Apoio do IEB e outras entidades a grupo de agricultores busca compensar falta de políticas públicas

Agricultura familiar em São Félix do Xingu é praticada por trabalhadores precariamente atendidos pelo Estado

As estradas de terra que permeiam a zona rural de São Félix do Xingu, no Pará, alternam trechos planos e sem buracos com outros coalhados de poças d’ água da largura de um pequeno riacho, cercados de lama por todos os lados e algumas ‘crateras’.

Em todo o percurso, é comum encontrar pontes feitas com toras de madeira com largura suficiente apenas para mal encaixar um carro pequeno. O motorista tem de escolher entre raspar o carter (parte de baixo do motor) ou encaixar os pneus milimetricamente sobre as vigas, com um riacho logo abaixo, para passar.

De qualquer forma, sem estes caminhos seria impossível conhecer um pouco da vida de produtores rurais que vivem sem o que chamamos de “confortos da cidade”. São pessoas que têm a sabedoria de valorizar o que possuem ao invés de ficar se lamentando por coisas que não estão ao seu alcance.

Ponte de madeira em São Félix do Xingu

A primeira casa a receber a assistente de projeto do Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB), Katiuscia Guimarães, e a reportagem foi a de D. Vilma. De Vilma Maria Venâncio dos Santos ficamos sabendo que é casada e mãe de três filhos. O mais velho deles, Adriano, é aluno assíduo da Casa Familiar Rural, escola que forma filhos de trabalhadores rurais. O jovem também é bolsista do Programa Xingu de Saberes, implementado pelo IEB com o objetivo de incentivar a formação dos jovens para que permaneçam no campo.

É Adriano quem ensina a mãe a plantar cacau no sistema agroflorestal, eficiente modelo de cultivo que permite a preservação ambiental, evitando a derrubada de árvores e permitindo que a planta cresça em meio a outras culturas como milho, mandioca e banana, usadas para o sombreamento do cacau cabruca, variedade bastante conhecida na Bahia.

A chamada produção consorciada, adotada na região, é quase uma cobertura florestal. O berçário de mudas de cacau da família de D. Vilma e Adriano conta atualmente com 800 plantinhas. Todos os dias, é feito o percurso até o riacho para buscar a água da rega. Os recursos gerados com o plantio e colheita, parte para consumo próprio, traz o sustento de casa.

No caminho entre jovens cacaueiros, bananeiras e plantações de mandioca, D. Vilma aponta para uma área cheia de árvores atrás de sua casa e conta um caso digno de registro: “Outro dia, um vizinho veio aqui pedir para o Adriano ajudá-lo a derrubar aquelas árvores para fazer pasto. Meu filho respondeu que ali existem árvores grandes, como os ipês, que se forem derrubadas vão prejudicar o rio, e por isso se negava a ajudar. O vizinho disse pra ele: “Ah, agora você é defensor da natureza? Não vou mais te pedir ajuda.”

“Berçário” de mudas de cacau para plantio

A participação nas atividades promovidas pelo IEB desperta uma consciência ambiental que vai evoluindo com o tempo. Pierre Clavier, coordenador técnico da Associação para o Desenvolvimento da Agricultura Familiar do Alto Xingu (ADAFAX), uma das parceiras do IEB, afirma que é preciso compreender este efeito a longo prazo. “Neste trabalho, a questão da educação ambiental torna tudo muito mais lento. Vejo a mudança nesta geração. Hoje, estamos contando mais com os filhos dos agricultores. Nada muda em menos de 15 anos e temos de dar perspectivas para estes jovens, ao mesmo tempo em que esperamos que o grupo que chegou nos anos 1980 se aposente para que os novos assumam. Estes que plantam cacau aqui já estão mudando seu paradigma”.

Orgulhosa da atitude do filho, que se negou a participar de mais uma ação de desmatamento, D. Vilma recebeu ainda com mais gosto as visitas para o almoço, preparado no fogão de lenha. No cardápio, arroz e feijão misturados, pepino da horta orgânica colhido na hora e linguiça frita na banha de porco. Terminada a refeição, coroada com uma água fresquinha vinda de uma jarra de barro, a equipe se despediu e foi para a região do Maguari.

Orientação técnica abre novos caminhos para trabalhadores

Pouco tempo depois, já na casa do Seu Natal e da D. Marinalva, a receptividade ao grupo foi igualmente afetuosa. Em meio a uma história e outra e muitas risadas, D. Marinalva aponta a penca de bananas e diz para as visitas: “Comam!”. É costume os de fora serem tratados como se fossem da família.

Loyanne Feitosa, engenheira agrônoma contratada pelo IEB, coordenou o levantamento sobre sustentabilidade na agricultura familiar em São Félix, acompanhando 30 famílias da região. Em quatro meses de trabalho, Loyanne sempre se sentiu muito bem tratada pelos agricultores, que entendem muito bem o que é percorrer grandes distâncias. “Eles querem sempre oferecer o melhor que têm. Por serem muito menos individualistas, eles se doam muito mais para as pessoas”, testemunha ela.

O casal Natal Pereira e Marinalva Conceição Silva Pereira fala com entusiasmo sobre o trabalho do IEB, com visitas periódicas de técnicos e da engenheira agrônoma. Mais falante, D. Marinalva conta que, de uns dois anos para cá, chegaram pessoas inusitadas.

