Polinização sem ferrão, ao seu dispor

Laranjais, cafezais, hortas e pomares com caixas de abelhas são comuns. A polinização é um serviço indispensável na produção de 35% dos alimentos humanos. E se considerarmos também as plantas polinizadas pelo vento ou autoférteis (como a soja), mas cuja produtividade aumenta se visitadas por polinizadores, pode-se dizer que 75% dos alimentos dependem do trabalho das abelhas, de alguma forma. Em valor, estima-se que os serviços de polinização correspondam a 10% da produção agrícola mundial!

Quando se fala em abelhas, o que vem à mente são as europeias ou as africanizadas, ambas da espécie Apis mellifera. Elas são as polinizadoras profissionais, com nível máximo de eficiência para a maioria das culturas comerciais tradicionais, graças ao seu tamanho adequado e à sua estrutura corporal especializada. Porém, aqui no Brasil, esse “mercado” está prestes a mudar: graças a novas técnicas de multiplicação de colmeias e à valorização das abelhas nativas sem ferrão, novos serviços de polinização começam a ser oferecidos ao agricultor.

“Em lugar de fazer a divisão mais comum entre criadores – repartindo uma colmeia em duas caixas, com metade da colônia em cada caixa – produzimos as rainhas em laboratório, por meio de uma superalimentação das larvas fêmeas. Depois voltamos nas colmeias matrizes e pegamos um favinho com cerca de 100 operárias, formando uma nova colônia com a rainha e essas operárias”, conta o entomólogo Cristiano Menezes, pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental, de Belém (PA) e colaborador da biofábrica Promip, localizada em Engenheiro Coelho (SP).

Isso é possível porque as abelhas do grupo Meliponinae – ao qual pertence boa parte das espécies brasileiras sociais e sem ferrão – não alimentam suas rainhas com geleia real durante toda a vida, como acontece com as abelhas europeias e africanizadas. Qualquer larva fêmea pode se transformar numa rainha. Com essa tecnologia, ao invés de dividir uma colônia em duas, é possível produzir 10 novas colmeias a cada ano.

Comercialmente, as primeiras colmeias destinadas a serviços de polinização sem ferrão tem se destinado a produtores de morangos da região Sudeste, dada a facilidade de acesso. As vantagens são enormes: nas plantações de morangos polinizados o índice de deformidades é reduzido em 90% e o ganho de peso dos frutos fica entre 20% e 40%. A espécie utilizada é a mandaguari (Scaptotrigona depilis), que também ajuda a incrementar a produção de hortaliças, melancia, melão e café, de acordo com estudos da Embrapa Meio Ambiente, de Jaguariúna (SP).

Outra espécie em fase de multiplicação na Promip é a mandaçaia (Melipona quadrifasciata), uma abelhinha “vibrante”, com um comportamento muito peculiar. “Ela é indicada especialmente para a polinização de tomate, beringela e outras solanáceas, cujas flores precisam ser ligeiramente sacudidas para liberar o pólen”, conta Cristiano. “Ao visitar a flor, a mandaçaia emite uma vibração e coleta o pólen, coisa que a abelha africanizada não tem força para fazer”. Os tomates polinizados pela mandaçaia ficam maiores, mais firmes e até o sabor muda. A diferença no preço obtido na comercialização pode chegar a 40%.

Quarenta por cento também é o aumento de rendimento das palmeiras de açaí polinizadas pela tucanaíra (Scaptrigona sp.), uma espécie ainda sem nome científico, mas já em fase de multiplicação de colmeias no interior do Pará. “Essa abelhinha tem o tamanho adequado para as flores do açaí e visita tanto as flores masculinas como as femininas no momento certo”, afirma o engenheiro agrônomo e doutor em Ecologia, Giorgio Venturieri, também pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental.

