Inauguração com obra inacabada expõe problema na Arena da Amazônia

A partida inaugural foi entre Nacional e Remo, pelas quartas de final da Copa Verde. O resultado foi 2 a 2

O primeiro teste da Arena Amazônia, inaugurada neste domingo mesmo sem estar 100% concluída, mostrou que alguns problemas precisam ser resolvidos com urgência para que o estádio esteja dentro dos padrões recomendados pela Fifa para a Copa do Mundo. A Arena será palco de quatro jogos da primeira fase da Copa: Inglaterra x Itália, Honduras x Suíça, Portugal x Estados Unidos e Croácia x Camarões.

Apesar da relevância dos jogos e do valor da obra, que custou R$ 605 milhões, ainda há problemas sérios a serem resolvidos, como a acessibilidade de pessoas portadoras de deficiências. Mesmo com toda a estrutura dentro e ao redor da Arena, com rampas, elevadores e pessoal de apoio dentro do estádio, portadores de deficiências físicas reclamaram da falta de organização e burocracia excessiva no estacionamento.

“Fomos direcionados para pararmos os carros nos quais estávamos na pista do sambódromo (ao lado da Arena da Amazônia), mas a desorganização era grande lá”, reclamou o professor Renato Neves da Silva, de 50 anos. Situação parecida também viveu a aposentada Isis Palheta, de 53 anos. “Eu cheguei cedo, às 14h30, apesar de o jogo ser apenas às 18h30, mas tomei esta atitude por conta de problemas que eu imaginei que pudessem ocorrer. E assim foi. Ao pararmos o carro na área informada, as pessoas que estavam trabalhando na orientação estavam perdidas e me exigiram uma credencial para cadeirante. Burocracia desnecessária. Não basta olhar minhas conduções e ver que estou em uma cadeira de rodas?”, indagou, afirmando que só conseguiu chegar a área reservada para assistir a partida às 16h45. “Olha o tempo que levou.”

Quem foi de carro precisou estacionar a cerca de 2km de distância. A Arena da Amazônia será palco de quatro jogos da Copa do Mundo / Elendrea Cavalcante

Quem precisou ir ao banheiro, encontrou parte da estrutura ainda por terminar. Além de materiais de construção espalhados em alguns deles, sanitários estavam sem divisórias. Nos banheiros femininos visitados pela reportagem, a única reclamação era a falta de espelho.

Na área externa, dois problemas estavam evidentes: a pouca quantidade de lanchonetes e barracas com bebidas para os 20 mil torcedores que estavam presentes na partida inaugural. Um funcionário público que preferiu não se identificar afirmou que passou 45 minutos na fila para comprar água. Quem esperava comprar lanches, em algumas filas era avisado ainda na metade do percurso que o mesmo já havia acabado.

Outro ponto visível na área externa eram as infiltrações e goteiras. Após rápida chuva durante a tarde, antes de a partida entre Nacional e Remo pela Copa Verde começar, em uma volta pela Arena, a reportagem do UOL constatou quatro pontos com goteira/infiltração, o que deixou parte do piso molhado. Além disso, o escoamento da própria água da chuva, vindo da cobertura do estádio, estava sendo despejado diretamente no pátio por onde passavam os torcedores.

Profissionais

Outra preocupação partiu da imprensa que cobria o jogo inaugural. A área destinada aos profissionais estava – segundo a visão de alguns – com acabamento improvisado e perigoso. “Sabemos que todos vêm aqui para trabalhar, mas no meio de uma confusão, esse vidro a frente das cadeiras não segura ninguém. Ele é frágil e qualquer pessoa cai fácil se escorar aqui”, disse um fotógrafo que preferiu não se identificar. A telefonia e a internet também foram alvo de reclamações tanto por parte de profissionais da imprensa quanto do público.

O comerciante Mário Lobo, 54, mostrou a visão de que, apesar de este ter sido o primeiro jogo teste, é necessário que as pessoas mudem o comportamento e respeitem algumas regras, como não sentar nas escadas. “Sabemos que isso não é permitido. Afinal, tinham cadeiras. Se o povo não respeita, cabe ao pessoal de apoio fiscalizar”, opinou.

Outro problema foi com relação aos ingressos. Mesmo após denúncia feita por um veículo de comunicação local na última semana, relatando que trabalhadores da obra da Arena haviam repassado os ingressos que ganharam como cortesia a terceiros para a venda acima do preço, quatro casos ainda foram encontrados neste domingo.

Com relação ao público que foi ao estádio, o torcedor nacionalino Arthur Marques, 33, ficou preocupado com a segurança. Segundo ele, ao passar por duas barreiras policiais no trajeto para o estádio, ele não foi revistado nenhuma vez. “Se eu tivesse uma arma de fogo, ninguém teria visto”, comentou. “Ao sair da Arena também achei a parte interna do estádio pela qual passei muito escura, sem iluminação. O que vi foram dois holofotes improvisados por um gerador. Não sei como estavam as outras áreas”.

Operários da obra tiveram direito a 35% dos ingressos para a partida

Outro lado

O Governo do Amazonas informou que outros jogos testes acontecerão antes da Copa, um para 30 mil e outro para 44 mil torcedores – a capacidade real do estádio. Durante o jogo inaugural, foi afirmado por autoridades locais que a Arena seria mais uma vez testada no próximo sábado (15). Desta vez, para a partida entre Princesa do Solimões e Fast pela final do primeiro turno do Campeonato Amazonense.

A assessoria da Unidade Gestora da Copa (UGP-Copa) explicou que a realização do jogo teste teve como finalidade a observação de problemas diversos, como os de infiltrações e goteiras, encontrados pela reportagem em alguns pontos da Arena. A mesma observação vale para os banheiros que ainda estavam sem a estrutura adequada para receber o público e para a área destinada à imprensa, que também será analisada. É após cada teste, segundo a assessoria, que os problemas estruturais poderão ser corrigidos. A assessoria informou ainda que os outros pontos serão encaminhados para o gestor da UGP Copa, Miguel Capobiango.

A Arena da Amazônia conta com um enorme cesto de metal em sua cobertura. O formato do estádio foi inspirado no artesanato indígena de palha da floresta.

Sobre o tempo de espera do público nas filas das lanchonetes e barracas disponíveis, a UGP Copa destacou que toda a estrutura ficou sobre a responsabilidade da Fundação Vila Olímpica. A reportagem não conseguiu contato com o responsável pela Fundação.

Na Arena, antes de o jogo começar, o governador Omar Aziz chegou dizendo-se feliz e apreensivo, ao mesmo tempo, uma vez que a funcionalidade do estádio estava sendo testada. “Vão ter alguns problemas que a gente terá que corrigir ao longo do tempo. É como construir a nossa casa. A gente só concluiu a obra quando se muda para dentro dela e vamos fazendo os ajustes necessários”, comparou o governador.

Já o prefeito Arthur Virgílio Neto destacou como pontos positivos do evento a funcionalidade do esquema de trânsito e segurança e acrescentou que a Arena pode receber em breve grandes eventos além do futebol. “A Arena vai servir para receber espetáculos de cultura, como os musicais. Duvido se ao chegarem com o Elton John e Mick Jagger com o convite para tocarem em Manaus com a estrutura que temos hoje, se eles recusariam”, frisou.

Fonte: UOL Notícias

Deixe um comentário