A história do caminhoneiro que virou acionista da Vale

William Mello associacao 2 Wellem Pereira de Melo já foi caminhoneiro de carga pesada e hoje se tornou um líder comunitário de Piquiá de Baixo. Foto: Fabíola Ortiz/O Eco

Ele foi caminhoneiro por mais de 30 anos, sua vida não tinha paradeiro programado, vivia com o pé na estrada a bordo de seu caminhão de carga cruzando as estradas do Brasil. Wellem Pereira de Melo, 56 anos, nasceu em Governador Valadares, no nordeste de Minas Gerais, mas logo mudou-se com sua família para a região de Açailândia, no Maranhão.

Na década de 1970, seu tio tinha uma propriedade perto de Piquiá e convenceu seu pai a se mudar e a fazer a vida na comunidade. Wellem e os seus nove irmãos acompanharam os pais agricultores nessa empreitada.

Aos 20 anos de idade, decidiu se aventurar pelo país como caminhoneiro. Na boleia de seu caminhão, transportou verdura, soja e vários produtos para São Paulo, Belém, Fortaleza, São Luís, apenas para citar algumas das capitais por onde passou. “Rodei o Brasil inteiro, até para a Argentina fui levando carne”, lembra Wellem.

De 1986 a 2004, o caminhoneiro apostou numa carga cobiçada, o carvão para alimentar os altos-fornos das siderúrgicas instaladas em Piquiá de Baixo. Foram 18 anos levando e trazendo carvão vegetal das carvoarias – havia mais de 400 na região – para as cinco indústrias de ferro gusa em Piquiá.

“A nossa vida mudou muito. Somos descendentes de agricultores. Através da ferrovia que expandiu, vieram as siderúrgicas. Aqui foi o local que acharam adequado para construir as indústrias”, lembra-se. Quando a então Vale do Rio Doce deu início à instalação da ferrovia, na década de 1980, “avisaram que haveria muito emprego, melhoria e desenvolvimento. Trabalho aqui era só serviço braçal e mão de obra pesada”, conta.

A vida de Wellem deu uma reviravolta nos últimos anos ao descobrir um grave problema de visão e ser obrigado a uma aposentadoria precoce.

O fim de Piquiá

Tudo mudou quando Wellem descobriu que a perda de 40% da visão o impediria de seguir sua profissão: caminhoneiro de cargas pesadas.

Um laudo médico proferido pelo Instituto de Oftalmologia de Imperatriz em março de 2012 constatou cegueira no seu olho esquerdo devido a coriorretinite em área macular – termo médico que indica inflamação da retina e que provoca sua degeneração. Ou seja, Wellem foi diagnosticado com “cegueira sem prognóstico de melhora visual”, uma patologia que gera perda de visão central e dificuldade para ver detalhes de objetos. Portanto, ele deveria manter-se afastado do trabalho com o caminhão.

“O médico falou que é uma bactéria que eu adquiri através da poluição do Piquiá de Baixo, da poeira que coçava e inflamava. O médico disse que não podia mais morar lá por causa da poluição”, disse.

DSCN4803Centenas de caminhões carregados de brita, ferro gusa e carvão circulam dia e noite pela BR-222 e deixam um rastro de poeira. Foto: Fabíola Ortiz/O Eco

Ele e sua esposa, de 52 anos, diagnosticada em 2010 com câncer de pele, rapidamente deixaram a casa onde moraram por vinte anos e se mudaram para o bairro vizinho a 2 km, Piquiá de Cima, como tantos moradores que desistiram de Piquiá de Baixo. Sua casa hoje está abandonada e, nos fundos do terreno está instalada a siderúrgica Gusa Nordeste S/A. Há quatro anos ele vive de aluguel. Com uma renda familiar de dois salários mínimos (menos de R$ 1.500), ele e a esposa pagam R$ 450 de aluguel e ainda têm muitas despesas com remédios e médicos.

Wellem faz parte de uma minoria que teve condições financeiras de deixar o povoado. Hoje, integra a associação de moradores e está engajado na causa do reassentamento das famílias de Piquiá e na luta por indenização em razão dos impactos ambientais e sociais.

Um levantamento feito pela própria associação local de moradores indicou que a maioria das famílias vive de recursos do Bolsa Família com renda de cerca de R$ 100. De 312 famílias cadastradas na associação, apenas nove tem uma renda de mais de um salário mínimo e meio – ou seja, pouco mais de R$ 1.000.

“Muitos não podem sair de lá porque não têm condições de pagar aluguel fora, mas todo mundo quer sair. Alguns trabalham fazendo bico e serviço braçal que paga uma diária de R$ 30”.

De caminhoneiro à acionista

Wellem nunca imaginou ter a oportunidade de sentar-se ao lado de empresários, executivos e acionistas do mundo da bolsa. Com pouco estudo, ele desconhece como funciona o intrincado mercado de compra e venda de ações.

Mas desde que começou a fazer parte da diretoria da associação de moradores e a se engajar junto a organizações sociais e a missionários da Igreja Católica na causa do reassentamento de Piquiá, Wellem viu que a briga era de gigantes.

