Indígenas se tornam produtores de feijão

Sem apoio qualquer, indígenas do Uiramutã conseguem trazer feijão para vender nas feiras-livres da Capital

O Brasil é responsável por produzir, em média, 3 milhões de toneladas de feijão por ano. Além de delicioso, esse grão é considerado pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) como um dos alimentos básicos da família brasileira. Em Roraima, a produção de feijão tipo Jalo começa a ganhar força em áreas indígenas, com destaque para a comunidade do Flexal, localizada no Município de Uiramutã, região Nordeste do Estado.

Distante 306 quilômetros de Boa Vista, a produção do grão é feita há aproximadamente 20 anos, sendo um dos produtos mais fortes da localidade, juntamente com o cultivo de mandioca e de milho. “Anualmente são feitas a colheita e a comercialização do produto em todo o Estado, principalmente na Capital. É um produto que mostra que temos potencial de sobra para desenvolver o setor produtivo nas áreas indígenas do Estado”, disse o presidente da Sociedade de Defesa dos Índios Unidos de Roraima (Sodiur), Altevir Souza.

Segundo ele, toda produção é vendida nas feiras de Boa Vista. Não há como especular se a safra de 2015 é superior à do ano passado. Ele justifica pelo fato de estar no comando da entidade há pouco mais de um mês. “Antes de assumir a presidência, na época em que eu era tuxaua da comunidade, nós tiramos cinco toneladas de feijão. Nessa colheita de agora, eles realizaram todo o plantio e estão trazendo a produção aos poucos. Essa semana, os índios da comunidade trouxeram 50 fardos. Como a Sodiur ainda está se reestruturando, a gente ainda está fazendo planejamento para tudo isso”, justificou.

Outro ponto destacado pelo presidente da Sodiur diz respeito à falta de incentivos das administrações públicas para o desenvolvimento agrícola das áreas indígenas. Segundo ele, muitas comunidades têm realizado trabalhos de forma manual, o que tem dificultado não só o crescimento da produção, mas também o escoamento para a comercialização dos produtos cultivados nessas áreas.

“A gente só não produz mais porque não temos incentivo. Às vezes, as próprias comunidades são responsáveis por preparar a terra, de forma manual, porque não têm apoio mecanizado. Só para ter uma ideia, nós temos uma área de quase 5 mil hectares no município de Normandia, onde produzimos mandioca, e toda essa extensão de terra é preparada manualmente. O que falta, de fato, para melhorarmos a produção é justamente apoio dos governos para mudar essa situação. Se houvesse isso desde o início, teríamos condições de escoar a produção para fora, e isso traria um bem enorme para o Estado”, destacou.

Apesar das dificuldades, Altevir Souza destacou avanços nos diálogos com as lideranças políticas, principalmente da administração estadual, que tem se mostrado preocupada com os anseios das comunidades indígenas. “Nós tivemos um encontro no dia 16 com a governadora Suely Campos. Nessa ocasião, pudemos falar um pouco das necessidades das comunidades indígenas aqui no Estado. Para a nossa surpresa, ela se mostrou bastante solidária com a nossa causa e se comprometeu a nos ajudar, pedindo apenas que elaborássemos alguns documentos com propostas. A Sodiur está preparando um projeto para encaminhar ao governo, também aos ministérios em Brasília e aos deputados, para que possam viabilizar algumas iniciativas para as comunidades do Estado”, pontuou.

GOVERNO

Em nota, o Governo do Estado salientou que, apesar das limitações orçamentárias, a Secretaria Estadual do Índio (SEI) tem investido em ações para captação de recursos para investimento nas comunidades. A pasta já apresentou no Siconv (Sistema de Convênio), do Governo Federal, projeto para aquisição de equipamentos agrícolas, entre eles, colheitadeira de milho e de feijão e arrancadora de mandioca, para mecanizar o processo de plantio e de colheita nas comunidades produtoras. O projeto prevê aquisição de recursos de R$ 500 mil, via Ministério do Desenvolvimento Agrário, com uma contrapartida de 10% do Estado.

Segundo o secretário estadual do Índio, Ozélio Macuxi, devido ao orçamento reduzido, a secretaria busca apoio dos parlamentares das bancadas estadual e federal para apresentação de emendas que garantam investimentos nas comunidades indígenas. Além disso, a secretaria oferece suporte técnico e de fornecimento de insumos para o setor agrícola e incentiva a produção de artesanato, a formação de cooperativas e a criação de planos de visitação turística.

Por: Minervaldo Lopes
Fonte: Folha de Boa Vista

Deixe um comentário