Incêndio florestal já consumiu um quarto de Terra Indígena no Maranhão

Indígenas se concentraram na entrada do Ministério do Meio Ambiente (© Alan Azevedo / Greenpeace)
Indígenas se concentraram na entrada do Ministério do Meio Ambiente (© Alan Azevedo / Greenpeace)

Convocados pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), lideranças indígenas do povo Guajajara protestaram hoje em frente ao Ministério do Meio Ambiente (MMA) na Esplanada dos Ministérios, em Brasília. O ato foi realizado para denunciar o descaso do governo diante dos incêndios em Terras Indígenas (TIs), principalmente na TI Arariboia, localizada no Maranhão, onde o fogo consumiu mais de 25% do território.

Formado por cerca de 20 pessoas, o grupo se concentrou às portas do MMA para reivindicar uma audiência com a ministra Izabella Teixeira para pedir a coordenação dos órgãos competentes, como o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama).

“É uma luta. Mas é uma luta pacífica, de diálogo, de entendimento, para que as autoridades tomem as devidas providências”, disse Olímpio Guajajara, liderança indígena. Perguntando sobre as causas da queimada, Olímpio disse que o incendio é criminoso, “causado pelos madeireiros e caçadores”.

O grupo foi informado que a ministra estaria em viagem oficial, mas que o Secretário de Extrativismo e Desenvolvimento Rural Sustentável, Carlos Guedes, e o Diretor de Proteção Ambiental do Ibama, Luciano Evaristo, receberiam os indígenas.

“O Ministério do Meio Ambiente tem que buscar alguma solução”, apontou Soninha Guajajara, da Apib. “O fogo já queimou aldeias, casas, a caça, que é nosso alimento, a floresta… Nós estamos lá com 30 brigadistas indígenas combatendo o fogo dia e noite, e o Ibama e o Prevfogo [Centro Nacional de Prevenção e Combate a Incêncios Florestais] ficam se revezando. Não existe coordenação. Vocês precisam criar uma estratégia”, enfatizou ela.

Luciano Evaristo, do Ibama, garantiu que o chefe do Prevfogo irá para a região na terça-feira que vem, dia 13 de outubro, discutir com os indígenas planos de combate ao incêndio da área.

Terra que arde

A partir de imagens da NASA analisadas pelo Greenpeace, os primeiros focos de incêndio na TI Arariboia, que abriga mais de 5,3 mil indígenas Tentehar/Guajajara e um grupo Awá Guajá isolados, foram registrados no dia 19 de agosto. Até o último monitoramento, datado de 3 de outubro, foi contabilizado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) um total de 445 focos de queimada na região.

Os primeiros focos começaram em agosto (Fonte: NASA)

 

No início de outubro o fogo já havia dominado toda a parte sul da TI (Fonte: NASA)
No início de outubro o fogo já havia dominado toda a parte sul da TI (Fonte: NASA)

 

Com uma área total de 413 mil hectares, a TI Arariboia engloba os municípios maranhenses de Buriticupu, Arame, Amarante do Maranhão, Bom Jesus das Selvas, Grajau e Santa Luzia. As perdas chegam a mais de 100 mil hectares, ou seja, um quarto do território foi consumido pelo fogo.

O fato da queimada se prolongar por mais de 50 dias mostra que o estado do Maranhão não está preparado para combater as queimadas e muito menos a extração ilegal de madeira, que degrada a floresta e contribui para a ocorrência de grandes incêndios nessas áreas.

Segundo o Conselho Indigenista Missionário (CIMI), as lideranças indígenas e entidades da sociedade civil tem cobrado do poder público estadual a construção do Plano de Prevenção e Controle de Desmatamento e das Queimadas no Maranhão (PPCD-MA). No entanto se alega que não há fundos para custear ao menos a alimentação dos brigadistas.

Por ora foi possível a criação de um efetivo formado por indígenas, bombeiros, Ibama e Fundação Nacional do Índio (Funai). No entanto o grupo não é grande o suficiente para controlar os quase 100 quilômetros de linha de fogo, que se aproxima perigosamente da comunidade de índios Awá isolados que vivem no interior da TI.

Segundo dados disponíveis pela NASA, é possível perceber o aumento das perdas atuais em relação as queimadas de anos anteriores. A destruição por queimada registrada de 1º de janeiro até o fim de setembro desse ano já é maior que os números para o mesmo período dos anos de 2011 até 2014. Vale ressaltar que a destruição até setembro desse ano é 25% maior que medição para o ano inteiro de 2013.

Efeito cumulativo

Esta não é a primeira vez que acontece um incêndio nessas proporções no território Arariboia. Em 2008, madeireiros invadiram a aldeia Lagoa Comprida, no coração da mata, mataram o indígena Tomé Guajajara, de 60 anos, e saíram ateando fogo na floresta.

As queimadas consecutivas trazem um acumulo de impactos que fragiliza a floresta até tal ponto que ela não consegue mais recuperar. Sem uma intervenção adequada para prever esses fogos, as chances aumentam a cada ano, uma vez que a humidade da área esta diminuindo, assim como a vegetação. Essa biomassa seca multiplica a probabilidade de fogo.

Veja abaixo um gráfico que mostra o histórico de queimadas na TI Arariboia:

(Fonte: Aqua-MODIS / NASA)
(Fonte: Aqua-MODIS / NASA)

O cenário de destruição representa a morte de diversas formas de vida e o empobrecimento das comunidades indígenas. As perdas não são apenas florestais; as centenas de animais mortos pelo incêndio são a base alimentar dos índios, além de compor a cosmologia desses povos.

O Greenpeace Brasil alerta para a necessidade de o poder público realizar ações mais efetivas pela proteção da floresta e dos povos indígenas na região. As autoridades precisam mostrar mais esforços para combater o fogo, assim como para combater com eficiência a extração ilegal de madeira dentro da TI.

Fonte: Greenpeace

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