Assessorado pela Rede Justiça nos Trilhos, organização que atua na região, ele comprou seis ações da Vale, em 2011, cada uma a um preço de R$ 56. Esta era uma forma de garantir-lhe a possibilidade de participar e votar na reunião de acionistas promovida pelo conselho de administração da Vale todos os anos no mês de abril.

Com o apoio de Danilo Chammas, advogado de direitos humanos que defende os moradores, Wellem seguiu para o Rio de Janeiro numa quinta-feira, 17 de abril de 2014, na véspera da Páscoa. Esta é uma estratégia comum a movimentos sociais para infiltrar-se de forma legal e assegurar o direito de comparecer e de manifestar seu voto na assembleia anual. A reunião no Rio aconteceu às 11h, no edifício Città America, na Barra da Tijuca, zona oeste da cidade.

“O diálogo com a Vale é sempre muito difícil. Queremos alertar os acionistas sobre o que está acontecendo na nossa região. Vamos cobrar respostas sobre seu dever de contribuir com o processo de reassentamento dessa comunidade”, argumentou Chammas.

Encontro de caciques

Esta foi a segunda vez que Wellem compareceu à Assembleia Geral Ordinária de Acionistas da Vale S.A. A assembleia é a mais importante reunião da empresa que coloca numa mesma sala acionistas e investidores da companhia, viabilizando suas operações.

Grandes bancos e fundos de pensão estão entre os investidores que participam. Neste encontro de caciques, são debatidas e tomadas decisões sobre temas como eleições para membros de conselhos, apresentação de relatórios e remunerações de administradores.

DSCN4343Vista de uma das indústrias de ferro gusa em Piquiá de Baixo. As fábricas estão situadas muito próximo às casas dos moradores. Foto: Fabíola Ortiz/O Eco

Apenas como exemplo, nesta mesma reunião em que Wellem esteve presente, foi votada a proposta para pagamento da primeira parcela de remuneração mínima aos acionistas em 2014, no valor de US$ 2,1 bilhões, conforme a empresa havia anunciado em 30 de janeiro.

“A gente se sente humilhado, pois os acionistas em geral não querem nos ouvir. Não nos deixam falar e fazem descaso. Tudo o que a mesa dos diretores fala, ninguém é contra e aprova tudo”, relatou Wellem ao narrar ter se inscrito para falar perante os cerca de 50 participantes.

Ele se apresentou como morador e acionista e disse que a companhia “sugava tudo e mandava para o estrangeiro, ficava no Brasil só a carcaça”. Afirmou que os acionistas não sabiam em que o dinheiro deles estava empregado. “Tentaram parar minha fala, mas os acionistas mostraram interesse e se comoveram. Falei que a rodovia federal cortava o meio da comunidade e, de um lado ficam as siderúrgicas, do outro a ferrovia. Na saída do bairro tem um britador e na entrada o entreposto de minério e ferro gusa da Vale”, contou.

Em sua fala oficial durante a assembleia, a qual ((o))eco teve acesso, Wellem declarou seu voto divergente em relação a aprovação do relatório da administração e das demonstrações financeiras referentes ao exercício social encerrado em 31 de dezembro de 2013, o primeiro item da ordem do dia.

Leia aqui sua declaração:

“A documentação pertinente a esta matéria não faz qualquer menção a minha comunidade, Piquiá de Baixo, situada às margens da Estrada de Ferro Carajás e próxima ao entreposto de minério da Vale.

Venho reivindicar os nossos direitos à vida, moradia, saúde e educação. Há mais de 20 anos estamos obrigados a conviver com a poluição, muitos dos nossos parentes e vizinhos estão adoecendo e morrendo por conta disso. Nós moradores entendemos que a Vale tem responsabilidade por esses problemas.

A Vale fornece minério para as siderúrgicas e depois leva todo o ferro gusa pela ferrovia até São Luís. Estamos lutando por nosso reassentamento em uma área livre da contaminação.

A Vale ainda não contribuiu com nada. Será que a Vale vai esperar que morram mais moradores e familiares nossos para tomar alguma atitude? Será que ainda poderei estar aqui no ano que vem? A Vale não pode esconder de seus acionistas essa história”.

Para o advogado Danilo Chammas, a participação dos moradores nessa assembleia abre uma esperança de que os acionistas da multinacional se convençam da importância que o Conselho de Administração e a Diretoria Executiva da empresa assumam o reassentamento de Piquiá de Baixo como prioridade.

Para Wellem, o destino de Piquiá é certo: “o futuro da comunidade é sair do mapa”.

William Mello associacao 3Wellem de Melo avista de longe o rio que margeia o povoado. Com um olhar de tristeza, lamenta que a poluição tenha invadido a pequena Piquiá. Foto: Fabíola Ortiz/O Eco

Por: Fabíola Ortiz
Fonte: O Eco 

Esta é a quarta reportagem da série especial Piquiá de Baixo, sobre a vida dos impactados ambientais da produção de ferro gusa no Maranhão.

 

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