Energia elétrica receberá R$ 148 bilhões em cinco anos

Tolmasquim, da EPE: R$ 120 bilhões para geração de energia elétrica, com prioridade para fontes renováveis

Deverão ser contratados na iniciativa privada R$ 148 bilhões em projetos na área de energia entre este ano e 2017, com destaque para uma linha de transmissão de 2,5 mil quilômetros que interligará a usina hidrelétrica de Belo Monte com o sistema nacional e para a licitação da usina hidrelétrica de São Luiz dos Tapajós, no rio Tapajós, no Pará. A expectativa é de que o leilão da linha de corrente contínua e 800 kiloVolts (kV), tecnologia inédita no Brasil e que irá aumentar a capacidade de escoamento de energia elétrica entre as regiões Norte e Sudeste, seja realizado no segundo semestre. Já a usina de São Luiz dos Tapajós, com 6.133 MW de potência e um dos projetos no Complexo de Tapajós, deverá ter seu leilão realizado no início de 2014.

No primeiro semestre deve ser realizado um leilão para a usina hidrelétrica de Sinop, no Mato Grosso, com 400 MW de potência instalada. No segundo semestre, a intenção é de licitar os empreendimentos hidrelétricos de São Manoel (700 MW), Davinópolis (74 MW), Apertados (136 MW) e Ercilândia (97 MW). “Estamos estudando o leilão da usina Três Irmãos, da Cesp, que não renovou sua concessão, e um leilão de energia para daqui a três anos, com foco nas eólicas e em biomassa”, diz Mauricio Tolmasquim, presidente da Empresa de Pesquisas Energéticas (EPE), órgão estatal ligado ao planejamento do setor elétrico. “Entre este ano e 2017, iremos licitar R$ 148 bilhões em projetos, dos quais R$ 120 bilhões se referem a projetos de geração de energia elétrica, com prioridade para fontes renováveis”, afirmou Tolmasquim durante o fórum Infraestrutura e Energia no Brasil: Projetos, Financiamentos e Oportunidades, apoiado pelo Valor e BTG Pactual.

Entre os grandes projetos hidrelétricos que o governo pretende licitar nos próximos cinco anos, ele citou, além da usina de São Luiz dos Tapajós, os empreendimentos de Jatobá (a ser licitado em 2015 e com 2.300 MW de potência), Bem Querer (em 2016 e com 700 MW de capacidade) e Simão Alto (previsto para ser leiloado em 2017 e potência de 3.500 MW). Todos estão localizados na região Norte e, juntos, devem demandar mais de R$ 20 bilhões de investidores. Em fontes alternativas, também no horizonte de cinco anos, pretende-se contratar 5,6 mil MW de projetos, com investimentos de R$ 23 bilhões. Em PCHs, a estimativa é licitar 1,1 mil MW. Em térmicas a gás, são 1500 MW, o que demandaria de R$ 2,9 bilhões. “Mas esse número poderá crescer com mais viabilidade de gás natural.”

Para Tolmasquim, o risco de racionamento de energia neste e no próximo ano é zero. “Haverá um acréscimo de 8,5 mil MW de capacidade neste ano, com destaque para a usina hidrelétrica do rio Madeira, e haverá aumento da interligação do sistema, com a linha de transmissão do Madeira até o Sudeste, que entrará em operação em maio”, diz. Entre 2001 e este ano, a capacidade de escoamento de energia entre o Sudeste e o Nordeste aumentou duas vezes e meia.

A queda dos reservatórios das hidrelétricas ao nível mais baixo dos últimos dez anos destaca a importância de o país continuar expandindo sua base térmica, que hoje está em 15% da capacidade do sistema de geração nacional. O avanço das hidrelétricas na região Amazônica, que reúne 70% do potencial hidrelétrico brasileiro, tem incorporado o conceito das usinas a fio d”água, que, por aproveitarem a vazão do rio, dispensam a construção de grandes reservatórios como feitos antigamente, reduzindo a área alagada.