“Vieram uns gringos para cá, umas moças altas bonitas, uns moços bonitos e eu não entendia nada o que estavam falando. O Natal pediu para o moço traduzir para eles que, se querem que a gente não desmate, que nos dêem opção, senão matamos tudo”, disse, rindo muito, provavelmente referindo-se a uma das equipes de organizações internacionais presentes na região. “Quase matamos os moços de susto!” Logo em seguida, ela demonstrou preocupação: “Vejo o Natal se esforçando tanto com este cacau… O IEB está ajudando, está trazendo informação para gente, coisa que não tinha”.

D. Marinalva e Seu Natal, agricultores de cacau

Com a ajuda do IEB, a ADAFAX vem buscando inserir um grupo de agricultores e agricultoras no programa de alimentação escolar, dialogando com a prefeitura, além de construir canais de escoamento com garantias para agricultura familiar. Voltando à casa de D. Marinalva e Seu Natal, a tarde caía e todos precisavam pegar a balsa de travessia do Rio Fresco para retornar à cidade. Entrando no carro, os visitantes ouviram D. Marinalva gritar para a técnica do IEB: “Katiuscia, quando chegar gente boa assim, pelo amor de Deus, não esquece de nós! Traz aqui em casa!”.

Superação constante das dificuldades

No dia seguinte, foi a vez de conhecer a apicultora Lenice, uma das beneficiadas com o Fundo Xingu Sustentável, destinado a projetos de base agroecológica de até R$ 10 mil. O recurso vem do apoio do Fundo Vale ao projeto do IEB em parceria com Adafax em São Félix do Xingu. Como os demais, Lenice Divina Ramos Bezerra foi à luta para produzir mel há alguns anos, com muitos percalços nesta trajetória.

“Tenho uma história triste: vim para cá em 2004. Mexi com hortas, meus filhos iam vender os produtos na feira. A estrada não era nem de perto como é hoje, não passava ninguém. Quando dava, eles pegavam carona. Às vezes, ficavam sem comer lá na feira para terem dinheiro para voltar. Em 2006, minha casa pegou fogo. Foi aí que eu decidi mudar de ramo e criar abelhas. Fui procurar a Emater (Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural) e eles me orientaram a formar um grupo com 20 pessoas interessadas. Não consegui isso porque não havia outros interessados. Mesmo assim, continuei sozinha, eu e minha irmã, que sempre me apoiou”.

A apicultora estava pensando em largar tudo quando conheceu o Instituto Internacional de Educação do Brasil e recebeu apoio para conseguir acessar os recursos disponibilizados pelo Fundo Xingu Sustentável, em maio de 2013. “Eu estava desistindo deste sonho quando apareceu a Ruth (Ruth Corrêa, coordenadora de projetos do IEB) com esse fundo aí. Então pensei: Agora vai!”.

Lenice talvez não saiba calcular o impacto benéfico que sua decisão tem para o planeta. A queda brusca na população de polinizadores, sendo a abelha o mais importante deles, fez com que recentemente a União Europeia proibisse o uso de substâncias nocivas ao inseto por conta de tantas perdas na produção. A apicultora do sul do Pará planeja usar o recurso para ganhar escala com o mel orgânico.

A apicultora Lenice Bezerra produz mel orgânico

A precariedade das estradas que dificulta o escoamento da produção nesta região; a baixa qualidade no ensino, que obriga um único professor a dar aulas “multisseriadas”, ou seja, crianças de idades e séries diferentes que precisam estudar juntas porque não há outra opção; falta de luz elétrica e saúde de qualidade, que está “na UTI”, como eles próprios dizem, são os maiores entraves da região, resultantes da escassez de políticas públicas que afeta todas estas famílias.

Ainda assim, são pessoas que demonstram satisfação com o lugar onde vivem. “Gosto de tudo aqui. Gosto do sossego… Abro a janela à noite e vejo as estrelas”, diz Seu Natal. “Não saio daqui mais é nunca. Meus meninos chegaram pequenos, puderam correr por tudo isso aqui. Ficávamos imitando a “fala” dos pássaros. Está vendo aquele ali?”, pergunta para a repórter. “Chamamos de “graião”: ele diz algumas frases. Uma delas é: “Vai plantar cacau!”, conta Lenice, rindo alegremente.

Sua colega de capacitação no IEB, Solange dos Santos França, também quer falar: “Antes do IEB já trabalhava na agricultura familiar. Amo trabalhar na roça e assumo este papel. Agora acho que tudo melhorou muito, principalmente com o aprendizado. Eles incentivaram as pessoas a se organizarem, a trabalharem em grupo. Daqui para frente vai ser tudo melhor. Eu aprendi a me divertir trabalhando”.

O acesso à informação e ao recurso dos fundos, a oferta de capacitação e o fortalecimento institucional da união destes produtores, benefícios que estão sendo disponibilizados pelo IEB com apoio de outras organizações que atuam em São Félix do Xingu, proporciona condições sólidas para o desenvolvimento de um trabalho sustentável para estes agricultores, que seguem dando grandes lições sobre o viver com simplicidade e a máxima e saudável interação com o meio ambiente.

Por: Ludmila do Prado
Fonte: Envolverde
Edição: Mônica Paula e Dal Marcondes. 

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Um comentário em “Apoio do IEB e outras entidades a grupo de agricultores busca compensar falta de políticas públicas

  • 8 de fevereiro de 2014 em 22:01
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    A agricultora Lenice Bezerra, com certeza é uma meliponicultora,cria racionalmente, abelhas sem ferrão, nativas do Brasil.

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