O cinema nos cantos mais esquecidos da Amazônia

Em 2003, surgiu o Cineamazônia percorrendo as cidades amazônicas, descendo e subindo os rios Madeira e o Guaporé, chegando ao estado do Acre e aos países vizinhos como a Bolívia e o Peru. 

A equipe do Cineamazônia (Foto: Avener Prado)
A equipe do Cineamazônia (Foto: Avener Prado)

Fernanda Kopanakis senta em uma pequena mesa feita de concreto. A` frente dela, o rio que dá nome ao Distrito de Fortaleza do Abunã, em Rondônia. De óculos escuros, ela fuma um cigarro e espera a montagem da estrutura que exibira´ uma série de curtas-metragens para a comunidade local, que, em sua maioria, só sabe o que e´ cinema por causa do Cineamazo^nia Itinerante. Faz parte do projeto do festival de cinema, criado em 2003, percorrer alguns dos lugares mais esquecidos da Amazônia, levando cinema, teatro, poesia e artes em geral para as comunidades onde o poder público falha em oferecer o básico.

Duas vezes por ano, a caravana percorre distritos de Rondônia e Acre, chegando aos vizinhos Bolívia e Peru. Por terra, o festival percorre aproximadamente 400 km. De barco, outros 250 km. As distâncias percorridas durante os anos podem, inclusive, propiciar ao festival sua entrada no livro dos recordes como o festival itinerante de cinema com a maior quilometragem rodada do mundo.

O objetivo e´ levar a sétima arte agregando a ideia de conscientização ambiental, fomentando a discussão sobre o meio ambiente através dos filmes exibidos. “Vamos a locais onde não existem eventos culturais. Levar o cinema para esses lugares e´ a possibilidade que essas pessoas têm de ver a tela grande e de se ver na tela grande, propiciando esse sentido de integração com a arte”, diz Fernanda Kopanakis, uma das idealizadoras do festival.

A temática ambiental também não e´ por acaso. A região tem em seu histórico o desmatamento proveniente de uma ocupação desordenada da floresta e conflitos de terra que até hoje mancham de sangue o solo que já foi da mata, da borracha, do gado e, hoje, está ocupada pela soja.

A equipe do Cineamazônia (Foto: Avener Prado)
A equipe do Cineamazônia (Foto: Avener Prado)

“O Cineamazônia foi criado nos moldes de outros festivais de cinema, com uma mostra competitiva, homenagens e também com o propósito de ser o único festival de cinema ambiental na Amazônia. A primeira experiência com itinerância surgiu a partir do resultado de levar cinema aos bairros da periferia de Porto Velho. Isso nos estimulou a olhar um pouco mais no entorno”, diz Jurandir Costa, outro organizador do Cineamazônia.

Como município, Porto Velho é um dos maiores do Brasil em extensão territorial, com distâncias comuns para quem vive na Amazônia. E um município tão grande acaba não estendendo ações culturais além de seu perímetro urbano. “A recepção foi maravilhosa, estimulando todos nós a voltarmos a cada ano aos mesmos lugares. Disso surgiu a ideia de ir a outros lugares da Amazônia. Depois, descobrimos que a Amazônia não é uma só, são múltiplas. E com o apoio de órgãos como BNDES desenvolvemos essa ideia de nos aventurarmos pela Amazônia peruana e boliviana. Descobrimos o que nos une e o que nos separa. Tem sido uma experiência única”, complementa Jurandir Costa.

As experiências são as mais diversas possíveis. Fernanda se lembra de um agricultor idoso que, no dia seguinte a uma das apresentações, foi levar alguns produtos de sua lavra. Era um agradecimento por ter conseguido rir de verdade depois de 20 anos. “Imagina, duas décadas sem dar uma gargalhada”, recorda-se Fernanda.

Em 2016, a equipe foi praticamente impedida de entrar em Porto Maldonado, no Peru, mesmo com todos os documentos em dia. À boca pequena, os comentários eram de que os agentes de fronteira gostariam de um “agrado”. Isso não é incomum. São as realidades diferentes de uma panamazônia.

