Yanomami fazem intercâmbio sobre boas práticas de coleta de castanha na Terra Indígena Wai-Wai

Trabalho incluiu uma visita aos castanhais e coleta coletiva. Yanomami adquiriram mudas de variedades de plantas de roça, como macaxeira, mandioca brava e flecha

Entre 14 e 17 de maio, oito indígenas Yanomami participaram de um intercâmbio de conhecimentos sobre coleta de castanha do Brasil na comunidade Anauá, na Terra Indígena (TI) Wai-wai, no leste de Roraima.

Os Yanomami escutaram a experiência dos Waiwai e também conheceram as estruturas para secagem e armazenamento do produto. Os moradores de Anauá participam, junto com outras comunidades waiwai, de um bem sucedido projeto de coleta de castanha.

O intercâmbio incluiu uma visita aos castanhais e coleta coletiva. Foram apresentadas algumas das boas práticas que garantem qualidade ao produto. Os Yanomami também adquiriram mudas de variedades de plantas de roça, como macaxeira, mandioca brava e flecha.

Waiwai apresentam para os Yanomami secador de castanha na comunidade Anauá, TI Wai-Wai | Moreno Saraiva Martins-ISA

O ISA e a Hutukara Associação Yanomami apoiam a coleta de castanha pelos Yanomami, desde 2010, com o objetivo de buscar a sustentabilidade econômica e cultural do projeto, desenvolvido nas comunidades Xikawa e Cachoeirinha, da região do Ajarani, na TI Yanomami (AM/RR). A primeira ação realizada foi um mapeamento dos castanhais para avaliar a capacidade produtiva da região. Depois, duas bases de apoio e armazenamento foram construídas e uma oficina de construção de canoas foi realizada para garantir o transporte da produção.

Em 2013, buscando ampliar as parcerias para apoiar a coleta pelos Yanomami da região do Ajarani, ISA e Hutukara firmaram parceria com Fundação Nacional do Índio (Funai), Serviço Brasileiro de Apoio à Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). O objetivo é aprimorar a qualidade da castanha coletada e conseguir inserir o produto no mercado a preços justos, buscando a sustentabilidade da atividade. O primeiro fruto dessa parceria foi o intercâmbio.

Ainda estão previstas três oficinas em 2013 sobre boas práticas de coleta. A motivação para as parcerias é o sucesso que o projeto alcançou nas comunidades waiwai, nas Tis Trombetas Mapuera e Wai-wai.

Projeto Wai-wai

A coleta de castanha atualmente é uma atividade econômica central para os Waiwai. As demandas de bens da cidade, que fazem parte do cotidiano das comunidades, hoje são quase totalmente supridas pelos recursos conseguidos com a venda da castanha. São comprados principalmente motores de popa, material de pesca, cartuchos para caça, redes, motoserras para abertura de roças e motocicletas para o deslocamento até as cidades mais próximas.

A importância da coleta é tanta que as lideranças waiwai da comunidade Anauá contam a história da luta de demarcação de sua terra como o processo que retirou os não indígenas que exploravam os castanhais de seu território tradicional.

Em 2007, as comunidades waiwai começaram a demandar da Funai um apoio mais sistemático na coleta de castanha, até então coletada sem técnicas que garantissem sua qualidade e vendida a preços baixos para atravessadores. Para suprir essa demanda, em 2009 a Funai buscou apoio técnico e firmou uma parceria com o Sebrae e a Embrapa.

As duas organizações waiwai – Associação do Povo Indígena Wai-wai (APIW) e Associação do Povo Indígena Wai-wai do Xaary (APIWX) – protagonizaram a relação com as organizações não indígenas. Essa parceria resultou em uma série de oficinas de boas práticas na coleta de castanha e culminou num contrato firmado entre as duas associações e a empresa Palmaplan, em 2012. A empresa comprou 200 toneladas de castanha e outras 100 toneladas foram vendidas para atravessadores. Em 2012, a coleta foi financiada pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).

Uma das principais preocupações dos Waiwai, para 2013, é diversificar os compradores, encontrando novas empresas que possam garantir a aquisição de toda produção, eliminando totalmente a participação dos atravessadores.

Indicadores Socioambientais

O intercâmbio entre os Waiwai e os Yanomami serviu ainda para que o ISA apresentasse uma proposta de atividade de um projeto de indicadores socioambientais locais do Programa de Monitoramento de Áreas Protegidas. A ideia é que as comunidades da TI Wai-Wai façam parte de uma iniciativa para elaboração de metodologia de levantamento de informações socioambientais locais. O sistema em elaboração pretende estimular o protagonismo dos próprios povos indígenas na produção e organização de informações. O projeto de coleta de castanha dos Waiwai também deve ser beneficiado com as oficinas sobre o uso de GPS e mapeamento, que integram o levantamento socioambiental local. A demanda de mapeamento dos castanhais foi apresentada pelas lideranças waiwai durante conversas com integrantes do Programa de Monitoramento de Áreas Protegidas.

Por: Moreno Saraiva Martins e Tiago Moreira dos Santos
Fonte: ISA

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