Em Palmas, indígenas criticam cerimônia de abertura restrita a convidados

Realizada na noite desta sexta-feira (23), a cerimônia de abertura dos 1º Jogos Mundiais dos Povos Indígenas (JMPI), com a presença da presidenta Dilma Rousseff, só pôde ser vista por convidados, decisão que desagradou boa parte da população de Palmas (TO) e de visitantes que vieram para a cidade especialmente para o evento.

Segundo a organização dos Jogos, a Arena Verde tem capacidade para apenas 5 mil pessoas e, por isso, foi feita uma distribuição de convites para representantes do estado, da prefeitura local, do governo federal e de instituições ligadas à organização dos Jogos Indígenas, como o Comitê Intertribal (ITC) e a Organização das Nações Unidas (ONU), além de universitários e pessoas da população local.

Do lado de fora da Arena, Ronaldo Xerente tentava enxergar a Vila dos Jogos por entre as grades. A poucos metros dali, mas do lado de dentro, alguns de seus “parentes” se preparavam para o desfile da delegação da etnia tocantinense, na arena principal. Ele deixou a aldeia em que mora, a 80 quilômetros de Palmas, para assistir à cerimônia de abertura.

“Se os jogos são indígenas, não entendo por que o índio não pode entrar. É a primeira vez que eu venho e não consegui entrar. Por isso que vários parentes nossos não quiseram participar. Eles já sabiam que teria este tipo de problema”, diz Ronaldo Xerente, lembrando da retirada dos povos Krahô e Apinanjé, também de Tocantins, que não aceitaram o convite para participar dos Jogos.

Sem informação, um grupo de indígenas – alguns credenciados, outros não – vagou de um portão para o outro para tentar entrar na Vila. Alguns deles, com o reforço de pessoas sem ingressos, tentaram forçar a entrada, o que causou um princípio de confusão.

Os pataxós, que abriram o desfile dos povos, também tiveram dificuldades para entrar. Só depois de tentarem duas entradas diferentes é que o problema foi resolvido: eles passaram por uma entrada lateral improvisada. Nesta hora, pessoas que não fazem parte da delegação acabaram passando despercebidas pela segurança.

Exibindo suas medalhas de maratonista, Akazu-y Tabajara questionava os critérios de seleção do público: “Por que eu não posso entrar lá hoje? Por que a presidenta está aí? Aqui, nós somos mais importantes. A gente quer participar da abertura. O evento é nosso, a gente tem que participar. A gente primeiro, depois eles”, cobrou ele, que também reclamou da falta de estrutura para os indígenas que estavam do lado de fora. “Aqui tem idoso, criança, índia gestante. Não tem nenhum banheiro para a gente usar”.

Viagem de volta antecipada

A família de Mônica Machado veio da cidade de Gurupi (TO) e planejou passar o fim de semana na capital. No entanto, sem a possibilidade de assistir à cerimônia, eles anteciparam a viagem. “Não foi divulgado que seria dessa forma. Chegamos aqui e fomos impossibilitados de entrar. Infelizmente só ficamos aqui fora da Arena. Como a gente veio só para isso, e não deu certo, a gente já está indo embora”, lamentou Mônica.

A curadora de artes visuais Paula Borgh, moradora de São Paulo, veio a Palmas para estudar as culturas indígenas durante os Jogos.  Com ela veio um grupo de vinte pessoas de diversos países, como Alemanha, Portugal, Cingapura e Suíça, que chegou com cinco dias de antecedência.  Sem credenciamento, eles acompanharam a festa do lado de fora.  “A gente questiona quem foi escolhido para receber os convites.  E a população?  E as pessoas que se locomoveram do outro lado do mundo até aqui?”.

Oebem Barbosa foi um dos que conseguiram convite para assistir à cerimônia de abertura. Morador de Palmas, ele diz que o sistema de distribuição de ingressos prejudicou os visitantes estrangeiros. “Se este é um evento mundial, deveria ter mais assistência para quem vem de fora. Eles estão perdidos, pedindo ingressos e tentando comprá-los. Eles estão alijados deste momento, o que macula a grandeza dos Jogos”, defende o representante comercial.

Associações de moradores e comerciantes foram alguns dos contemplados com os convites para a cerimônia. “Para mim, eles quiseram montar uma claque, um público favorável ao prefeito, governador e à presidenta”, critica Barbosa.

A corrida por ingressos instaurou um esquema de negociação pelas entradas que não seriam utilizadas. Na porta principal, as pessoas que estavam do lado de fora tentavam acionar contatos pelo telefone ou entrar em uma “fila de espera” por convites que não seriam utilizados. Thomas Laçador veio de Alto Paraíso (GO) com um grupo de 40 pessoas. “A informação sobre a necessidade de ingresso não era clara. Estamos pedindo os ingressos que estão sobrando”.

A estudante de geografia Glaucia Barbosa conta que até buscou os meios de informação oficiais, mas, mesmo assim, foi surpreendida. “Não sabia que precisava de ingresso. Entrei no site oficial dos Jogos Mundiais e isso não estava lá”, disse. Algumas pessoas ensaiaram um coro pedindo a liberação da entrada, mas não foram atendidos. Enquanto isso, do lado de dentro, muitos lugares permaneceram vazios.

O público só poderá entrar na Vila dos Jogos a partir de hoje (24) – a programação oficial pode ser consultada aqui. De acordo com a organização, a Vila dos Jogos pode receber até 30 mil pessoas, e o acesso será limitado quando este número for atingido. A entrada é gratuita.

Por: Cibele Tenório e Nathália Mendes
Fonte: Agência Brasil – EBC

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