Indígenas realizam concurso de beleza na Amazônia

Beysi Anaya, 17, posa para foto depois de vencer o concurso de beleza da etnia ashaninka, durante a celebração do 44º aniversário da fundação da tribo de Otari Nativo, em Pichari, no Peru. (Rodrigo Abd/AP)

Em uma noite sem chuva, no meio da floresta, as concorrentes maquiam a pele com um líquido vermelho extraído do urucum e usam túnicas marrons típicas da etnia ashaninka, a mais numerosa da Amazônia.

“Os pontinhos vermelhos são (representam) minha alegria”, diz Beysi Anaya, 17, que ganhou o concurso depois de viajar por três horas de carro saindo de uma comunidade chamada Sampantuari que, em idioma ashaninka, significa “folhas caídas que formam sombras na água.”

Esse foi o quinto concurso de beleza ashaninka organizado como parte das comemorações do aniversário de Otari Nativo, situada dentro do vale dos rios Apurímac, Ene e Mantaro, a maior zona cocaleira e produtora de drogas do mundo. “Mais do que a violência, o que afeta essas zonas do vale é a pobreza e os péssimos serviços públicos”, diz Kuyani Vargas.

A mulher é uma referência importante para os habitantes de Otari, que em língua nativa quer dizer “chefa assassinada”, uma provável referência à história disseminada na região sobre a morte de uma mulher pelas mãos de colonos que chegaram em busca de terras. “As mulheres são importantes aqui”, afirma Kuyani Vargas, uma jovem líder da região, cujo nome significa mulher querida.

Para os homens ashaninkas, “o cabelo de uma mulher pode determinar algo da beleza, se for comprido, melhor, e também se souberem cozinhar a mandioca de uma forma gostosa”, comenta Marishori Samaniego, tradutora nascida em outra comunidade. Outro elemento-chave pode estar no humor, “um valor que faz parte das relações sociais”, diz a psicóloga Leslie Villapolo, que trabalhou com comunidades ashaninkas depois da guerra civil que ocorreu entre 1980-2000, onde morreram mais de 6 mil nativos escravizados pelo Sendero Luminoso.

“No final, (belo) é aquilo do que você gosta”, diz Ronald Pasco, um jovem ashaninka de 22 anos que assistia ao concurso.

Anaya quer estudar engenharia agrônoma para otimizar as plantações de cacau, café e urucum cultivadas por sua comunidade nativa, a poucos quilômetros do rio Apurímac. “Estudar para produzir mais”, diz enquanto ajeita seu chapéu de vencedora, enfeitado com uma pena avermelhada de arara e sementes de uma planta chamada memeiqui.

A estudante de ensino secundário derrotou outras quatro concorrentes depois de responder que o nome do presidente do Peru é Ollanta Humala e que o chefe da comunidade de Otari é Amadeo Barboza, que tem 80 anos e mais de 40 filhos. Alguns jovens descalços sorriam e a fotografavam com seus celulares.

Com suas respostas breves e ácidas, a adolescente está feliz com sua primeira conquista, mas acredita que ainda precisa vencer outros desafios. O idioma é um deles. Ela e outros 97 mil nativos de sua etnia vêm sofrendo com isso há mais de cinco séculos. Estamos em um país “feito para aqueles que falam espanhol”, diz.

Fonte: Associated Press
Tradução: UOL 

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