Faculdades de medicina e Mais Médicos não revertem falta de profissionais no interior do AM

A própria Secretaria de Estado de Saúde admite que há carência de médicos no interior do Estado, inclusive em especialidades básicas.  Mapa da medicina no Amazonas faz parte do especial de A CRÍTICA pelo Dia Mundial da Saúde

Saúde concentrada da capital amazonense (Editoria de Arte/AC)

Manaus é única cidade no Amazonas que concentra faculdades de Medicina, onde três locais formam cerca de 235 novos profissionais anualmente – com estudantes que vêm, também, de outros Estados brasileiros, como Roraima, Pará e Ceará, principalmente. Com os mais de 450 médicos que o programa Mais Médicos, do Governo Federal, inseriu nas unidades de saúde do Estado desde sua implementação, em 2013, o número de profissionais atuantes ultrapassa por pouco a margem de 5 mil.

Desse total, no entanto, mais de 4,2 mil ficam na capital, deixando apenas 760 médicos para trabalhar nos 61 municípios amazonenses restantes. Os números acabam refletindo a pouca atenção que cidades mais distantes recebem ainda hoje.

Parintins, o segundo município mais populoso do Estado – com 110,4 mil habitantes, conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou em agosto de 2014, atrás apenas de Manaus -, é também a cidade do interior com mais médicos: 31, de acordo com o Conselho Regional de Medicina no Amazonas (CRM-AM). É apenas um profissional para cada 3,5 mil pessoas.

Tabatinga, na fronteira com a Colômbia, fica logo atrás no ranking, com 26 profissionais da saúde, seguida de Itacoatiara, com 18. O interior, porém, conta com 280 do total de inseridos no Mais Médicos, além de outros 83 que atendem nos Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEIs). O CRM-AM informou, ainda, que muitos médicos moram em Manaus mas atendem nos municípios da Região Metropolitana.

Déficit

Apesar do Amazonas ser o único Estado do Brasil que possui um hospital em cada município, a própria Secretaria de Estado de Saúde (Susam) admite que há carência de médicos no interior, inclusive em especialidades básicas como a pediatria, ginecologia, cirurgiões e anestesistas. A capital não fica atrás, com carências principalmente nas especialidades de neurologia, neuropediatria, cardiologia, endocrinologia, neonatologia e intensivistas. Na rede pública, cada profissional realiza 16 consultas por dia.

Mas nem dados como esses são capazes de assustar quem quer construir ou continuar a carreira médica em Manaus. É o caso do radio-oncologista Daniel Sampaio Vieira, de 28 anos. Especializado no Instituto Nacional do Câncer (Inca), no Rio de Janeiro, após servir como médico do Exército Brasileiro em Roraima, ele desembarcou na capital amazonense em março deste ano para preencher uma lacuna que ainda existe em toda a nossa região.

“O Norte e Nordeste ainda sofrem com a carência não só de profissionais mas também de serviços de radioterapia. Os profissionais locais fazem o que podem para manter o funcionamento dos serviços ao máximo, mas as filas continuam aumentando, principalmente nos serviços públicos. Porém, existe um limite de pacientes que podem ser tratados em um único aparelho, então não há como acelerar a fila sem que haja investimento e contratação”, afirma, acrescentando que foi muito bem recebido nos lugares por onde passou.

Caminho inverso

Diferente dos médicos que almejam trabalhar no coração da selva amazônica, há profissionais que preferem tentar a sorte num lugar que, apesar de mais concorrido, pode gerar mais experiência. Ademar Britto Jr., formado em Medicina pela UEA, é um deles. “Durante a graduação, fiz dois intercâmbios acadêmicos, um na Universidade da Cidade do Cabo, na África do Sul, e outro na Universidade de Paris Renné Descartes, na França, e vi que apesar de ainda ter muito a melhorar, o ensino médico no Amazonas não se mostrou muito distante do ensino de outras grandes Universidades”, diz Ademar.

Se especializando no Instituto Nacional de Cardiologia, no Rio de Janeiro, ele diz que pensa em voltar a Manaus. “No Amazonas, apesar de não haver déficit de médicos generalistas, as vagas de residência médica ainda são insuficientes. Saí de Manaus com a intenção de um dia retornar, e voltarei bastante capacitado, com muita vontade de fazer a diferença na saúde no meu Estado, assim como professores e muitos médicos aí fazem”.

Apenas uma cidade fora do programa

Apesar de ainda não ser possível avaliar se a taxa de mortalidade humana caiu nos locais contemplados com o Mais Médicos (já que os indicadores não são atualizados desde a época em que os profissionais chegaram no Amazonas pela primeira vez, no dia 2 de setembro de 2013), grande parte da população que recebe tratamento pelo projeto aprova a iniciativa do Governo Federal. No Estado, o município de Uarini é o único que ainda não foi contemplado, mas a Susam já informou que está no aguardo de sua inserção por parte do Ministério da Saúde.

Neste período, houve apenas uma realocação, dentro da rede administrada pela Secretaria Municipal de Saúde (Semsa), quando uma médica saiu de Manaus para atuar em Manacapuru, na Região Metropolitana. Maués, no entanto, é o município com mais profissionais do programa federal, com 15 médicos. Já o Distrito Sanitários Indígena que mais recebeu participantes foi o do Alto Rio Negro, com 19 ao todo.

Dos 454 médicos do programa que atendem no Amazonas, 91 estão na capital. Deste total, 361 são cubanos, fruto da parceria dos governos brasileiro e da ilha comunista – que continua retendo grande parte do salário. Outros 46 são intercambistas individuais da Espanha, Portugal, Nigéria, México, Honduras, Haiti, Peru, Venezuela, Bolívia, República Dominicana, Colômbia e Uruguai. Apenas 47 são brasileiros, sendo poucos da Região Norte. Mais de 80 novos profissionais devem começar a trabalhar em 22 municípios amazonenses ainda este ano.

Medicina ‘pávula’

Parintins, a 369 quilômetros de Manaus, poderá receber um curso particular de Medicina, já que está na lista de 22 municípios pré-selecionados a receber a faculdade. A medida faz parte do programa Mais Médicos e visa equilibrar regionalmente o número de médicos por habitantes.

Fonte: A Crítica

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