Expedição vira documentário com descobertas de novas espécies da Amazônia

Equipe com 70 pessoas passou 25 dias na Serra da Mocidade, onde teve todas as descobertas registradas pela Grifa Filmes.  Trabalho será lançado nos cinemas e na televisão fechada

Diferentes espécies foram encontradas e catalogadas para evitar a extinção (Haroldo Palos Jr/Divulgação)
Diferentes espécies foram encontradas e catalogadas para evitar a extinção (Haroldo Palos Jr/Divulgação)

Existem os aventureiros que só precisam de uma mochila para se “jogar” no mundo.  Porém, há pessoas que preferem curtir a tranqüilidade de banho de cachoeira no fim de semana, sem adrenalina.  Outras, não têm muito pique para desbravar a natureza.  Não importa em qual grupo você se encaixe, “Expedição Novas Espécies” é um convite irrecusável para conhecer um lugar misterioso, nunca antes explorado pelo ser humano.

Produzido pela Grifa Filmes, o documentário registrou a permanência de 70 pessoas — das quais 50 cientistas de diferentes especialidades — em uma região inexplorada da Amazônia.  O grupo acampou na Serra da Mocidade, em Roraima, por 25 dias, em janeiro deste ano, em busca de novas espécies de animais e plantas.  O feito inédito foi registrado sob o olhar aguçado do diretor Maurício Dias, que já produziu e dirigiu mais de 60 filmes.

“Temos muitas historias que nunca foram contadas.  Se não estivéssemos lá para registrar, seria mais uma.  Essa é um das expedições mais importantes que já aconteceram nos últimos anos”, diz o produtor, que teve outras aventuras documentadas, como “No caminho da Expedição Langsdorff”, distribuída pela Discovery International e France 3; “Baleias em Abrolhos” (Animal Planet) e a série “Animais do Brasil” (National Geographic).

Segundo ele, os resultados da Ciência tendem a se restringir aos círculos científicos e, por isso não chegam ao conhecimento do público.  Essa expedição, por outro lado, será divulgada para o mundo.  No documentário, os telespectadores poderão aprender porque fauna e flora são estudadas e como espécies novas são encontradas.  “Esse documentário não será exibido somente no Brasil, mas no mundo todo”, ressalta.

“É humanizar um pouco os cientistas, para entendermos o papel deles, ver o que a Ciência tem a ver com o nosso dia a dia”, afirma.  “Tem filmes que fizemos há mais de 20 anos que ainda são exibidos nos canais.  É diferente da ficção, tem uma vida longa.  Esse documentário tem um diferencial: descobertas que vão mudar a história, pelo menos, aqui, na América Latina.  É uma gratidão ter participado disso.  Foi um dos maiores filmes que já fiz”, completa.

Alcance maior

Na opinião do cientista responsável pela expedição, Dr. Mario Cohn-Haft, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), o trabalho original é uma forma de levar o público a um local onde nem mesmo os estudiosos têm oportunidade de conhecer in loco. A exibição será feita primeiro nos cinemas, com estréia no segundo semestre deste ano e, posteriormente, nos canais de televisão Globonews (Brasil) e ARTE/ZDF (Alemanha).

“Eu acredito que, infelizmente, a ciência ainda fica longe do conhecimento do cidadão comum. A ideia é aproximá-los para compartilhar o ‘barato’ que é ir para um lugar onde ninguém foi antes. Não tem que ser um privilégio só nosso”, afirma. “As pessoas entenderiam melhor a importância de investir em pesquisa científica se pudesse ver como é. Ciência não é só ficar dentro de um laboratório, é ir para o mato entender a natureza”, completa.

Segundo o titular e curador das coleções ornitológicas do Inpa, a catalogação de novas espécies é um ponto importante na viabilização de verbas para a proteção dos animais e plantas que, apesar de recém-descobertos, já estão ameaçados de extinção. Os relatórios, inclusive, serão enviados a jornais científicos para análise de uma comissão de pesquisadores que dirão se estas podem, ou não, ser consideradas novas espécies.

“Documentar e descrever a real diversidade do planeta é uma das atividades mais básicas e nobres da ciência natural. Queremos saber com quem dividimos o planeta, entender quais as espécies que compartilham o mundo com a gente. Ir para lugares onde podemos encontrar algumas delas nunca documentadas é uma maneira de acelerar esse processo. Assim, cumprimos o nosso papel como cientistas”, enfatiza Cohn-Haft.

Diante dessa realização inédita, o americano radicado no Brasil há mais de duas décadas pretende, a partir de agora, registrar todas as expedições semelhantes. “Meu objetivo é que toda expedição seja documentada de alguma forma. Talvez não consigamos uma equipe de televisão sempre. Mas podemos ser acompanhados em tempo real pelo grande público, por meio da Internet, transmissão via satélite”, pondera.

Pistas sobre evolução das espécies

De acordo com o cientista Mario Cohn-Haft, a comparação das espécies encontradas na Serra da Mocidade com outras parecidas — de diferentes lugares — revelará pistas sobre o processo de evolução e a geração de espécies ao longo da história da Terra. Ele, inclusive, comparou a viagem à expedição de Charles Darwin nas Ilhas Galápagos, no Equador.

“Da mesma forma que as ilhas do Galápagos colaboraram para os estudos de Darwin, as serras isoladas amazônicas ajudam a contar uma história que a ciência se desespera para entender: como surgem formas de vida novas? Devido ao isolamento em um espaço por milhões anos, encontramos espécies endêmicas, ou seja, que só têm ali”, explica.

Perfil – Dr. Mario Cohn-Haft

Cientista chefe da expedição, o americano tem mais de 25 anos de experiência na Amazônia brasileira, com expedições na região. É ornitólogo especializado em aves amazônicas, com ênfase em biogeografia. Possui graduação em Biologia, com bacharelado em Artes Liberais de Dartmouth College (1983), mestrado em Ecologia, Evolução, e Biologia Organismal de Tulane University (1995), e doutorado em Zoologia de Louisiana State University (2000).

Perfil – Maurício Dias

Diretor brasileiro, produziu e dirigiu mais de 60 filmes. Além dos trabalhos já citados, o documentário “O Brasil da Pré-História”, exibido em mais de 70 países; e a série “Extinções – Onça Pintada”, uma co-produção Brasil /França/ Singapura e Canadá, com grande audiência na TV France. Concluiu recentemente a série de 20 episódios “Assiete Brésilienne”, uma aventura cultural-gastronômica pelo Brasil em uma co-produção com a França, para ARTE e Discovery.

SAIBA +

O uso de helicópteros do Exército foi essencial para chegar à Serra da Mocidade, em Roraima, e instalar laboratórios em plena selva. Na região, não há extensão de terra plana suficiente para pousar um avião, não existem estradas e os rios descem cachoeiras impossíveis de navegar. A equipe teve, ainda, um médico e recursos de primeiros socorros para eventuais emergências.

DESTAQUE

O documentário “Expedição Novas Espécies” é uma produção da Grifa Filmes, Filmland em co-produção com a Globo Filmes, Globo News, a produtora Gebrueder BEETZ e os canais Arte e ZDF (Alemanha). E apoio do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), do Exército brasileiro, por meio do Comando Militar da Amazônia (CMA), do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e do Parque Nacional Serra da Mocidade.

Por: Natália Caplan
Fonte: A Crítica

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