Morre o Cacique Aniceto, mas sua luta continua

Soube que foi ao anoitecer de domingo (22/02) que o Cacique Aniceto Tsudzawere deixou a vida aos 87 anos.  O Cacique Aniceto foi uma importante liderança Xavante, pela luta territorial, pelas denúncias de descaso na saúde e tantas outras lutas indígenas.

Aniceto foi da geração de Xavante que nasceu e experimentou a vida antes do contato e ao longo dos anos viu a imposição de transformações aceleradas e irreversíveis ao seu povo. Fez-se liderança nacional por força da necessidade e do período histórico em que viveu. Sua mítica geração de lideranças Xavante, da qual também despontaram Mario Juruna, os Caciques Celestino e Pio Örebewe está envelhecida e as estratégias de luta deste povo estão sendo renovadas. Como ouço dos Xavante, a borduna dos dias atuais é a caneta.

Os tempos porém são sombrios para os povos indígenas. Com a força atual da bancada ruralista, há ameaça até mesmo na garantia das terras que estas antigas lideranças tanto lutaram para demarcar. Os representantes legislativos dos interesses do agronegócio tem apresentado uma série de propostas de leis, incluindo alterações da Carta Magna através das Propostas de Emenda Constitucional, as famigeradas PEC. A principal luta tem sido contra a recém desarquivada PEC-215, que além de transferir a competência de demarcação para o Congresso Nacional, admite a revisão de demarcações já feitas. Os povos indígenas ainda tem que conviver com outros pesadelos como a PEC-237, que permite o arrendamento em terras indígenas, o Projeto de Lei 1610, que facilita a mineração nessas terras e o Projeto de Lei Complementar 227, que proíbe a demarcação de “terras produtivas”.

Tempos revoltantes, vida inquietante

Ainda jovem, Aniceto foi um sobrevivente da verdadeira guerra travada por fazendeiros e posseiros contra os habitantes locais. Os Xavante vivem na região da Serra do Roncador e nos vales do Rio das Mortes, Kuluene e Araguaia, em Mato Grosso. Após o contato pacífico com não-indígenas, a partir da década de 1940, o território xavante começou a ser ocupado por fazendas e o povo originário começou a ser atacado.

Em meio ao desespero da perda do território, da fome, das doenças e assassinatos, uma parte do povo Xavante recorreu à Missão Salesiana de Merure, que trabalhava junto ao povo Bororo na região de General Carneiro/MT. Esse foi o germe da atual Terra Indígena de São Marcos, onde Aniceto aprendeu o português, se tornou uma liderança e fundou a Aldeia Nossa Senhora de Guadalupe, onde viveu até sua morte.

Nas décadas de 60 e 70, sob o regime militar, o povo Xavante viu seu território ser ocupado por grandes grupos agropecuários, atraídos por incentivos fiscais do governo. Mesmo acuados em missões religiosas ou postos indígenas, os Xavante sempre tiveram muito clara a necessidade da luta pelo território, tanto pela demarcação daquele em que se encontravam como pela retomada do território do qual foram expropriados. Nessa época, alguns grupos Xavante iniciaram o retorno ao território de origem, que na maioria já se encontrava totalmente modificado e ocupado por grandes fazendas ou até cidades. A situação tensa levou a conflitos e violência.

A atuação dos Xavante, a partir da década de 70, foi um marco no movimento indígena brasileiro que nascia. Seguindo a tradição Xavante da postura guerreira e persuasiva e habilidade retórica e estratégica, os Xavante chamavam atenção nacional e internacional para suas questões ao reivindicar diretamente com autoridades em Brasília. O Cacique Aniceto foi uma dessas lideranças Xavante importantes na luta pela terra.

Apesar do sucesso da demarcação, a luta não conseguiu a unificação do território Xavante. Em 1981, seis terras xavante já estavam demarcadas e somente o território de Marãiwatsédé, mais ao norte, não havia sido reconquistado. Na década seguinte, os Xavante conseguiram a ampliação de várias áreas e a homologação da Terra Indígena Marãiwatsédé. Porém, a ocupação efetiva dos Xavante neste último território só veio a acontecer em 2012, através de uma operação de desintrusão e após muitos conflitos, lutas e processos judiciais.

Se o território era essencial para a reprodução do seu povo, a atuação de Aniceto não se resumiu à questão territorial. O cacique envolvia-se nas mais variadas lutas e iniciativas por direitos dos povos indígenas do Brasil.

Com a síntese e espiritualidade típica do povo Xavante, Aniceto emocionou o público da Conferência de Mulher Indígena e Meio Ambiente em 1991 quando disse que “a palavra da mulher é sagrada como a terra”.

Já na década de 2000, os Xavante tiveram conhecimento do projeto da Embrapa de recuperação das sementes tradicionais do povo Krahô, cujas sementes originais vieram de área xavante. O Cacique Aniceto, então, solicitou à presidência da Embrapa a multiplicação e devolução aos Xavante de sementes de nodzo, o milho tradicional deste povo que a Embrapa tinha recolhido ainda nos anos 70. Sua solicitação deu origem a uma linha de ação na Embrapa Milho e Sorgo de multiplicação e disponibilização de variedades tradicionais de milho para povos indígenas de todo o Brasil.

Recentemente, o Cacique Aniceto foi uma voz ativa nas denúncias contra a precarização da assistência ao povo Xavante e a terceirização da saúde indígena. Em 2008, Aniceto foi uma das lideranças das manifestações pela saúde indígena que levaram à ocupação do prédio do Distrito Sanitário Especial Indígena, da extinta Fundação Nacional da Saúde (DSEI/Funasa) em Barra do Garças/MT. Na ocasião, ele já tinha 80 anos. Dois anos depois, ao sair de uma internação já debilitado de saúde, declarou: “Quero alertar nossas autoridades em Brasília que fiscalizem mais a aplicação dos recursos da saúde indígena porque o índio continua morrendo no meio do mato”.

Território, saúde, semente, gênero. Aniceto não escolhia a pauta, talvez porque sabia que a luta do povo indígena era uma só. Por isso mesmo, não é de espantar que em 2013 o Cacique Aniceto estava no Rio de Janeiro em reunião com lideranças indígenas de todo o Brasil para apoiar a Aldeia Maracanã. Esta aldeia era um espaço de resistência das comunidades indígenas que reivindicavam o antigo Museu do Índio como ponto de apoio aos indígenas no Rio de Janeiro, mas devido às obras da Copa de 2014, foi violentamente destruído. Na reunião, proferiu: “Eu rodo o país para ajudar meus parentes, que tem problemas com o governo federal, os estaduais, os municipais e os donos de terra. Não vim aqui para perder tempo. Vim para ajudar todos os povos indígenas a terem um lugar que possamos dizer que é nosso e que possamos desenvolver nossos projetos para a união indígena. Contamos com a ajuda de todos.”

O corpo se foi, mas a mensagem está dada.

Por: Maíra Ribeiro
Fonte: Articulação Xingu Araguaia – AXA

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