As aventuras do macaco Castanha na floresta

No enredo do filme, a onça que vivia em cativeiro tem de ser reintegrada à floresta: equipe de filmagem ficou semanas escondida em jaulas esperando o bicho aparecer

Podia ser só um filme fofinho sobre um macaco que vive em cativeiro no Rio de Janeiro e tem que se ver com a maior floresta tropical do mundo quando o avião em que está cai na Amazônia. A coprodução franco-brasileira “Amazônia”, que estreia no dia 26, consumiu R$ 26 milhões e produziu 400 horas de filmagem, surpreende pelo tanto que a bicharada parece envolvida com o roteiro. O elenco formado integralmente por macacos-prego, tamanduás, cobras, botos e montão de rãs e insetos de cores alucinógenas, porta-se com naturalidade diante das lentes. Parece que o diretor Thierry Ragobert gritava de cima das árvores: “Manda entrar a onça-pintada e dá uma folga na sucuri!”.

Qual terá sido a ordem das coisas? O roteiro veio antes ou foram as sensacionais imagens dos animais capturadas na mata a inspirar a história? Um pouco disso e daquilo, conta o produtor Fabiano Gullane. O longa é a mistura de um desejo e roteiro-base, forte lastro de pesquisa científica e, sobretudo, muita montagem. Normalmente gastam-se cinco meses para montar um filme, mas “Amazônia” exigiu mais de ano e meio. “Caio e eu sempre procuramos um projeto que tivesse a estatura da Amazônia”, diz, referindo-se ao sonho dividido com o irmão. Um dia de 2008 receberam o telefonema de Stéphane Millière com a ideia original da saga do macaquinho e a intenção de unir forças. Castanha, o macaco-prego simpático que sobreviveu ao acidente e agora tem que sobreviver na floresta, ganhava vida.

Fazer o longa em 3D foi uma aventura. Mais de 45 toneladas de equipamentos foram transportadas mata adentro do Pará e do Amazonas, em locações que mudavam ao sabor das chuvas, da umidade, do rio mais bonito. Um dia, em um barracão de filmagem, apareceu uma perigosa Cobra Bico de Jaca – toca correr. Foram alguns casos de malária e leishmaniose entre a trupe de 100 franceses e brasileiros – e mais 200 contratados localmente. E a onça-pintada, que sai correndo? “É a história mais legal do filme”, entusiasma-se Fabiano Gullane. O animal havia vivido em cativeiro e tinha que ser reintegrado à floresta. A equipe de filmagem ficou escondida dentro de jaulas, semanas e semanas, esperando a onça aparecer. As cenas do gavião-real exigiram uma plataforma montada em uma árvore e quatro dias de paciência. Castanha tem os melhores ângulos de quatro macacos-prego. Mais de cem espécies de animais aparecem no filme que teve a supervisão e o apoio de 15 institutos de pesquisa.

Outra curiosidade de “Amazônia” é a de ser um longa-camaleão. No Brasil, José Roberto Torero escreveu o texto que faz de pensamento do macaco protagonista. Na versão alemã há uma narração informativa, cheia de dados e números sobre a floresta. Na cópia francesa ninguém fala, só a trilha sonora. “Amazônia” encanta pela fotografia acurada, pelos sons da floresta e os incríveis animais. Já foi vendido a 65 países. “Pouca gente vai até a floresta, e se as pessoas não conhecem, não se importam”, diz Gullane. Tomara que Castanha e sua turma consigam romper um pouco este estado bruto de ignorância.

Por: Daniela Chiaretti
Fonte: Valor Econômico 

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