Pesquisadores estudam a relação das tartarugas de Galápagos com fósseis de jabutis gigantes do Acre

Jabuti pré-histórico, de um metro de altura, coletado em Assis Brasil (AC), além da carapaça de um jabuti da atualidade

Para saber qual a relação entre as tartarugas de Galápagos, no Equador, com os fósseis de jabutis gigantes coletados na Amazônia brasileira, pesquisadores da Universidade Federal do Acre (Ufac) estão finalizando o projeto intitulado “Jabutis de Galápagos: Origem e Evolução”, que será submetido a órgãos financiadores.

Um jabuti pré-histórico, de um metro de altura, coletado em no Rio Acre, em Assis Brasil (AC), na froteira com o Peru e Bolívia, em 1995, é considerado pelos paleontólogos como o mais provável ancestral dos quelônios terrestres gigantes que vivem na atualidade exclusivamente no arquipélago Galápagos, no Equador.

A tese de que parte da Amazônia Sul Ocidental, a região onde hoje é o Estado do Acre, já foi um megapantanal durante o período Mioceno (5 a 8 milhões de anos) tem sido cada vez mais reforçada através dos estudos já realizados pelos pesquisadores do Laboratório de Paleontologia da Ufac.

Em capítulo do livro “Paleontologia: Cenário da Vida”, volume 5, da editora Interciência, a ser lançado ainda este ano, de autoria dos paleontólogos Jonas Filho, Edson Guilherme e Ricardo Negri, os três pesquisadores discorrem mais uma vez sobre a temática.

Dessa vez, utilizam a fauna de crocodilianos gigantes das espécies Purussaurus brasilliensis (o maior jacaré do mundo, também coletado no Acre), Mourassuchus amazonensis e Gryposuchus jessei como elementos irrefutáveis de que as tartarugas gigantes de Galápagos tiveram origem na Amazônia brasileira, precisamente na região do Acre.

Os pesquisadores descrevem que mudanças climáticas radicais teriam aumentado a temperatura da região e ocasionado grandes períodos de seca, por milhões de anos, até os lagos secarem completamente, resultando principalmente na falta de alimentação.

Por consequência, apesar da enorme resistência que o grupo possuía, os grandes jacarés teriam perdido a capacidade de sobrevivência ao meio e pouco a pouco foram se extinguindo.

O cenário posterior, antes da atual floresta, segundo os três autores, foi uma savana habitada pelos mastodontes (aparentados dos elefantes), preguiças gigantes, dentre outros animais, na maioria, atualmente extintos.

Na sequência dos estudos paleontológicos na Amazônia, os pesquisadores coletaram achados de jabutis que, após reconstituição, se revelaram como os maiores já identificados no mundo paleontológico.

O Laboratório de Paleontologia exibe o fóssil do jabuti gigante que, pelo tamanho, supera os jabutis de Galápagos. O fóssil do animal foi coletado no município de Assis Brasil (AC), na fronteira do Brasil com o Peru.

O jabuti de pedra, gesso e espuma mede um metro de altura, 1,65 metro de comprimento e 90 centímetros de largura. O animal, que viveu na Amazônia brasileira há 8 ou 5 milhões de anos, é muito parecido, embora maior, ao que vive atualmente nas ilhas do oceano Pacífico, em frente ao litoral do Equador.

Segundo os pesquisadores da Ufac, o achado pode representar a linha evolutiva das chamadas “tartarugas de Galápagos”. Ou seja, o berço das espécies conhecidas em Galápagos pode ter sido na Amazônia brasileira.

– O que sugerimos agora é a possibilidade de uma relação entre as tartarugas de Galápagos e os gigantescos jabutis fósseis coletados no Acre – disse ao Blog da Amazônia o palentólogo Jonas Filho, que coletou e descreveu para a ciência o Purussaurus brasilliensis, o maior jacaré do mundo.

E como é possível que os jabutis gigantes tenham se dispersado por tantos quilômetros distantes e restado sobreviventes lá, em Galápagos, no Oceano Pacífico, e não no Acre?

– É possível que tudo tenha acontecido por consequência de dois fatores relacionados ainda durante o período das variações climáticas, que gerou escassez de água e de alimento, e que resultou no desaparecimento do megapantanal e sua paleofauna, durante o período Mioceno – comenta o pesquisador.

Segundo Jonas Filho, um dos fatores está relacionado com a evolução das Cordilheiras dos Andes que, no Mioceno inferior, não deveria ter alcançado completamente seu ápice de elevação.

– O outro é que, nestas condições, na busca desesperada por sobrevivência, alguns jabutis teriam possivelmente encontrado uma passagem de fuga e chegado ao Equador, depois às ilhas do Pacífico. Para entendermos melhor esta questão temos que seguir as pistas – acrescenta.

Edson Guilherme afirma que a hipótese da relação das tartarugas que se extinguiram no continente com as que sobreviveram nas ilhas Galápagos partiu do cientista Charles Darwin, autor de “A Origem das Espécies”, que passou pelo arquipélago.

– Após notar que em cada ilha do arquipélago havia espécies diferentes de tartarugas terrestres gigantes de origem continental, Darwin concluiu que os animais poderiam ter chegado da América do Sul agarrados a troncos ou em cima de árvores.

É para seguir as pistas deixadas pelos jabutis e reforçarem sua tese que os pesquisadores da Ufac elaboram o projeto “Jabutis de Galápagos: Origem e Evolução”.

– O projeto terá várias fases com coletas de material fóssil, estudos anatômicos, análises cladistícos e de dados genéticos. Deverá contar com a colaboração de uma equipe multidisciplinar – assina Jonas Filho.

No Acre, além do Purussaurus brasiliensis, também já foi coletado o fóssil do Mourasuchus nativus, uma espécie de jacaré típica da América do Sul, que possuía um crânio longo e esmagado, além do fóssil da carapaça de uma tartaruga mata-mata (Chelus fimbriatus) de cerca de dois metros de diâmetro.

Por: Altino Machado
Fonte: Terra Magazine/ Blog da Amazônia 

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