Calha Norte. Região tem maior nº de espécies endêmicas

“A Calha Norte conseguiu manter longe de si o agronegócio, as estradas e o desmatamento, mas também os cientistas.”  A declaração do ornitólogo Alexandre Aleixo traduz bem o quadro de desconhecimento biológico que havia sobre a região até bem pouco tempo atrás.

O primeiro levantamento da biodiversidade que existe na porção mais preservada do Pará só foi feito entre 2008 e 2009. Dois anos antes, o governo estadual havia decidido criar cinco unidades de conservação (UCs) na região, mas precisava de informações sobre quantas espécies vivem ali e como elas se distribuem para elaborar planos de manejo e políticas de preservação. Foi a demanda que incentivou a pesquisa.

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Sob coordenação de Aleixo, uma equipe do Museu Paraense Emílio Goeldi partiu, então, numa maratona de sete expedições, ao longo de 12 meses. Além de contabilizar alguns milhares de espécies de fauna e flora que se espalham pelos 13 milhões de hectares das cinco Ucs, o inventário mostrou que a região tem uma peculiaridade. Ela apresenta o maior número de espécies endêmicas de toda a Amazônia.

“Em termos de biodiversidade, a parte oeste da Amazônia, entre os Rios Negro e Madeira, tende a apresentar uma maior riqueza de aves, primatas, peixes, bem mais que a Calha Norte. Mas ela tem um grande número de espécies que só ocorrem ali. O que significa que programas de conservação têm de ser muito específicos para elas”, explica Aleixo.

Considerando a história geológica da Amazônia, a Calha Norte é uma das áreas onde a floresta é mais antiga. “Até 500 mil anos atrás, esse tipo de vegetação não cobria toda a Amazônia. Ainda havia muito Cerrado, Caatinga. E o que hoje conhecemos como Calha Norte serviu como um refúgio que abrigava várias espécies. Quando a floresta passou a ocupar todo o espaço, as espécies migraram dali para povoar toda a região”, diz o pesquisador.

Ao todo, o trabalho registrou cerca de mil espécies em cada uma das expedições, mas muitas, obviamente, ocorrem em mais de um ponto. A análise posterior que ainda está sendo feita deve fechar entre 2 mil e 2,5 mil espécies os habitantes da área estudada. Só de plantas, são mais de mil, sendo 30% endêmicas. Entre a fauna, as aves são o grupo mais numeroso, com cerca de 700 espécies – 20% delas endêmicas.

A investigação do material coletado também já resultou na descrição de três novas espécies: um peixe (Stenolicmus ix, um tipo de bagre) e um anfíbio (Microcaecilia trombetas, um tipo de cobra cega) já publicados, e mais um anfíbio ainda no prelo. “Foi avistado também o que imaginamos ser um novo primata, mas não foi possível capturar o animal para investigar. E é só o começo. Nossa expectativa é que mais novidade vem aí pela frente.”

Pedras no caminho

O que manteve pesquisadores por tantos anos longe da Calha Norte foram os mesmos obstáculos que têm mantido o desmatamento afastado da região. É muito difícil chegar lá. Os rios da região são, em vários trechos, cheios de pedra, com corredeiras e até cachoeiras. Por eles, barcos grandes ou médios não passam. Só índios e quilombolas experientes a bordo de voadeiras estreitas.

Helicóptero

Para romper esse isolamento, os cientistas do Goeldi tiveram de viajar de helicóptero, oferecido pela mineradora Rio Tinto. A ONG Conservação Internacional financiou gastos com alimentação e materiais. Assim grupos de 30 a 40 pessoas, entre pesquisadores e equipe de apoio, puderam ser deslocados para as sete áreas remotas da margem esquerda do Rio Amazonas. “Honestamente, quando a Secretaria de Meio Ambiente encomendou o estudo, achei que a gente não conseguiria fazer”, conta Aleixo.

Os primeiros a chegarem eram trabalhadores que basicamente eram deixados no meio da mata fechada para abrir picadas e fazer uma clareira para que o helicóptero pudesse descer. Depois eles abriam quatro trilhas de cinco quilômetros em forma de cruz, que é a área que seria inventariada pelos pesquisadores.

Eram duas semanas só para preparar o acampamento. Depois mais duas semanas para fazer o levantamento. E toca correr para o próximo local de trabalho, no que Aleixo brincou ser um “regime de expedição permanente”. Foi rápido, e até curto pelo tamanho da área, mas foi o primeiro passo para preencher a maior lacuna que havia sobre a biodiversidade da Amazônia.

Por: Giovana Girardi
Fonte: O Estado de S. Paulo

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