Em 10 anos, ABC pode poupar 100 milhões de hectares de pastagens

Estudo mostra que adoção de práticas de baixa emissão carbono pode aumentar rebanho brasileiro em 128 milhões de cabeças

Aplicar tecnologias da agricultura de baixa emissão de carbono (ABC) na pecuária brasileira, levando em consideração as características dos diferentes biomas do país, pode poupar 100 milhões de hectares de áreas para pastagens em 10 anos, alcançando um incremento de 128 milhões de cabeças de gado e ainda sequestrando os gases causadores do efeito estufa. A conclusão é do estudo “Intensificação da pecuária brasileira: seus impactos no desmatamento evitado, na produção de carne e na redução de emissões de gases do efeito estufa”, coordenado pelo pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e professor do GVAgro, Eduardo Assad.

Segundo o pesquisador, o projeto estimou quais impactos o setor pecuário sofreria com e sem a adoção de tecnologias de baixa emissão de carbono nos diferentes biomas do país, aplicadas não apenas em regiões que concentram a produção pecuária, mas também em áreas onde a incidência da atividade é menor ou gera um menor impacto. “A principal mensagem desse estudo é a de que podemos fazer a intensificação da pecuária associada à baixa emissão de gases do efeito estufa e isso trará resultados positivos para o Brasil inteiro, revelando o potencial econômico que a intensificação da pecuária pode trazer”, avaliou Assad.

De acordo com o estudo, com uma taxa de lotação média de 2,2 animais por hectare, o rebanho brasileiro pode chegar a 324 milhões de cabeças até 2025. Esse aumento da taxa de lotação é baseado na neutralização de 5,3 bilhões de toneladas de CO2eq em dez anos, gerados pelo próprio sistema de produção.

Aproximadamente 20% do território brasileiro, o que corresponde a 169 milhões de hectares, é ocupado por pastagens. Deste total, estima-se que 30% da área de pastagens (ou 48 milhões de hectares) está degradada ou em processo de degradação. Ao analisar as pastagens de todo o Brasil, foi possível identificar os impactos em diferentes níveis de intensificação de uma pastagem, levando em consideração a lotação de animais.

Segundo o relatório, foram consideradas degradadas as pastagens com capacidade menor ou igual a 0,75 cabeça por hectare. Quanto maior a intensificação, maior a capacidade de lotação de animais por hectare, o que se traduz em mais sequestro de carbono. “Com as tecnologias ABC, podemos passar da média de 0,75 animais por hectare para até 3,3 cabeças por hectare. Com esse nível de intensificação, é possível alcançar o equilíbrio no sequestro de carbono”, explicou o coordenador do estudo.

No entanto, há um limite máximo de capacidade de suporte para que as emissões sejam neutralizadas. “Com uma lotação acima de 3,5 cabeças por hectare, identificamos que o balanço no sequestro de carbono não fecha”, ressaltou Assad.

Estratégia para o país

Apesar do enorme potencial, o relatório destaca que as atuais linhas de crédito agrícola que possuem um perfil ambiental são uma pequena parcela dos recursos aplicados. “O estudo só reforça o que já foi apresentando em avaliações anteriores. É preciso transformar a agropecuária de baixo carbono na principal estratégia de produção do país. Esse é o setor que, em curto prazo, terá impacto direto na INDC brasileira [contribuição apresentada pelo Brasil às Nações Unidas para reduzir suas emissões até 2030]”.

Em um cenário tendencial, isto é, sem a intensificação nos 48 milhões de hectares de áreas degradadas, as emissões acumuladas em 10 anos no Brasil podem chegar a 297 milhões de t CO2eq. Já no cenário baixo carbono, as emissões do cenário tendencial são neutralizadas e ainda ocorre um armazenamento de carbono no sistema produtivo de 634 milhões de t CO2eq. Como resultado da utilização de práticas como a recuperação de pastagens e integração lavoura-pecuária (iLP), pode-se sequestrar 215 milhões de toneladas de carbono equivalente (t CO2eq).

O estudo indica que a política de crédito agrícola pode servir como instrumento de apoio à intensificação, a exemplo do Programa de Agricultura de Baixo Carbono (ABC), que concede taxas de juros e condições de pagamento diferenciadas para os pecuaristas que adotam as boas práticas agropecuárias.

Fonte: Observatório ABC

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