Arena da Amazônia suporta bem evento-teste, mas ainda tem falhas

Serviços de orientação, segurança e limpeza são elogiados, mas torcedores ainda sofrem com acesso, trânsito e telefonia; COL fará outro teste antes da Copa

No geral, torcedores aprovaram estrutura e serviços da Arena, mas fizeram ressalvas (Foto: Fabrício Marques)

Se estivesse em uma escola, a Arena da Amazônia certamente ficaria com nota acima da média no teste desta quinta-feira. Porém, o estádio de Manaus, que receberá quatro jogos da Copa do Mundo, ainda não está pronto para receber nota 10. No geral, os mais de 40 mil torcedores que assistiram ao empate 0 a 0 entre Resende e Vasco pela Copa do Brasil ficaram satisfeitos com a estrutura e os serviços da nova arena, mas fizeram ressalvas.

Os setores de informação e segurança foram bastante elogiados, assim como a limpeza de corredores e banheiros, considerada aceitável para um estádio de futebol lotado. O atendimento nos bares foi outro ponto que melhorou em relação ao jogo de inauguração do estádio. No entanto, ainda houve muita reclamação por conta das filas na entrada, dos congestionamentos no entorno e da ausência de sinal nos telefones celulares.

Evento-teste do Comitê Organizador Local (COL) da Copa do Mundo, a partida serviu como treinamento oficial para sete setores: limpeza, transporte das delegações, serviços ao espectador, voluntários, tecnologia (áudio e vídeo, telecom e TI), gramado e segurança privada. Nestas áreas, equipes do COL e trabalhadores contratados pelo Comitê atuaram em condições próximas às previstas para o Mundial.

Outras áreas operacionais como acesso dos torcedores, trânsito e segurança pública ficaram sob responsabilidade do governo local e da CBF.

– Nós do Comitê e da Fifa tivemos observadores em diversas áreas, mesmo que não atuando em todas elas, e estamos muito satisfeitos com o evento. Claro que como primeiro evento-teste oficial não esperávamos que tudo saísse perfeito. Mas este é o intuito do teste: observar os pontos e buscar as correções necessárias – avaliou o gerente-geral de integração operacional do COL, Tiago Paes.

– Foi nosso primeiro evento com casa cheia e conseguimos uma operação razoavelmente bem-sucedida. Continuaremos fazendo testes na Arena e nosso desafio é melhorar cada vez mais, em todas as áreas – completou o coordenador da Unidade Gestora do Projeto Copa da cidade de Manaus, Miguel Capobiango.

De acordo com Tiago Paes, apesar da avaliação positiva da partida desta quinta, a Arena da Amazônia ainda deve receber mais um evento-teste coordenado pelo COL antes da Copa. A intenção é avaliar um número maior de setores em condições operacionais próximas às do Mundial.

– Isso já estava previsto. Só não está no calendário oficial de testes porque ainda não definimos qual será o jogo – concluiu.

A partida entre Resende e Vasco foi o primeiro evento-teste com participação do COL realizado este ano. Até a Copa do Mundo, o Comitê organizará jogos nos outros cinco estádios que não fizeram parte da Copa das Confederações de 2013 e no Mané Garrincha, que recebeu apenas um jogo da competição.

Gargalo na entrada

O ponto crítico da operação da Arena da Amazônia no jogo desta quinta foi a entrada dos torcedores. Os problemas começaram logo cedo. Ansiosos pela partida, centenas de vascaínos formaram uma fila junto aos portões do estádio cerca de cinco horas antes do jogo. Quando faltavam três horas para o apito inicial – horário marcado para abertura das catracas -, policiais desfizeram a fila para montar as barreiras para a revista pessoal. Houve correria e confusão, o que acabou atrasando a liberação dos portões em 45 minutos. Insatisfeitos, muitos torcedores começaram a reclamar.

– Estava muito bem organizado até eles (policiais) chegarem bagunçando tudo. Tinham que ter colocado essas grades antes – protestou o torcedor Nonato Amaral, que ficou espremido na confusão com a esposa e o filho.

Quando os portões foram finalmente abertos – cerca de 2h15min antes do início do jogo – as filas já eram grandes e continuaram crescendo conforme se aproximava o horário da partida. A situação foi agravada pelo fato de apenas dois dos quatro pontos de acesso estarem funcionando.

– Foi horrível. Muita confusão para entrar. Acabei me separando do meu esposo no momento da revista e fiquei sozinha com as crianças. Um sufoco. Tinha que ser melhor organizado – reclamou Brenda Mota, que foi ao estádio com um filho de oito anos e outro de apenas cinco meses.

