Demarcar florestas pode ser bom para o clima e a economia

O economista mexicano Juan Carlos Altamirano, um dos coautores do relatório que o WRI apresenta hoje
O economista mexicano Juan Carlos Altamirano, um dos coautores do relatório que o WRI apresenta hoje

Imaginar tecnologias inovadoras costuma ser o pensamento recorrente para enfrentar a mudança do clima na urgência que o fenômeno exige. Um grupo de 11 pesquisadores do World Resources Institute (WRI), um conceituado centro de estudos americano, trabalhou três meses numa abordagem pouco usual que envolve garantir o direito de posse das florestas a comunidades tradicionais e povos indígenas. O foco do estudo foi medir custos e benefícios da estratégia.

“Quando se pensa em combater a mudança do clima, pensa-se em tecnologia. Já esse caminho, de promover uma mudança institucional, é bem diferente e pode ajudar muito a enfrentar o desafio”, diz o economista mexicano Juan Carlos Altamirano, um dos coautores do relatório que o WRI lança hoje: “A Garantia da Posse Comunitária da Floresta: seus Custos e Benefícios. Os Exemplos do Brasil e da Guatemala”.

Demarcar florestas pode ser bom para o clima, demonstrou estudo anterior do WRI, de 2014, e que serviu de base para este novo relatório. Florestas que pertencem a comunidades rurais ou indígenas contêm 37,7 bilhões de toneladas de carbono. Se esse volume fosse lançado à atmosfera, seria equivalente a 29 vezes as emissões anuais de todos os usuários de veículos no mundo.

O estudo de 2014 comparava as taxas de desmatamento dentro de terras indígenas e onde há comunidades locais, e fora dessas áreas. Na Amazônia brasileira esse índice é 11 vezes menor, e é seis vezes menor na Amazônia boliviana. Em algumas regiões da Guatemala é 20 vezes menor.

“O que se achou foi uma relação positiva: quanto mais se protegem os direitos de propriedade dos que vivem na floresta, menos se desmata, em média”, diz Altamirano. “Agora estávamos atrás do argumento econômico: quanto custa garantir a posse da floresta a quem vive dela e qual o valor dos benefícios”, continua. “E se essa pode ser uma ação de baixo custo na luta contra a mudança do clima.”

“Interessaria a investidores privados ou a agências de desenvolvimento investir nesse campo como uma ação contra a mudança do clima?”, pergunta Altamirano. A conclusão é que sim.

Nas áreas analisadas, a garantia de posse das terras para comunidades que vivem da floresta pode impedir a liberação de mais de 5,4 bilhões de toneladas de CO2 ao longo de 20 anos. É o mesmo que a poluição provocada por mais de um bilhão de carros em um ano.

O estudo enfocou dois países da América Latina que têm experiências de concessão de terras à comunidades locais, caso da Guatemala, Que já faz isso há duas décadas, ou em demarcar terras indígenas, caso do Brasil.

A análise de custos, quanto à Guatemala, levou em conta o investimento necessário para estabelecer ou mudar a marco legal que apoia a concessão florestal a comunidades. Outro foco foi estudar o custo de identificar, demarcar, registrar e estabelecer planos de manejo florestais e dos produção ou de monitoramento, por exemplo. Em relação ao Brasil, a coleta de dados foi mais complicada e deficiente – baseou-se no orçamento da Funai e em entrevistas com estudiosos, basicamente.

A nova análise feita pelo WRI estima que o custo anual por hectare para garantir a posse comunitária da floresta é pequeno frente à redução das emissões de carbono e pelo desmatamento evitado.

No Brasil, um investimento de US$ 19 nos dias de hoje renderia o equivalente a US$ 1.473 por hectare em benefícios, em 20 anos, que é a metade do tempo que uma floresta leva para se regenerar. Na Guatemala, US$ 63 investidos hoje renderiam US$ 1.899. No país centro-americano, o cálculo inclui ganhos que as comunidades teriam também com a venda sustentável de madeira e produtos não florestais. No Brasil, o cálculo envolveu apenas o estoque de carbono.

Além de estocar carbono, a posse florestal comunitária produz outro leque de benefícios sociais e ambientais, como a manutenção da biodiversidade, a criação de empregos e produção de água. O inédito estudo do WRI reconhece que as informações foram insuficientes e que é preciso aprofundar as pesquisas. “As implicações globais são enormes”, diz Altamirano. “Povos indígenas e comunidades locais têm direitos legais sobre aproximadamente 12,5% das florestas mundiais. Quando investimos no fortalecimento dos direitos desses povos, também fazemos um investimento inteligente para viver num planeta com um clima mais estável.”

A repórter viajou a convite do World Resources Institute (WRI)

Por: Daniela Chiaretti
Fonte: Valor Econômico

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