ONU relata histórias de ativistas sob proteção

Sob ameaça de morte, dois ín­dios, dois religiosos, dois mili­tantes agrários, um sem-teto, uma líder quilombola, um pes­cador e um ativista comunitá­rio viraram protagonistas de Dez faces da luta pelos Direitos Humanosno Brasil, publicação lançada no País no fim de 2012 com apoio da Organização das Nações Unidas (ONU).

De pontos do território nacio­nal distantes entre si, como a Região Metropolitana do Rio de Janeiro, o sul da Bahia, a perife­ria de Manaus e o noroeste mi­neiro, os personagens, curiosa­mente, contam histórias com pontos em comum. Entre eles estão o engajamento em ques­tões que os transformaram em alvos – como a defesa de meno­res infratores, a luta pela terra e até o combate ao crime organi­zado a disposição de não desis­tir e a inclusão no Programa de Proteção às Defensoras e Defen­sores de Direitos Humanos.

“Eu e minha esposa vivemos constantemente sob risco” relata um dos entrevistados, o presidente da Associação dos Homens do Mar do Rio de Janei­ro, (Ahomar), pescador Alexan­dre Anderson de Souza, no traba­lho editado também com apoio da Embaixada do Reino dos Paí­ses Baixos, da delegação da União Européia no Brasil e da Secretaria de Direitos Humanos fe­deral brasileira. “Certamente is­so interfere na minha vida parti­cular. Tive que parar de pescar, porque não era mais seguro. Co­meçaram a matar gente no mar.”

Souza luta, desde 2003, contra empreendimentos petrolíferos na Baía de Guanabara, denun­ciando danos ambientais que di­ficultam ou inviabilizam a pesca.

Também lutam pela preserva­ção de culturas tradicionais dois líderes indígenas que depõem na publicação. Um é Rosivaldo Ferreira Dias, o cacique Babau, chefe tupinambá de Serrado Padei­ro, na cidade de Buerarema, região de Ilhéus (BA). Com três ci­catrizes de tiros no corpo, Babau lidera uma luta pela terra indígena, sagrada para seu povo, e pela preservação da sua cultura. Mís­tico e neto de pajé, diz que a mo­bilização é orientada pelos En­cantados, espíritos que seriam intermediários entre Tupã, di­vindade máxima, e os mortais.

“Agora, no início da década de 2000, declararam que era hora de os Tupinambá da mata reivin­dicarem seu território”, relata.

Outro líder indígena, o guarani-caiová Eliseu Lopes, coorde­nador de Mobilização da Articu­lação dos Povos Indígenas do Brasil e desde 2007 na luta pela recuperação da terra que per­tencia a seus antepassados, a Kurusu Amba, relata as dificuldades vividas por seu povo em Mato Grosso do Sul. “Depende­mos de cestas básicas do gover­no, que nem sempre chegam, e não temos educação ou atendi­mento em saúde. Então a situa­ção fica muito difícil para as fa­mílias e, principalmente, para as crianças. Só em 2010, morre­ram quatro por desnutrição, por exemplo”, conta.

Com perfil diferente, aos 34 anos o juiz Gleydson Gleber Ben­to Alves de Lima Pinheiro, da 3a Vara Criminal de Caruaru (PE), magistrado desde os 24, notabili­zou-se por sua atuação em uma investigação contra uma organi­zação criminosa que atuava na cidade. Com envolvimento de Pms, o bando traficava drogas e cometia assassinatos – eram 180 por ano, antes das prisões, tendo caído (e se mantido) para 120 após a operação, em abril de 2007. Logo no início do proces­so, começou a ser ameaçado. “Foi um trabalho de um ano sob ameaças”, conta.

Defensor dos direitos de crianças e adolescentes brasileiros desde 1985, o religioso italia­no Saverio Paolillo, mais conhecido como Padre Xavier, coordenador da Pastoral do Menor em Serra, no Espírito Santo, lamen­ta que seu trabalho seja malvis­to. “O trabalho do militante de direitos humanos é incompreendido”, afirma no depoimento à publicação. “Ele sofre uma pressão psicológica muito forte. O olhar sobre ele é muito negativo. Fala-se mal publica­mente o tempo todo. É acusado de “defender bandido””, diz.

Também são entrevistados no trabalho a líder quilombola Evane Lopes, de Minas Gerais; o ativista comunitário João Luís Joventino do Nascimento, de Cumbe, perto de Aracati, no litoral do Ceará; o militante sem-teto Júlio César Ferraz de Souza, de Manaus; a religiosa Leonora Brunetto, da Congrega­ção das Irmãs do Imaculado Co­ração de Maria e atuante na Pas­toral da Terra do Norte de Mato Grosso; e a militante Maria Joel Dias, também conhecida como Joelma, atuante no sindicalis­mo rural e na luta pela terra emRondon do Pará (PA).

Fonte: O Estado de S. Paulo

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