Quando faltava menos de 30 minutos para o início do jogo, as filas ainda eram enormes. Mesmo não sendo um dos setores coordenados pelo COL, funcionários do Comitê auxiliaram na operação e conseguiram liberar a entrada por um terceiro ponto de acesso que estava sendo usado apenas por idosos e pessoas com necessidades especiais. O último ponto não pode ser utilizado porque a rampa ainda estava em obras. Apesar da correria e da confusão, quase todos os torcedores conseguiram entrar no estádio antes do pontapé inicial.

– Tivemos um problema de comunicação. A chegada dos torcedores se deu basicamente toda pela Constantino Nery. Houve um acúmulo, pois era um público muito grande para apenas duas entradas. O pessoal resolveu então abrir outro portão. Houve a possibilidade de fazer essa manobra e deu certo – justificou Miguel Capobiango, que admitiu que será preciso melhorar a operação para as próximas partidas.

Na Copa do Mundo, o uso de detectores de metais semelhantes aos de aeroportos deve facilitar o processo de revista dos torcedores. Como os equipamentos ainda não foram comprados, o procedimento não pôde ser testado no jogo desta quinta-feira.

Segurança é elogiada

A segurança foi um dos itens mais elogiados pelos torcedores. Tanto na parte interna do estádio, onde atuaram cerca de 600 seguranças particulares contratados pelo COL, quanto nas áreas externas, que contaram com presença de aproximadamente 1.400 policiais.

– Já fui em outros jogos e nunca tinha visto tanto policial. Achei bem seguro – comentou o eletricista Josias Araújo.

– Mesmo no meio dessa multidão, me senti muito segura. Do lado de fora e aqui dentro – completou a esposa de Josias, Dorivan Araújo.

Segundo os responsáveis pela segurança pública, não houve registro de nenhuma ocorrência grave. Já os seguranças particulares tiveram que controlar algumas situações nas arquibancadas. Os casos mais sérios envolveram dois torcedores que resolveram provocar a torcida do Vasco – praticamente unanimidade no estádio – e entraram com camisas do Flamengo.

Cerca de 40 minutos antes do início da partida, cruz-maltinos começaram a cercar um flamenguista na arquibancada inferior, provocando e esfregando bandeiras do Vasco nele. Quando a situação começou a esquentar, seguranças chegaram ao local e escoltaram o rubro-negro até o lado de fora do estádio para que ele trocasse de camiseta (veja no vídeo).

Já no segundo tempo, houve outra confusão envolvendo um flamenguista. Desta vez, a situação foi mais grave e acabou havendo agressões. Ele também foi conduzido para fora do estádio.

– Foi uma atuação perfeita. Em um primeiro momento, a ação fica por conta da segurança privada. Havendo necessidade, é levado para um segundo estágio, com atuação das forças de segurança pública. Nos dois casos (envolvendo os flamenguistas), o problema não cresceu e a operação foi bem-sucedida – avaliou Tiago Paes.

Trânsito e telefonia decepcionam

Outros dois problemas bastante citados pelos torcedores foram o trânsito e os serviços de telefonia. Como vem sendo costume nas novas arenas, os torcedores tiveram bastante dificuldade com os serviços de telefonia. Como no jogo de inauguração da Arena da Amazônia em março, novamente foi muito complicado conseguir sinal de celular. Usar a internet móvel então era missão praticamente impossível.

– Não consegui completar nenhuma ligação. Está péssimo – afirmou o estudante Fernando Castro.

Outro ponto criticado foi o trânsito na região. Mesmo não tendo o isolamento do perímetro de dois quilômetros exigido pela Fifa para os jogos da Copa, os torcedores tiveram dificuldades para se aproximar da arena. Os congestionamentos se espalharam pelo entorno e muitos tiveram que estacionar bem longe do estádio.

– Saímos cedo de casa e só conseguimos chegar quase na hora do jogo. É preciso sinalizar melhor, organizar melhor o trânsito. Na verdade, se a maioria dos torcedores vier de carro será impossível. Uma solução seria se montassem estacionamentos em áreas mais abertas aqui por perto e colocassem ônibus para trazer os torcedores até o estádio – sugeriu o bancário Igor Lima.

Informação e limpeza agradam, mas ‘banheiros indiscretos’ ainda incomodam

Outros dois setores que contaram com a atuação efetiva do COL também receberam avaliação positiva por parte dos torcedores: os serviços de informação e limpeza.

Cerca de 200 voluntários trabalharam na orientação do público e tiveram o trabalho bastante elogiado.

– Foi ótimo. Sempre que surgia uma dúvida tinha alguém por perto para ajudar. Os turistas que vieram para a Copa do Mundo com certeza vão ser bem orientados – disse o industriário Carlison Lima.

