Conflito entre países dificulta acordo do clima

Para a cientista brasileira Suzana Kahn, vice-presidente do IPCC – o painel científico das Nações Unidas -, o acordo climático global, a ser assinado em Paris, em 2015, é improvável.  Os interesses conflitantes entre os países parecem ser instransponíveis para que se chegue a um tratado na capital francesa, em 2015, que faça frente à mudança climática mundial.

A engenheira brasileira teve uma amostra do antagonismo nas negociações em Copenhague, na Dinamarca, do resumo do Quinto Relatório de Avaliação do IPCC, divulgado ontem junto com o sumário para formuladores de políticas públicas. “Ver como os países agem dá a clara noção de que a probabilidade de se ter um acordo global é muito pequena”, diz Suzana Kahn. “As posições dos países são muito arraigadas e seus objetivos, muito diferentes.”

O documento-síntese resume e integra as partes do 5º relatório do IPCC, que vem sendo divulgadas nos últimos anos. O relatório traz o que existe de mais recente sobre a ciência do clima, a mitigação dos gases-estufa, as vulnerabilidades e adaptação dos países, os eventos extremos e as energias renováveis. Ele não traz novidades sobre o que foi divulgado, em partes, nos últimos 13 meses. Mesmo assim, sua negociação foi difícil.

Na parte sobre mitigação de gases-estufa, por exemplo, o grupo de países em desenvolvimento quer que seja explicitado que a redução das emissões deve ser feita desde que não comprometa o desenvolvimento. As nações mais pobres somam a erradicação da pobreza ao tópico. Países petroleiros dizem que a mitigação irá torná-los vulneráveis já que medidas nesta direção os levará à perda de receitas. Pequenas ilhas e países africanos, muito impactados pela mudança climática, alegam que só se fala em redução de gases-estufa e se dá pouca ênfase à adaptação.

“Apesar de estarmos todos no mesmo planeta, a ação coletiva se torna difícil. As posições são muito antagônicas”, diz Suzana Kahn. Ela lembra, por exemplo, que os países produtores de petróleo dizem que as nações desenvolvidas consomem demais e isto também é muito impactante, em termos de clima.

“Precisamos de uma combinação de adaptação à mudança do clima e mitigação das emissões”, disse Rajendra Pachauri, o presidente do IPCC, ontem em Copenhague. “Tem que ocorrer simultaneamente”, seguiu. Ele lembrou que atrasar a redução das emissões irá causar mais danos e o custo futuro irá aumentar muito. “O custo da inação será terrivelmente mais alto do que o custo da ação.”

Entre as várias considerações do documento-síntese, o peso das emissões de gases-estufa relacionadas à energia ganhou espaço nos debates. “As emissões relacionadas à energia são o grande problema da mudança do clima de 1950 para cá. Se quisermos resolver o problema, tem que se descarbonizar o setor energético”, diz Suzana Kahn.

A importância crescente do aumento da temperatura global do planeta produziu desconforto na plenária do IPCC. Manter ou não o primeiro gráfico do sumário – que mostra a geração de energia como a maior contribuinte humana nas emissões de CO2 levou horas de discussão. A mensagem, ali, é que o problema do aquecimento global é o uso de combustíveis de origem fóssil. Passou, mas com o adendo pedido pelos países produtores de petróleo que eles serão economias vulneráveis.

O IPCC diz que a saída para que o aumento da temperatura não ultrapasse os 2°C em 2100 é, entre outras coisas, a drástica redução das emissões de energia. Entre 2040 e 2070 terão que ser 90% menores do que eram em 2010.

A geração de energia de baixo carbono terá que incluir a participação massiva de renováveis, energia nuclear e a plantação de florestas para fins energéticos. Este trio terá que representar 80% da matriz energética mundial entre 2040 e 2070 – hoje é de 30%.

A geração de energia elétrica a partir de combustíveis fósseis sem sistemas de Captura e Sequestro de Carbono (conhecidos pela sigla CCS, em inglês), deverá ser completamente eliminada em 2100, recomenda o IPCC. Hoje a tecnologia de CCS vem sendo desenvolvida no mundo (inclusive pela Petrobras), mas ainda não é comercialmente viável.

Ontem, em Copenhague, durante a entrevista coletiva do lançamento da síntese do 5º relatório, Ban Ki-moon, secretário-geral das Nações Unidas, lembrou que “a atmosfera e os oceanos aqueceram, a quantidade de neve e gelo diminuiu, o nível do mar aumentou e a concentração de CO2 aumentou para um nível sem precedentes nos últimos 800.000 anos”.

O documento enfatiza que a influência humana no sistema climático é “clara e crescente, com impactos observados em todos os continentes”. Diz, ainda que, “se não for controlada, a mudança climática aumentará a probabilidade de impactos graves, difusos e irreversíveis para as pessoas e os ecossistemas”.

Os cientistas lembraram que há opções tecnológicas de redução das emissões e de adaptação às alterações climáticas. “Nós temos os meios para limitar as alterações climáticas”, disse Pachauri. “As soluções são muitas e permitem o contínuo desenvolvimento econômico e humano. Tudo o que precisamos é a vontade de mudar.”

” A transição para uma economia com baixo teor de carbono é tecnicamente viável”, disse Youba Sokona, co-presidente do grupo de trabalho III do IPCC. “Mas faltam políticas e instituições apropriadas.”

“Priorizar a ação sobre a mudança climática está mais claro do que nunca “, disse Pachauri. “Temos pouco tempo antes que a janela de oportunidade para ficarmos dentro de 2ºC de aquecimento se feche. Para manter uma boa probabilidade de ficarmos abaixo dos 2ºC, dentro de custos gerenciáveis, as emissões mundiais deveriam baixar entre 40% a 70% entre 2010 e 2050, caindo para zero ou abaixo disso até 2100. Temos essa oportunidade, e a escolha está em nossas mãos.”

“As emissões de gases-estufa estão crescendo, crescendo, crescendo”, reforçou o alemão Ottmar Edenhofer, co-presidente do grupo III e economista-chefe do Potsdam Institute for Climate Impact Research (PIK). “Não estamos no caminho de conter o aquecimento a 2ºC. Quanto mais atrasarmos os esforços de mitigação, maiores os riscos que teremos que enfrentar.”

Por: Daniela Chiaretti
Fonte: Valor Econômico 

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