Floresta Amazônica como alternativa para driblar crise econômica

A busca por novas matrizes econômicas esbarra em processos longos, como a espera pela regularização Centro de Biotecnologia da Amazônia

No Amazonas, ao mesmo tempo em que se comemora a prorrogação da Zona Franca de Manaus (ZFM) também se lamenta o declínio do modelo industrial nela instalado, as alternativas ficam em usar destes incentivos fiscais definidos por lei, mas aplicá-los em outras matrizes econômicas. Com a implantação da ZFM em 1967, criou-se uma distância entre indústria e a Floresta Amazônica, o que é comemorado quando se vê que a segunda ainda de pé em quase totalidade.

Mas a busca por novas matrizes econômicas esbarra em processos longos e desgastantes, como a espera pela regularização da situação do Centro de Biotecnologia da Amazônia (CBA). A inviabilidade se arrasta por 12 anos, impedindo pesquisas que fomentariam uma produção eficiente de fármacos e fitoterápicos. Uma das alternativas e que ainda estaria sob a abrangência do modelo seria o Distrito Agropecuário da Suframa, localizado ao Norte de Manaus.

No papel, o distrito conta “com propriedades cultivadas por unidades familiares para consumo próprio, com culturas diversificadas de subsistência, quanto com empreendimentos de médio e grande porte, produzindo de forma empresarial”, mas a realidade é outra, as plantações continuam alimentando o segmento de subsistência e muito pouco vai para microfábricas de sucos regionais.

Multinacionais de olho

Com o declínio do modelo industrial, a floresta e os derivados (incluindo turismo) passam a ser vistos como alternativas, mas desta vez contando com manejo sustentável e outros artifícios. A indústria de refrigerantes por exemplo, ganhou um up, em 2013 a Coca-Cola, gigante do setor, iniciou parceria com o governo do Amazonas para um projeto inovador na cadeia produtiva do açaí. Dessa parceria nasceu o Del Valle Reserva Açaí+Banana.

De acordo com a multinacional, o Coletivo Floresta irá estimular o desenvolvimento das comunidades extratoras, dando assistência técnica e promovendo o acesso a uma cadeia de preço justo. Na época, ao ser questionado pelo Jornal do Commercio sobre o risco de maior desmatamento para suprir o novo mercado e a nova escala comercial, o presidente da Coca-Cola Brasil, Xiemar Zaraúza foi enfático. “Temos feito muitas pesquisas nesse campo. Não existe o risco de desmatamento. Proteger a natureza faz parte de nossos planos de proIsso é possível com empenho e vontade”, ressaltou.

Na ocasião, o então governador do Amazonas, Omar Aziz citou as dificuldades passadas pelos extrativistas no interior do Estado. “O açaí depois de colhido tem um tempo muito curto de durabilidade, precisa ser pasteurizado com rapidez, com parcerias desse nível conseguiremos reduzir as perdas. A Embrapa realizou um estudo que driblou o entrave que era a sazonalidade do fruto, a partir de então, o açaí poderá ser colhido duas vezes ao ano. Garantindo a matéria prima, outros empresários poderão aderir a ação”.

No interior

Como ferramenta para suprir a demanda gerada, o então governador anunciou o asfaltamento de 150 km de estrada no município de Carauari e novas indústrias de beneficiamento em Codajás e Borba, cobrindo 1 milhão e meio de quilômetros para aproveitar ao máximo a produção extrativista. Com todo o silêncio após o lançamento, a reportagem buscou informações no município e segundo o editor do blog Folha de Carauari, Hilário Viana, a estrada está pavimentada e em pleno funcionamento.“Tudo tem funcionado, as empresas e pessoas ligadas ao extrativismo de açaí tiveram um grande apoio e outras estão abrindo”, afirma.

A Açaí-Tupã de Carauari, atuando há quatro anos na extração de açaí, foi uma das contratadas pela Coca-Cola para o fornecimento da fruta. Segundo o diretor da empresa, Samir Chagas, a demanda da multinacional tem sido suprida com êxito e espera mais políticas públicas voltadas ao setor primário. “A agroindústria pode sim ser a nova fonte de renda, basta que se tenham políticas públicas que atinjam o interior com mais intensidade, prestando assistência e extensão agrícola, fazendo com que o interiorano passe a acreditar na agricultura como algo além da subsistência”, conta o empresário.

Alternativas que não prendam os trabalhadores a um modelo único devem ser implantadas já, comenta Chagas. “Com o fim de contratos com empresas que exploravam petróleo em Urucu, mais próximo em linha reta do que Coari, muitos estão desempregados em Carauari e nem pensam em ir a Manaus, já sabendo do que acontece no PIM (Polo Industrial de Manaus). É hora de mudar, mas precisamos de mais incentivos para a agricultura”, conclui Chagas.

Empresa aliada da Amazônia

Em 2010, o guaraná era responsável por um quarto da economia de Maués, ocupando mais de 2,5 mil produtores em sua cadeia produtiva. Até 2007, a AmBev, líder no mercado de bebidas na América Latina, foi a única grande compradora do fruto do município. Manter seu lugar no mercado para a companhia tinha dois fatores, o do marketing gerado ao ‘aliar-se’ a Amazônia e ter a matéria-prima próxima a unidade fabril em Manaus. Nesse ano a Coca-Cola iniciou a compra do fruto usado na fabricação do Kuat, até então a companhia adquiria o fruto para extrato em cidades vizinhas, principalmente Presidente Figueiredo, que abriga uma fazenda e uma fábrica terceirizada para a produção do extrato.

Sem fábrica no Amazonas, mas comprando frutos e sementes de famílias do Estado, através da divisão de Health & Personal Care, a Beraca, líder global no fornecimento de ingredientes naturais provenientes da biodiversidade brasileira, registrou um faturamento de R$ 200 milhões em 2014. Muito disso proveniente da proximidade com a flora amazônica, comenta o diretor financeiro da Beraca, Wellington Rogério.“Acreditamos que isso é resultado do trabalho apoiado na adoção das melhores práticas de governança e sustentabilidade, e um forte investimento em pesquisa e inovação, o que garante a oferta de novos produtos e serviços sustentáveis, com alto padrão de qualidade e segurança”, disse.

A Natura, maior empresa do Brasil do setor de higiene pessoal, perfumaria e cosméticos e também no segmento da venda direta, beneficia cerca de 2.171 famílias no Amazonas e Pará, por meio de parcerias com as comunidades extrativistas. A companhia pretende triplicar este número até 2020, implantando projetos previstos pelo Programa Amazônia, iniciativa da Natura para o desenvolvimento sustentável da região por meio de ciência, tecnologia e inovação. Assim foi criado em 2012 o Nina (Núcleo de Inovação Natura Amazônia), que tem como missão desenvolver inovação relacionada à sociobiodiversidade amazônica e contribuir com o desenvolvimento do sistema regional de inovação através de sua atuação em rede, junto aos demais atores desse sistema.

Fonte: Portal Amazônia/ Jornal do Commercio

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