A vocação da Amazônia

Como a produção de açaí e essências, o reflorestamento e – acredite – as hidrelétricas podem gerar renda e emprego na região e criar alternativas econômicas que convivem bem com a floresta

Luiz Antonio Correa Ferreira, catador de açaí. Sua atividade é mais vantajosa do que derrubar a mata para a pecuária (Foto: Filipe Redondo/ÉPOCA)

O caminho de destruição da riqueza natural da Amazônia é conhecido. Começa com as madeireiras predatórias, que retiram as árvores de valor comercial. Depois vêm os carvoeiros, que queimam a vegetação restante em seus fornos. Por fim, chega o fazendeiro. Ele planta capim, solta o gado e impede a regeneração da floresta. Essa sequência de eventos dura cerca de dez a 15 anos, gera empregos e renda fugazes. Depois, em geral, deixa a região tão pobre quanto começou. O ritmo da devastação caiu 70% nos últimos dez anos, mas continua alto. No ano passado, foi equivalente a quatro vezes o município de São Paulo. Para mudar o rumo da Amazônia, não bastam mais leis severas e fiscalização. É preciso criar alternativas de negócios que gerem mais renda e trabalho com a floresta em pé. Felizmente, essas novas cadeias produtivas já vêm ganhando força. São atividades com potencial para virar vocações sustentáveis para o ambiente e para a população da Amazônia, com benefícios para o resto do país para o mundo. A seguir, alguns dos negócios mais promissores.

AÇAÍ

O verão, estação seca no Pará, vai de julho a dezembro. Nessa época do ano, o entorno da Baía do Guajará, na região de Belém, já respira açaí mal o dia começa. Nos mercados de rua que suprem o consumo local ou nas áreas ribeirinhas, tudo precisa ser feito antes que o sol esquente demais. Em Igarapé-Miri, a 78 quilômetros de Belém, boa parte da população está envolvida na cultura da palmeira de açaí. Em 2012, segundo dados da Empresa de Assistencia Técnica e Extensão Rural do Estado do Pará (Emater-PA), a cidade produziu mais de 160.000 toneladas do fruto. Às margens de um igarapé, o agricultor Luiz Correa amanhece coletando açaí com os dois irmãos na pequena propriedade da família. Por volta do meio-dia, já há 20 latas (de 14 quilos cada uma) do fruto na frente da casa. “Hoje, dá para viver do açaí, e aprendemos como fazer a planta produzir sempre”, diz. “Cortamos as árvores mais velhas, retiramos o palmito, e o resto vira adubo. Sempre cuidando dos brotos, que nascem sozinhos.” Aos 23 anos, ele trabalha desde a adolescência na função. Depois que o açaí se tornou a principal renda da família, eles (Luiz, os pais, quatro irmãos e dois sobrinhos) têm uma casa mais confortável e luz elétrica. Também puderam comprar um barco maior, para que Domingos, pai de Luiz, recolha açaí nas propriedades vizinhas e revenda no porto regional.

A produção depende da floresta saudável. “Como ainda não se obtiveram sucesso e qualidade com a plantação da palmeira em áreas secas, o produto segue extrativista, para ser rentável”, afirma o pesquisador Paulo Amaral, do Instituto do Homem e do Meio Ambiente da Amazônia (Imazon). Com isso, a opção de desmatar as plantações de açaí é desinteressante. “Na monocultura, a planta fica mais sujeita a doenças e fogo. Por isso, a saída é fazer o manejo sustentável dos açaizais”, afirma João Meirelles, diretor-geral do Instituto Peabiru, ONG dedicada ao trabalho com comunidades da Amazônia. Mesmo para grandes indústrias, o caminho é o extrativismo sustentável. É o caso da Coca-Cola. No segundo semestre do ano passado, ela lançou uma bebida feita da polpa de açaí misturada com banana, pela marca Del Valle. “A premissa é respeitar o potencial local das comunidades com que trabalhamos. Avaliamos antes a disponibilidade para garantir que o produto não sofrerá quebra de safra, nem precise ser descontinuado, e isso prejudique as comunidades”, diz Claudia Lorenzo, diretora de negócios sociais da Coca-Cola.