Para funcionar, a polinização do açaí demanda certa especialização por parte dos polinizadores. Em primeiro lugar, a fecundação não deve ser feita entre as palmeiras da mesma touceira: a abelhinha precisa voar de uma touceira para outra e a tucanaíra tem autonomia de voo de 500 a 600 metros. Em segundo lugar, as flores masculinas abrem mais cedo do que as femininas e têm mais néctar. Alguns insetos gulosos logo se empanturram com o néctar das flores masculinas e não frequentam as femininas, como faz a tucanaíra (e algumas outras espécies nativas, como a uruçu-amarela ou Melipona flavolineata). Ela segue trabalhando até o horário em que as flores femininas estão mais viáveis, entre 10 e 11 da manhã, segundo o pesquisador.

Venturieri agora estuda o número ideal de colmeias por hectare de açaí. Ele recomenda o uso dos serviços da tucanaíra especialmente para quem planta em terra firme, com irrigação. “A combinação da fruticultura do açaizeiro com a criação de uma abelha nativa permite gerar renda sem precisar desmatar nem introduzir um inseto exótico, como a abelha europeia”, diz. “Essa abelha sem ferrão é nativa, não compromete a ecologia local e permite colher mais frutos de açaí por palmeira, com mais polpa, além de garantir a oferta fora da safra do açaí de várzea, obtendo um preço melhor”. No auge da safra de várzea, a rasa de açaí (30 kg) é vendida por R$ 20 a R$ 30, enquanto na entressafra o preço sobe para R$ 100 a R$ 150. Por hectare, o açaí chega a render 10 vezes mais do que a pecuária.

Em termos ecológicos, as abelhas nativas são consideradas “agentes eficientes e essenciais para a reprodução e, consequentemente, para a manutenção da diversidade genética de muitas espécies de plantas em ambientes naturais e agrícolas”, conforme consta no capítulo sobre meliponicultura do livro Polinizadores no Brasil, organizado por Vera Lúcia Imperatriz Fonseca, Dora Ann Lange Canhos, Denise de Araújo Alves e Antonio Mauro Saraiva (Edusp, 2014). O livro é resultado de uma série de estudos realizados por 85 pesquisadores de 36 instituições, com a coordenação do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA-USP).

E como se todas essas vantagens não bastassem, o manejo das abelhas nativas é muito mais tranquilo, pois não há risco de ferroadas! Os prestadores de serviços de polinização não precisam redobrar a atenção com trabalhadores rurais ou visitantes, durante as floradas, e podem atender culturas plantadas em áreas povoadas ou ambientes fechados, como estufas.

A criação em laboratório de rainhas mandaguari (Scaptotrigona depilis) permite multiplicar rapidamente as colmeias (foto: Cristiano Menezes/ Embrapa Amazônia Oriental)
Abelhinhas operárias cuidam da nova geração de mandaguaris (foto: Liana John)
O alcance de voo das abelhinhas mandaguari varia entre 900 metros e 1,5 quilômetro (foto: Liana John)
Morangos sem polinização adequada ficam deformados e pequenos (foto: Katia Braga/Embrapa Meio Ambiente)
Morangos polinizados pelas abelhinhas mandaguari se desenvolvem bem e alcançam preços melhores (foto: Liana John)
Cafezais são polinizados de modo eficiente por diversas abelhas nativas sem ferrão (foto: Matheus Fortunato)
Plantações de melancias também podem se beneficiar dos serviços de polinização de meliponíneos (foto: Liana John)
Uma abelhinha do gênero Trigona visita a flor de jambo com a delicadeza necessária para a polinização (foto: Cristiano Menezes)
Uma uruçu-boca-de-renda (Melipona seminigra) carrega o pólen da flor de sapateira (foto: Cristiano Menezes)
A tucanaíra (Scaptotrigona sp.) é a espécie mais indicada para a polinização do açaí (foto: Giorgio Venturieri/Embrapa Amazônia Oriental)

Foto de abertura: Cristiano Menezes (Uruçu-amarela ou Melipona flavolineata nas flores de açaizeiro)

Assista ao vídeo Artesãs da Produtividade com duração de 5:23 minutos

Por: Liana John
Fonte: Planeta Sustentável 

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