O design da Terra

A geógrafa Bertha Becker nos deixou há uma semana. E, mesmo na hora de sua morte, ela nos induz a olhar para a frente, como sempre fez ao longo de sua vida. Seu último livro me foi apresentado em momento simbólico, em 18 de junho, quando ela me recebeu em seu apartamento de Copacabana para a última de nossas tradicionais conversas. Era o dia em que a imprensa brasileira e internacional destacava o paralelo – a partir do uso pelos manifestantes das mesmas máscaras – entre os protestos nas ruas de São Paulo e Istambul. “Sacou?”, comentou Bertha, apesar da fraqueza, com sua risadinha marota. “As cidades funcionando em rede. Será que vai cair a ficha?”

Pronto. Nem tomamos café e já estamos dentro do livro. Fica claro como Bertha capturou a inovação contida nos trabalhos de autores como Castells ou Peter Taylor com quase uma década de antecipação em relação ao debate atual que os torna referências. E mais: a peculiaridade amazônica faz com que a perspectiva da autora leve tais análises a suas consequências extremas, o que torna a leitura de Urbe Amazônida, tempestivamente lançado pela Garamond, mais do que uma instigante provocação da autora que aplicou à Amazônia os conceitos da fronteira móvel. Trata-se também de uma oportunidade para iniciar uma reflexão culta e estratégica sobre a conjuntura atual. “Uma espécie de instant book involuntário?”, pergunto para ela, que responde “Cada coisa tem seu momento”.

Parece que a autora havia pressentido o que ocorre nas ruas nessas semanas quando junta a solidez da análise acadêmica com a contundência de um cartaz da revolução do vinagre em frases como esta: “São muito diferentes os espaços de lugares centrais e os das cidades: os primeiros são dos Estados e submetidos a hierarquias locais, e os últimos são das redes não locais”. Ela explica que “ser parte de uma hierarquia é muito diferente de ser um membro de uma rede”. E liquida as análises convencionais apontando para a constatação de que cidades “são processos e não podem ser simplesmente definidas pela extensão ou tamanho da população”.

Além dos apetitosos apelos para a conjuntura, a reflexão leva a entender como o Brasil pode fazer ótimas limonadas de vários limões espalhados por aí. Já passou da hora de desafiar mitos peculiares, por serem compartilhados por partes tidas como opostas, como o falso dilemma entre desenvolvimento e conservação. A manutenção desse fictício antagonismo dificulta ambos, associando a tais conceitos atributos paradoxais. Considerar a devastação do ambiente como compatível com o desenvolvimento – ou até mesmo condição para tanto – levou na prática à inviabilidade do desenvolvimento, substituído por surtos econômicos. Da mesma forma, associar à conservação o conceito de preservação intocável impediu o aprofundamento dos saberes que visam à conservação. Mais uma vez, os extremos amazônicos ajudam a compreender melhor a história do Brasil.

Para chegar a tais conclusões, é preciso partir de longe. É inédita a análise das quatro abordagens da fase histórica – meados do século 17 – em que se define, na Amazônia, a transformação dos aldeamentos das companhias religiosas em vilas de noção pombalina: as modalidades portuguesa, holandesa/caribenha, espanhola e francesa, cujos traços influenciariam a formação do território.

Outra leitura reveladora – e inspiradora – é a descrição de como o “trabalho novo” dos brancos formadores das cidades amazônicas se sustentou no “trabalho velho aparentado” dos indígenas, análise que rompe com conceitos tradicionais de separação e aponta para proximidade e continuidade dinâmica entre assentamentos originais e as cidades produto da colonização.

Com pinceladas a respeito do desenvolvimento de cidades como Belém, Manaus, Parintins, Imperatriz, Rio Branco, Santarém, o livro busca caracterizar, evitando dar uma resposta única e generalizada, os “surtos econômicos” que as caracterizaram, entre longas estagnações. E aqui deveria cair mais uma ficha, para tomadores de decisão de políticas públicas e empresariais: a fronteira que consideramos normalmente para efeitos de ocupação da Amazônia – isto é, aquela agropecuária – veio depois de séculos de fronteira urbana.

Eis que o refrão do conservar para produzir se espelha, e assim ganha sustentabilidade, no “produzir para conservar” da autora, e a partir dessa dinâmica se vislumbra um novo padrão viável de desenvolvimento. Não porque um novo padrão seja por si só desejável, mas sim pela oportunidade de uma revolução científico-tecnológica transdisciplinar, com forte caracterização industrial, que viabiliza uma economia florestal. Ela guarda parentesco com o conceito de civilização da biomassa de Ignacy Sachs, mas com um atributo importante: tem nas cidades suas condições-chave, não apenas como base logística, mas principalmente pela necessidade de a economia florestal se desenvolver com cadeias de valor completas, que requerem o meio urbano.

As revoluções científico-tecnológicas, longe de se limitar a novas técnicas, geram modos de produzir (e de consumir) para os quais é necessária uma adaptação tempestiva, pois afetam as relações sociais e de poder, além de forçar mudanças no quadro institucional e de tomada de decisão. Como já alertado por autores como Castells e a própria Becker, em seus textos antecipadores de uma década atrás.

Pela última vez, Bertha prefere nos provocar com algumas pitadas de ambiguidade, de forma a instigar a busca de uma diversidade de respostas. A autora de frases icônicas como “a geografia não é a descrição da Terra, e sim o design, o projeto da Terra”, aponta para onde procurar, mais do que fornecer cômodas explicações mastigadas.

* ROBERTO SMERALDI É JORNALISTA, DIRETOR DE POLÍTICAS DA OSCIP AMIGOS DA TERRA – AMAZÔNIA BRASILEIRA, VICE-PRESIDENTE DO INSTITUTO ATÁ E AUTOR DE ‘NOVO MANUAL DE NEGÓCIOS SUSTENTÁVEIS’

Fonte: O Estado de São Paulo

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