‘Terra-mãe está sofrendo’, denuncia líder yanomani em conferência na UFMG

Davi explicou os conceitos yanomami hutukara e urihi

O xamã yanomani, Davi Xirianá Kopenawa, fez na manhã de hoje, no auditório da Reitoria da UFMG, uma defesa veemente dos territórios indígenas e da preservação dos recursos naturais do planeta. “Estamos aqui sentados na barriga da nossa terra-mãe”, afirmou ele, numa das metáforas que usou ao longo da conferência O cosmo segundo os Yanomami: Hutukara e Urihi.

“Será que o homem não pensa nos outros, no futuro? Hutukara (a terra) está sofrendo, mas ele não vai gritar como gritamos. Hutukara é igual a nós; está vivo e cuida de nós. Mas agora hutukara está sangrando, como nós sangramos quando nos cortam o dedo”, disse o líder indígena, premiado nacional e internacionalmente por sua luta em defesa da floresta amazônica e dos povos autóctones.

O líder indígena criticou duramente as atividades econômicas que se valem da exploração das riquezas naturais, chamando de ‘homem-cobra’, o sujeito que, “com as mãos cheias de dinheiro não nos deixa viver e fala em progresso e desenvolvimento para estragar hutukara”.

Nesse contexto, ele discorreu sobre a atividade mineradora, carro-chefe da economia de Minas Gerais. Para o líder, o minério é um patrimônio da terra e nela deveria permanecer. “Recurso natural tem que ficar junto com a hutukara, inclusive as pedras preciosas. Sem minério, hutukara fica fraca. Homem cobra vem cavando buraco, tirando minério. Minério não se come”.

Corpo unido

A conferência de Davi girou em torno de dois conceitos:hutukara e urihi. O xamã esclareceu que hutukara, na linguagem yanomami, é terra, deposição de areia, pedra, barro, minério, etc. O substrato de onde floresce urihi, a cobertura, “o cabelo da terra” são as árvores, rios, a floresta. Mas esses elementos são indissociáveis, na filosofia indígena. “São nomes diferentes, mas uma hutukara só; é um corpo unido, não pode ficar separado”, comenta.

Davi finalizou sua exposição em defesa da preservação dos recursos com um apelo aos homens brancos: “É isso que eu queria colocar em suas cabeças. Minha palavra vai ficar na filosofia de vocês. Nós somos um povo indígena, guardião da terra, estamos aqui para proteger”, concluiu.

Na conferência – que teve os professores Ana Rabelo Gomes, da Faculdade de Educação, e Rubem Caixeta, do departamento de Antropologia como anfitriões –, foi lançada a seguinte questão: “O que o nosso saber científico tem a dizer para o indígena, e o que o indígena tem a dizer para a comunidade científica?”.

A conferência compõe o ciclo Davi Kopenawa e a Hutukara: um encontro com a cosmopolítica yanomami, que segue até sexta-feira, 8 de novembro. Confira a programação.

A promoção é do Programa Cátedras do Instituto de Estudos Avançados Transdisciplinares (Ieat), com apoio das pró-reitorias de Planejamento, Extensão e Graduação, do programa Formação Intercultural de Educadores Indígenas (Fiei), Observatório Educação Escolar Indígena (Oeei), Grupo de Educação Indígena e Laboratório de Etnologia e do Filme Etnográfico, do Forumdoc 2013.

Yanomami

A comunidade yanomami possui em torno de 26 mil remanescentes espalhados pela floresta amazônica em territórios brasileiro e venezuelano, sendo 17 mil só no Brasil

No ano passado, a etnia celebrou 20 anos da homologação da terra indígena yanomami pelo governo brasileiro. A conquista foi resultado de uma longa luta pela demarcação do território e expulsão de fazendeiros e garimpeiros interessados em extrair recursos.

Para cuidar das questões destes povos e da região, foi criada, em 2004, a Associação Yanomami Hutukara, da qual Davi Kopenawa é presidente.

Fonte: UFMG – Universidade Federal de Minas Gerais

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