MPF abre inquérito para apurar parecer do Incra que atestou como produtiva área da Camargo Corrêa

Conforme denúncia, dois técnicos fiscalizaram 67 mil hectares em dois dias, o que segundo o Sintraf é um prazo irreal

Fazenda da Camargo Corrêa ocupa metade do município de Nortelândia e tem 67 mil hectares

O Ministério Público Federal abriu inquérito para apurar suspeita de irregularidades em parecer do Incra que atestou como produtiva uma área do grupo Camargo Corrêa em Nortelândia (254 quilômetros de Cuiabá).

Com 67 mil hectares, as terras pertencentes à Arrossensal Agropecuária e Industrial S/A ocupam praticamente metade do município e são requisitadas para a reforma agrária por 1.688 famílias da região.

Segundo denúncia do Sintraf (Sindicato dos Trabalhadores na Agricultura Familiar de Nortelândia), a vistoria realizada por dois servidores do órgão foi uma fraude destinada a impedir a desapropriação.

“Fraudaram o laudo para tirar o sonho de centenas de famílias da região”, disse Josafá Santos da Rocha, coordenador-geral do sindicato.

Rocha afirma que o relatório da vistoria na área acrescentou 32 mil bois ao rebanho da propriedade, mencionou dados sobre cobertura vegetal que não correspondem ao CAR (Cadastro Ambiental Rural) e foi concluído em um prazo irreal.

“Dois servidores concluíram em sete dias um levantamento de 67 mil hectares? Isso não existe. Aquele era um trabalho para durar até seis meses”, disse o coordenador.

O parecer, assinado pelos servidores Carlos Eduardo Barbieri e Juscelino Antônio Tomas, resultou no arquivamento do pedido de criação de um assentamento rural nas terras da Camargo Corrêa.

O Sintraf protocolou, então, denúncia na Ouvidoria Agrária Regional do Incra, que, segundo a Procuradoria, produziu um relatório de apuração “ratificando todas as irregularidades” apontadas pelo sindicato.

Em despacho assinado no dia 24 de janeiro, a procuradora da República Vanessa Scarmagnani determinou a abertura de inquérito e encaminhou ofício à Controladoria Geral da União em Mato Grosso, pedindo que seja feita uma perícia no relatório de vistoria.

A procuradoria pretende, ainda, investigar o crime de “desobediência de cumprimento de requisição por parte do MPF”, em razão da ausência de resposta a cinco ofícios com pedidos de informação encaminhados às representações do Incra em Mato Grosso e em Brasília.

“Até o presente momento, tanto o Superintendente Regional do Incra quanto o próprio presidente do Incra não apresentaram informações (…) não obstante tenham sido notificados”, apontou.

O DIÁRIO procurou a assessoria de imprensa do Incra, que disse que o órgão só irá se manifestar após tomar conhecimento do relatório da Ouvidoria Agrária.

Procurada pela reportagem, a assessoria da Camargo Corrêa não respondeu até a conclusão desta edição.

Fonte: Diário de Cuiabá

Deixe um comentário