Agricultura produz mais proteína e emite menos do que pecuária

Segundo Imaflora, identificar diferenças entre agricultura e pecuária melhora eficiência dos setores

A principal diferença entre a produção agrícola e a pecuária no Brasil pode estar na eficiência de cada um desses setores. Comparada à produção animal, a agricultura produz uma quantidade superior de proteína e energia com uma eficiência muito superior e emitindo menos gases do efeito estufa. A conclusão está no estudo “A Funcionalidade da Agropecuária Brasileira (1975 a 2020)”, do Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora). Segundo a pesquisa, compreender tais distinções pode ser a chave para melhorar a funcionalidade da agropecuária e contribuir para minimizar seus impactos ambientais e sociais.

A partir dos dados das safras de 1975 a 2006 e de projeções para 2020, o estudo mostra que, em 2006, a produção total de proteína da agricultura foi 25 vezes maior do que a pecuária, ocupando uma área 2,6 vezes menor que a de pastagens. Com esse resultado, foi possível, pela primeira vez, analisar a participação da agropecuária para o fornecimento dos principais elementos para a alimentação humana.

Outro aspecto diz respeito aos impactos dos dois setores em relação a emissões de gases do efeito estufa. De acordo com a pesquisa, a produção de proteína da agricultura é feita com uma emissão relativa muito menor que a de pecuária. Em 2006, a agricultura resultou em emissões de 1,4 tonelada de gases por tonelada de proteína, enquanto a pecuária emitiu 220 toneladas de gases por tonelada de proteína.

Otimizar a agropecuária

As diferenças identificadas entre os dois setores evidenciam os desafios da pecuária do ponto de vista de sua funcionalidade e desproporção de impactos ambientais. De acordo com o estudo, mesmo produzindo 25 vezes mais proteínas, o valor da produção da agricultura é apenas duas vezes maior do que da pecuária, o que indica que o mercado não reflete a funcionalidade, eficiência e impacto das atividades. “As externalidades verificadas no estudo são as mesmas, mas o mercado as pondera de forma diferente. O método que sugerimos deixa isso mais explícito do que outras iniciativas semelhantes”, apontam os autores Luís Fernando Guedes Pinto, pesquisador do Imaflora, e Gerd Sparovek, professor titular da Esalq/USP.

Os especialistas defendem a necessidade de ajustes no mercado e políticas públicas para induzir mudanças de uso da terra e produção, o que consequentemente traria equilíbrio para os impactos das duas atividades. “As intervenções públicas necessárias são as mesmas que já estão aí, mas elas podem se beneficiar com outra visão sobre o que é prioridade”, salientaram. A pesquisa estima uma diminuição da área de pastagens e um aumento da área de culturas agrícolas em 2020, o que corresponderá a um aumento contínuo da eficiência dos dois setores em todas as regiões do Brasil.

Ainda segundo os pesquisadores, a melhora da eficiência da agropecuária pode trazer mais transparência ao setor de produção, principalmente pelo lado do consumidor, com a agricultura de baixa emissão de carbono contribuindo nesse cenário. “O Plano ABC é uma política que deixa mais explícita a eficiência do processo de produção da agropecuária”, comentaram.

Apesar das projeções do estudo não considerarem iniciativas públicas e privadas que têm influenciado a dinâmica de expansão e intensificação da agropecuária, a exemplo do Plano de Agricultura de Baixo Carbono (ABC), a partir deste ano o Imaflora pretende lançar novas análises acadêmicas e de políticas públicas para avaliar com maior profundidade a evolução do setor com a nova abordagem.

O instituto pretende abordar o processo de expansão e intensificação e propor políticas públicas e privadas para a otimização da produção e da sua sustentabilidade. “O ABC sempre precisa estar na mira de estudos como este. No momento, estamos reunindo as capacidades para dar prosseguimento a esse primeiro estudo, o que incluirá um recorte específico do Plano ABC”, finalizaram os pesquisadores.

Estudo na íntegra

Fonte: Observatório ABC

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