Moradores do Aturiá (AP) recusam-se a deixar casas condenadas pela maré

30 casas correm risco de desabar; Defesa Civil emitiu alerta máximo. Moradores dizem não sair do local por temerem atrasos no aluguel social.

Defesa Civil diz que 30 casas correm o risco de desabar em Macapá (Foto: Abinoan Santiago/G1)

A combinação de chuvas fortes com a alta da maré do rio Amazonas é um drama diário há muito tempo para os moradores da região do Aturiá, no bairro Araxá, Zona Sul de Macapá. Com as casas em madeira condenadas e prestes a desabar, parte da população do local revela a vontade de sair da área, mas permanece na região após incertezas sobre o pagamento regular do aluguel social e a demora na entrega de conjuntos habitacionais e do muro de arrimo, que pretende frear a força do rio.

No fim de semana, duas famílias saíram da área após parte das casas ceder. Com isso elas se juntam às 120 famílias que deixaram residências no Aturiá sob risco de desabamento desde 2010, período em que o Amazonas começou a entrar na cidade de forma acelerada, com cerca de 30 metros nesse período. No domingo (22) dez famílias estavam em alerta máximo pela Defesa Civil Municipal, sendo que o número aumentou para 30 nesta segunda-feira (23), após a chuva da madrugada.A tempestade e as intensas correntes de vento comprometem a estrutura dos imóveis, como o de Antônio Barcellos, de 63 anos. Morador do Aturiá há uma década, ele relata que palavras como “medo” e “apreensão” tomaram conta do vocabulário da família desde o início do período chuvoso em dezembro. Deixar o local, para ele, só com a certeza de um apartamento em um conjunto habitacional.

“Gosto de morar aqui, é na orla do rio Amazonas, perto de tudo. Vi os vizinhos das casas da frente irem embora depois de perderem tudo pela água. Estou sentindo isso só agora, minha casa treme e balança toda noite, eu tento mas não dá para dormir em paz e isso só acaba quando amanhece e a maré vai embora. Espero sim sair daqui, mas para receber R$ 350 de aluguel e ir para um kit-net não vale a pena, não para minha família”, contou Barcellos, que mora com filhos e netos em uma pequena casa.

Atraída pelo desejo de morar na orla de Macapá, Nilzilene Morais, de 25 anos, veio do interior do estado do Pará, e sem saber da força do rio Amazonas comprou uma casa no fim de 2014 no Aturiá. Mãe de um filho de dois meses, ela corre atrás de uma forma de deixar a área.

“Não gosto de morar aqui e não tenho para onde ir. Já solicitei o aluguel social, e me falam que atrasa muito. É difícil depender de um dinheiro que atrasa, afinal são duas famílias morando nessa casa. Confesso que fico assustada, porque a água entra pelos lados e por baixo, trazendo sujeira e bichos para dentro. Só durmo quando a água baixa com medo de algo acontecer, porque sempre espero o pior nesse lugar”, relata a dona de casa.

Pensando na educação dos filhos que estudam no bairro, Mirele Pantoja, de 38 anos, já vive metade da vida na orla e lamenta o fato do conjunto habitacional Vila dos Oliveiras, previsto para ser entregue em dezembro de 2014 estar com as obras interrompidas. O local construído com recursos do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) seria destinado para os moradores realocados do Aturiá.

“É uma espera sem fim por esse apartamento, e enquanto isso temos que matar cobras e sapos que vêm com a água para dentro de casa. Também tem os tocos de paus que a água carrega e batem com força na madeira que sustenta aqui. A vida é sofrida, ainda mais nesse inverno, e não tenho condições de pagar para sair daqui. Morar nessa orla linda vira cada vez mais um pesadelo para mim”, relatou.

Sobre as obras no Conjunto Aturiá, paralisadas desde outubro de 2013, após pendências do estado com o Fundo Nacional de Habitação e Interesse Social, o G1 procurou a Secretaria de Estado da Infraestrutura (Seinf), que não deu resposta até a publicação desta reportagem.

As famílias que estão em situação de alerta pela Defesa Civil sob risco de desabamento, estão sendo monitoradas também por equipes da Secretaria Municipal de Assistência Social e Trabalho (Semast), que estão cadastrando os moradores da área e informando que se optarem por sair das residências, existe uma área no complexo social Macapá Criança, localizado no bairro Pedrinhas, destinada para o alojamento. No local será aberto um cadastro para o aluguel social.

Por: John Pacheco
Fonte: G1 

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