Na fronteira do medo

Em luta pela demarcação de suas terras, povo Ashaninka que vive entre Brasil e Peru sofre com pressão de madeireiros ilegais, que buscam controlar à bala e fogo o território

Entre os quatro indígenas assassinados no início de setembro estavam Edwin Chota, abaixo à direita, e Jorge Rios, abaixo a esquerda. Na faixa, o território que os Ashaninka buscam reconhecimento, que abrange áreas no Brasil e no Peru (© Reproducão: ProPurus/upperamazon)

Na semana passada quatro lideranças indígenas da etnia Ashaninka, que habitam a região de fronteira entre Brasil e Peru, foram assassinados do lado peruano da Amazônia enquanto se deslocavam por uma trilha na floresta até a aldeia Apiwtxa, do lado brasileiro. Os índios eram conhecidos na região por atuarem contra a ação de madeireiros ilegais e narcotraficantes e por lutarem pela demarcação de sua terra, ao longo do Rio Tamya, no Peru.

O desfecho, ao invés de uma rara exceção, faz parte de uma realidade de violência concreta que acomete há anos os povos indígenas e tradicionais que habitam a floresta, principalmente quando a história envolve madeira ilegal. A atividade tem exercido intensa pressão na região, na fronteira do Acre com o Peru, o que tem levado povos indígenas que viviam isolados a buscar contato e socorro em aldeias próximas.

Os indígenas Ashaninka apontam como causa dos recentes assassinatos a luta de seu povo contra madeireiros ilegais e narcotraficantes que circulam livremente entre os dois países. Entre os mortos no dia 1 de setembro estava Edwin Chota, chefe da Comunidade Nativa Alto Tamaya–Saweto, do Peru, que desde 2003 vinha denunciando a atividade.

“Nosso povo sempre defendeu os nossos recursos e enfrentou madeireiros ilegais que vêem nossas reservas como um lugar para explorar. Precisamos de postos de controle nestas áreas na fronteira com o Brasil”, declarou o presidente da Associação das Comunidades Nativas Asháninkas de Masisea y Callería (Aconamac), Reyder Sebastián Quinticuari, ao jornal peruano El Comercio.

A Comunidade Nativa Alto Tamaya–Sawetofica do lado peruano do território reivindicado pelo povo Ashaninka, que também possui representantes do lado brasileiro. A região sofre com a falta de gestão e fiscalização ambiental e de fronteira, o que favorece a ação de madeireiros ilegais (© Greenpeace).

Assim como a Aconamac, outras organizações não governamentais que atuam na região publicaram cartas abertas exigindo dos governos peruano e brasileiro providências quanto a identificação e detenção dos assassinos, quanto ao reconhecimento da área como território indígena e instalação de postos de controle na fronteira.

“Enquanto não temos o título da terra, os madeireiros não respeitam a propriedade nativa”, disse Edwin Chota em entrevista ao jornalista Scott Wallace, publicada na revista National Geographic, em abril do ano passado.

Em resposta as súplicas geradas pelos assassinatos, a Polícia Federal do Brasil enviou para a aldeia Apiwtxa, do lado brasileiro, nesta quarta-feira, um efetivo de seis policiais para garantir a segurança na área de aproximadamente 60 Km. Sobre os assassinatos, a PF limitou-se a dizer, em nota, que o fato ocorreu no país vizinho e que não havia brasileiros entre os mortos.

A PF chegou a abrir um posto de controle em Marechal Thaumaturgo, região que tem sido palco de conflitos, em 2009. Mas o local foi fechado.

Encurralados

Em junho deste ano o povo Ashaninka que vive do lado brasileiro, na aldeia Simpatia, no Acre, fez contato, pela primeira vez, com um grupo de índios isolados. Cinco homens empunhando arco e flechas atravessaram o rio Envira e se deixaram ver, assoprando barulhos de animais. Depois, retornaram para a mata. Aos poucos, o contato tornou-se mais constante, com a participação de funcionários da Funai (Fundação Nacional do Índio).

A comunicação com o grupo só foi possível com o auxílio de intérpretes da etnia Jaminawá, que falam dialetos da mesma língua e o que eles relataram foi assustador.

“A maioria desse grupo contatado é de jovens. A maioria dos velhos foi massacrada pelos brancos peruanos, que atiram e tocam fogo nas casas dos isolados. Eles disseram que muitos velhos morreram e chegaram enterrar até três pessoas numa cova só. Disseram que morreu tanta gente que não deram conta de enterrar todos e os corpos foram comidos pelos urubus. Nosso povo Jamináwa compreende a língua dos isolados e nós vamos acompanhar. O governo brasileiro precisa fazer algo para defender esses povos. Eles disseram que existem outros cinco povos isolados na região e que são grupos bastante numerosos.”, disse Zé Correia, membro da etnia Jamináwa, que participou do contato como intérprete da Funai.

“A situação é grave, pois demonstra que nem isolando-se voluntariamente, como fizeram por todos esses anos numa região tão remota da floresta, esses índios conseguem se esconder dos ataques e da violência” disse Danicley de Aguiar da Campanha Amazônia do Greenpeace. “Se pensarmos no descaso do governo federal com a questão indígena, incluindo o entrave à demarcação de suas terras, vemos o cerco se fechar sobre eles e outras etnias ainda mais expostas ao desmatamento no Brasil”.

Fonte: Greenpeace Brasil

Deixe um comentário