A questão é que, ao se dispensar a construção de grandes reservatórios, diminui-se a energia armazenada, porque no período de chuvas os grandes reservatórios acumulam água para geração posterior. Como o governo tem um planejamento hidrotérmico, essa escolha exige uma energia de segurança térmica, porque sem água essas hidrelétricas param de funcionar. “Como não se vislumbra uma mudança nessa visão de construção no curto prazo, pela polêmica ambiental, precisaremos expandir a base térmica, seja com gás natural, seja com carvão”, diz presidente da Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib), Paulo Godoy.

No Plano Decenal 2021, elaborado pelo governo federal, previa-se a entrada de 700 MW em térmicas a partir de 2015, mas o número deverá ser revisado para cima. “Hoje temos um gargalo na oferta de gás, mas há perspectivas de gás não convencional, o que poderemos ver na 11ª rodada de leilões de blocos de óleo e gás a ser feito pela Agência Nacional do Petróleo (ANP) neste ano”, afirmou. Hoje, a maior parte da expansão do segmento é feita pela contratação de Gás Natural Liquefeito (GNL), muito mais caro que outras fontes tradicionais. Enquanto nos Estados Unidos, o gás de xisto custa US$ 3 por milhão de BTU, o GNL chega a custar cinco vezes mais. “O gás do pré-sal ainda está distante e poderá ser caro, porque está em locais distantes da costa brasileira, o que aumenta o custo de transporte e exploração, mas o gás não convencional poderá sair a preços muito mais competitivos.”

“Não vejo as térmicas sendo desligadas este ano”, diz o ex-presidente da Eletrobras e Light, José Luiz Alquéres. “Acho que seria preciso aprofundar estudos de engenharia e ambientais para otimizar os projetos hidrelétricos e voltarmos a construir grandes reservatórios nas hidrelétricas. O foco teria de ser dar na alta qualidade desses projetos, o que ajudaria a vencer resistências, além de a concessão do empreendimento ter foco nas bacias, olhando-se o todo e não uma parte”, afirma Alquéres.

Nas fontes alternativas, o destaque será o acréscimo da presença das usinas eólicas, que até o fim do ano deverão chegar a 2 mil MW de potência instalada em projetos. Entre 2005 e 2011, dos 64 mil MW contratados nos leilões de energia realizados pelo governo, 10% do total, ou 6.750 MW, se referem a projetos eólicos, cuja potência deverá atingir em 2016, pelo menos, oito mil MW, cerca de 5% da capacidade instalada no país. Até 2021, a potência instalada poderá chegar a 14 mil MW, mesma capacidade da usina hidrelétrica de Itaipu. No Plano Decenal 2021, há um portfólio de projetos eólicos habilitados tecnicamente pela EPE de cerca de 600 empreendimentos cuja potência total supera 16 mil MW. Deste, 450 projetos localizam-se na região Nordeste, que totalizam cerca de 12 mil MW e 150 projetos são da região Sul com cerca de 4,3 mil MW. “As eólicas e usinas a biomassa ainda têm muito potencial, por terem alta complementariedade com as hidrelétricas”, diz Tolmasquim.

As empresas têm se movimentado na área. A Bioenergy, que mantém pouco mais de 40 projetos eólicos em desenvolvimento no Estado do Maranhão que poderão acrescentar 1,5 mil MW de capacidade, está trabalhando para colocar de pé a primeira etapa dos projetos, que envolve 24 parques de 30 MW de capacidade cada um. O início da geração gradual dos projetos está previsto para março de 2014. Serão investidos R$ 2 bilhões. Para antecipar a geração dos projetos em média em dois anos e meio, a empresa está investindo R$ 110 milhões na construção de uma linha de transmissão própria, prevista para entrar em operação no mês de fevereiro.

Por: Roberto Rockmann
Fonte: Valor Econômico

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