Nem sempre foi assim. Até os anos 1990, o açaí era apenas consumido pelos paraenses como reforço alimentar, por ser barato e nutritivo. Da palmeira, tiravam o palmito. Os frutos sobravam tanto que eram jogados nos rios. Se aparecesse outra oportunidade que desse mais dinheiro, os ribeirinhos rapidamente colocariam fogo no que estivesse em suas terras, para plantar algo mais rentável. Foi quando o açaí virou queridinho nas academias do Sul e Sudeste, e a demanda cresceu. Hoje, com o açaí cada vez mais apreciado no Brasil e no exterior, é difícil um declínio do consumo que reduza seu valor econômico. O desafio é garantir que a venda de açaí continue pagando bem o produtor, para que ele não desista por algo mais rentável e desmatador.

Feira do açaí no Mercado Ver-o-Peso, em Belém. O negócio é realizado cedo, antes que o dia esquente (Foto: Filipe Redondo/ÉPOCA)

Açaí

Oportunidade

Gera renda e emprego com uma planta que vive nas margens de rios e igarapés. Para explorar, não é preciso desmatar

Risco

Muitos apenas extraem os frutos e esgotam a mata. Isso pode forçá-los a dar outro destino à terra

A indústria de cosméticos e perfumes sabe, não é de hoje, que a Amazônia está cheia de ingredientes ricos e rentáveis. Uma das fragrâncias mais famosas do mundo, o Chanel no 5, usa em sua fórmula a essência do pau-rosa. Antes extraída da madeira, hoje vem de folhas dessa espécie, nativa da floresta. Nomes como andiroba, castanha-do-brasil, buriti, vitória-régia, murumuru, copaíba, cupuaçu e priprioca já são conhecidos do consumidor. Assim como o açaí, são boas alternativas para que a Amazônia dê lucro, gere emprego, s renda e permaneça preservada. Essas essências são o principal sustento de lavradores como Antônio dos Santos, de 62 anos, da comunidade de Campo Limpo, no município de Santo Antônio do Tauá, a 56 quilômetros de Belém, no Pará. Ele trabalha numa cooperativa que planta e extrai espécies como priprioca, capitiú e estoraque para a empresa de cosméticos Natura. “Antes, aqui a gente fazia queimada para plantar feijão, arroz, mandioca. Agora, sabe que dá para o sustento da terra sem destruir”, diz. “Nossos filhos queriam sair daqui para buscar dinheiro nas cidades grandes. Agora, querem continuar nosso trabalho e preservar a natureza daqui.”

O desafio para que mais gente seja beneficiada e para que mais empresas invistam em projetos similares esbarra numa legislação ambiental complicada e não exatamente eficaz. O princípio é correto. Segundo a Convenção da Diversidade Biológica, da qual o Brasil é signatário, quando uma empresa decide explorar uma espécie nativa, é preciso que ela pague pelo acesso genético (ao entrar num local para retirar e estudar a planta), pelo conhecimento tradicional (ao aprender com comunidades locais a manipular a planta) e pelo fornecimento da matéria-prima em si. “Da maneira que é hoje, o CGEN (Conselho de Gestão do Patrimônio Genético, órgão ligado ao Ministério do Meio Ambiente) tem propostas e normas difíceis de interpretar. Elas acabam sendo um fator de desistência das empresas que pretendem pesquisar a biodiversidade, pois aumentam muito os riscos da iniciativa”, diz o economista João Tezza. Outro desafio é a falta de regularização fundiária da Amazônia. É difícil atribuir responsabilidades numa região onde a propriedade da terra é muitas vezes indefinida. “Isso atrapalha as empresas que querem investir nesse negócio”, afirma Daniel Sabará, diretor executivo da Beraca, empresa que extrai matérias-primas para diversas indústrias, como a cosmética.

Por: Tônia Machado, Cíntia Marcucci e Isabella Jaggi
Fonte: Blog do Planeta/ Revista Época

Deixe um comentário