do Pará, deixou de figurar entre seu programa de investimentos. “Com as operações da mina ainda no vermelho, ficamos sem argumentos para convencer a matriz americana em investir na ampliação de Juruti”, afirmou ao Valor Franklin Feder, presidente da companhia na América Latina e Caribe.

“A situação da indústria não melhorou. Eu gostaria de aumentar a extração em Juruti, mas neste momento não é possível”, disse Feder. Segundo o executivo, A Alcoa vem amargando perda anual de US$ 80 milhões apenas com a amortização dos investimentos já feitos na mina de Juruti.

Para 2013, os aportes planejados pela Alcoa para o Brasil são inferiores aos deste ano e não contemplam expansão da mina. A empresa prevê investir US$ 100 milhões, ante US$ 150 neste ano, recursos que serão destinados principalmente à manutenção de operações, à hidrelétrica de Estreito e à construção de lagos de resíduos e de lama (para proteção ambiental) na fábrica de alumina em São Luís. Cada lago leva dois aos de construção, ao custo de US$ 5 milhões, e é ocupado no prazo de cinco anos.

A mina de Juruti, que já recebeu aportes de R$ 3,3 bilhões da companhia desde 2005, tem potencial para a extração de 12 milhões de toneladas de bauxita por ano, mas hoje opera com mais de um terço da capacidade (4,3 milhões de toneladas ao ano). Para que tivesse produção elevada para 7 milhões de toneladas – número que Feder diz considerar ideal e que traria o equilíbrio entre despesas e receita -, seriam necessárias outras centenas de milhões de dólares de investimento.

A dificuldades enfrentados no Brasil, com o alto custo de energia, e as perspectivas ruins para os preços do alumínio em 2013 podem levar a companhia a reorganizar operacionalmente suas fundições de produção de alumínio primário de Poços de Caldas (MG) – a mais antiga e menos eficiente – e de São Luis (MA), a mais moderna. “Não é nossa intenção fechar fábrica no Brasil, mas uma solução para o custo da energia não pode demorar muito tempo”, disse o executivo.

A Medida Provisória (MP) 579, que trata da prorrogação das concessões do setor elétrico, só resultará, segundo Feder, em uma redução de 10% a 12% no custo de energia para as indústrias, bem abaixo dos 28% mencionados pela presidente Dilma Rousseff quando ela apresentou a MP, em setembro deste ano. “A medida atingiu a modicidade tarifária, que era um de seus objetivos, mas não melhorou a competitividade da indústria”.

Para demonstrar a preocupação do grupo, em junho, o presidente global da Alcoa, Klaus Kleinfeld, encontrou-se com a presidente Dilma em Brasília. A presidente da República pediu um pouco de paciência, pois anunciaria medidas que garantiriam a fábrica de Poços de Caldas (MG), ameaçada de ser fechada, como várias fundições no mundo. Agora, com no máximo 12%, e não os 28% que se esperava, as operações seguem ameaçadas.

Mesmo para obter os 12% de desconto da MP, a empresa tem de negociar com a Eletronorte, com quem tem contrato de fornecimento de energia válido até 2024 para a fábrica da Alumar. O custo dessa energia está acima de US$ 60, 50% superior aos US$ 40 da média global. Se o desconto de 28% fosse possível, o preço pago chegaria a aproximadamente US$ 48. A empresa 70% de ^geração própria, com investimentos em quatro hidrelétricas: Estreito (MA/TO), Machadinho (SC/RS), Barra Grande (SC/RS) e Serra do Facão (GO).

No total, a Alcoa terá disponível, quando Estreito estiver à plena operação, 506 MW de energia das quatro unidades com investimento próprio. Hoje, já supre 100% de Poços de Caldas (210 MW) e parte da Alumar (que consome em torno de 447 MW). A diferença final (180 MW), que tem a Eletronorte como maior fornecedor, terá de ser adquirida no mercado.

A fábrica de Poços de Caldas prevê terminar 2012 com produção de 86 mil toneladas de alumínio primário e a de São Luis com 243 mil toneladas, conforme dados fornecidos à Associação Brasileira do Alumínio (Abal).

No cenário internacional, outro problema é o preço do alumínio, que Feder não espera subir no ano que vem, com os estoques altos em todo o mundo e a grande produção chinesa. Neste ano, a China deve produzir 19,5 milhões de toneladas de alumínio, segundo estimativas de Paul Adkins, sócio da AZ China, consultoria especializada em alumínio localizada em Pequim. O número é quatro vezes maior do que as 4,5 milhões de toneladas de 2002.

Além disso, a situação da indústria não melhorou neste ano, com mais países europeus em recessão e os EUA se recuperando lentamente, o que reduziu o consumo global dos metais. Nestas circunstâncias, o alumínio, que era negociado a US$ 2.175,12 por tonelada, em média, em janeiro deste ano, estava 9,8% menor em novembro (US$ 1.961,52), na Bolsa de Londres (a LME).

Os preços ruins também afetaram operações Alcoa fora do país. A empresa acabou de fechar uma operação na Itália, onde produzia 150 mil toneladas de alumínio, e está negociando o custo de energia na Espanha, onde produz 250 mil toneladas. “A indústria do alumínio nunca operou em uma taxa de utilização tão baixa, de 82%”, disse Feder. Segundo ele, 45% das companhias de alumínio no mundo operam com prejuízo operacional, sendo que na China todas estão nesta situação.

Com preço e custos de energias desfavoráveis, o setor no Brasil só não teve um ano pior porque o câmbio (terceiro tripé da indústria) favoreceu o mercado. O dólar em um patamar mais alto do que em 2011 acabou compensando em parte os demais fatores. No entanto, se o dólar mudar de sentido e cair para perto de R$ 1,85 ou R$ 1,90, os descontos de 10% a 12% nas tarifas de energia acabam sendo anulados, segundo Feder.

No entanto, o executivo diz estar otimista com o mercado brasileiro e espera que a demanda por alumínio cresça o dobro do Produto Interno Bruto (PIB) em 2013. Entre os segmentos promissores, ele destaca o de produtos para a indústria de óleo e gás.

Por: Olivia Alonso e Ivo Ribeiro
Fonte: Valor Econômico

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