A limpeza também foi outro ponto que agradou. Obviamente, com a movimentação de milhares de pessoas, os corredores não estavam impecáveis. Porém, o esforço constante de trabalhadores no recolhimento do lixo e na limpeza dos pisos deixou o estádio em condições aceitáveis durante toda a partida. Grande parte dos banheiros também contavam com equipes fixas de limpeza.

– A limpeza está aprovada. Confesso que esperava banheiros mais sujos. Temos que reconhecer que em um estádio não tem como ficar limpinho. Mas, na medida do possível, conseguiram manter tudo dentro do aceitável – afirmou o analista de sistemas Einaúde Menezes.

No entanto, os ‘banheiros indiscretos’, que já tinham incomodado torcedores no jogo inaugural do estádio, ainda continuam sem solução. O problema é que em muitos banheiros masculinos é possível ver pelo lado de fora a área dos mictórios. Em alguns locais, os funcionários da limpeza tentavam manter a porta apenas entreaberta, dificultando a visão interna. Ainda assim, era fácil de encontrar a situação constrangedora tanto no anel inferior quanto no superior.

– É muito desagradável. Quando fui entrar no banheiro feminino, percebi que dava para ver tudo dentro do masculino. Jamais traria minha filha aqui – reclamou a advogada Lilian Ribeiro.

De acordo com o secretário Miguel Capobiango, o problema já foi repassado para a construtora responsável pela obra, que tem projetos para solucionar a questão. No entanto, ele não detalhou quando as medidas serão aplicadas.

– Levamos o problema para a construtora, que apresentou duas soluções que parecem adequadas, com a instalação de portas com molas na entrada dos banheiros e portas de vai e vem na parte dos mictórios.

‘Senta aí’

Orientadores e seguranças particulares até que tentaram, mas não conseguiram evitar a presença de torcedores em pé nos corredores de acesso ou sentados nas escadas. O problema foi mais evidente no anel superior.

– Rapaz, aqui a visão é melhor – admitiu o militar Josias Moura, que acompanhou parte do jogo em uma escada apesar de ter cadeiras disponíveis próximo ao local.

No entanto, o que talvez ele não tenha percebido é que no lugar em que estava sentado, ele atrapalhava a visão do campo de torcedores que estavam sentados nas cadeiras das fileiras de trás.

– Atrapalha muito. Mas acho que é um problema cultural dos brasileiros, que ainda não estão acostumados com esses estádios todos com cadeiras. Acredito que somos um povo educado e com o tempo todos vão aprender que é preciso sentar nos locais corretos – afirmou o motorista Paulo Ramos.

Atendimento nos bares melhora

Principal problema apontado por torcedores na partida de inauguração do estádio, o atendimento nos bares melhorou no evento-teste desta quinta-feira. Com um número maior de atendentes nas bancadas e também vendedores individuais com caixas de isopor, as filas foram pequenas durante quase toda a partida.

– Até que foi rápido. Está dentro do aceitável – resumiu o corretor Antônio Carlos Silva.

Ainda assim, no período do intervalo, a espera foi inevitável. Para alguns torcedores, a solução seria aumentar ainda mais o número de vendedores individuais.

– Ainda acho que podem melhorar colocando mais desses vendedores com as caixas de isopor e também sinalizando melhor os bares – sugeriu o funcionário público Sandro Sousa.

Col aprova gramado, transporte e tecnologia

O gramado da Arena da Amazônia suportou bem seu terceiro jogo. Apesar de ter soltado algumas pequenas partes no decorrer da partida, a grama não prejudicou o nível técnico e foi elogiada pelo técnico do Vasco. Adilson Batista.

– Acho que deu para trabalhar direitinho. O jogo teve velocidade, a bola correu bem. As gramas desses novos estádios está padronizada. Eu gostei. Achei um belo de um campo – afirmou o treinador.

– Ouvimos o Adilson elogiando o gramado, então não precisamos falar mais nada – completou Tiago Paes.

O teste do transporte das delegações foi outro ponto positivo segundo o gerente de operações do COL.

– Esse transporte dos times não aparece para o grande público, mas é fundamental. Havia um problema na rampa de acesso dos ônibus, mas foi corrigido e funcionou bem.

Já na área de tecnologia, ainda serão necessários ajustes nos equipamentos de som, imagem e iluminação, mas os testes deixaram o Comitê Organizador da Copa satisfeito.

– Som e imagem ainda não estão totalmente regulados. Será preciso uma distribuição e equalização do som, além de ajustes na iluminação do gramado. Mas isso são ajustes previstos para acontecer com o tempo.

Por: Fabrício Marques, Isabella Pina e Silvio Lima
Fonte: Globo Esporte 

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