Em compensação, em locais como Capixaba, município acreano que faz fronteira com Bolívia, a recepção foi calorosa. O local escolhido para ser realizado a sessão de cinema foi em frente ao pequeno estádio da cidade, junto ao calçadão da avenida principal. Uma pequena multidão prestigiou a sessão e o show dos palhaços peruanos Figurita e Aguahito, que levaram ao delírio as crianças e adultos que foram assistir as apresentações.

Os comerciantes que deixaram suas mercearias funcionando durante a sessão também comemoraram a chegada da caravana do Cineamazônia, e puderam lucrar a mais com a movimentação atípica proporcionada pelo festival.

Para Vidal Martins, um dos líderes comunitários de Capixaba, o festival cumpre uma função importante na promoção da cultura dentro do município. “Sempre buscamos trazer para cá vários projetos culturais. É muito bom termos esse tipo de atividade aqui na cidade, porque incentiva nossos jovens a se interessar mais por essas atividades artísticas”, diz.

Em Capixaba mora dona Rosaura. Ela tem 80 anos, cabelos grisalhos e pele branca. Ela foi uma das primeiras pessoas a se instalar em Capixaba, onde está localizada a primeira usina de etanol do Acre, a Álcool Verde. Ao longo da BR-317, que interliga a cidade a Rio Branco, grandes canaviais se formam para abastecer a usina. Como professora, lutou muito para conseguir trazer vitórias para a educação e, consequentemente, o próprio desenvolvimento da região.

“Quando cheguei por aqui tinha só mato e pouquíssimas famílias vivendo no local. Todas de donos de seringais”, diz dona Rosaura. Ela ajudou a modificar um pouco esse cenário. A escola aproximou os trabalhadores que ficavam muito longe, e passaram a se achegar para que pudessem estudar.

Ter um município chamado Capixaba, no Acre, mostra um pouco da forma de ocupação da Amazônia durante o século passado. Na época áurea da borracha, várias famílias se mudaram para o Norte do país. Uma delas tinha saído exatamente do Espírito Santo. Como era uma família que tinha uma condição financeira um pouco melhor, servia como ponto de distribuição e venda de artigos de primeira necessidade, principalmente ferramentas. Esse tipo de comércio era chamado de Casa Aviadora, onde o seringueiro comprava mercadoria básica, muitas das vezes penhorando a borracha como garantia de pagamento.

Assim, sempre que alguém precisava de alguma coisa, falava que ia ver se tinha lá no “capixaba”. O nome se tornou ponto de referência. Na época de emancipação da cidade, uma eleição entre Capixaba e Vila Santo Antônio (padroeiro da região) feita com caroços de milho (representando Capixaba) e de feijão (representando Vila Santo Antônio) decidiu o nome; venceram os caroços de milho.

Em Extrema, pequeno distrito de Porto Velho, na divisa com o estado do Amazonas, a sessão teve um jeito bem diferente das realizadas pelo festival, com muitos adolescentes entre os presentes. Percebendo isso, a organização dividiu a sessão em duas partes. Primeiro, os curtas e as animações da programação conseguiu, com linguagem mais jovem, dialogar bem com os garotos de idade entre 13 e 17 anos, que eram, a todo momento, convidados a pensar na mensagem que estava sendo passada na tela.

Depois do cinema, foi a vez das crianças, que passou a ser maioria a partir de então. Muito animadas, elas participaram de todas as brincadeiras feitas pelos palhaços peruanos Figurita e Aguajito. As crianças e adolescentes passaram, claro, a dominar a plateia. Mas eles não foram os únicos. O agricultor João Paulo Bezerra, de 80 anos, admitiu que estava animado para assistir às apresentações dos palhaços. “Fazia muito tempo que não via um palhaço. Eu gostava muito de ir ao circo muito tempo atrás. Poder participar novamente e levar a minha filha pequena é muito bom”, afirmou o agricultor.

“O Cineamazônia realiza um trabalho importante de documentação da memória desses espaços. Está fotografado e filmado para a posteridade o surgimento de núcleos urbanos, a morte de pequenas cidades. Tudo isso são tragédias ambientais. O relato das pessoas que vivenciam a tragédia dos deslocamentos urbanos, realidades inimagináveis, como por exemplo, a chegada da energia elétrica, asfalto, precárias estruturas em cidades construídas dentro de reservas ambientais, proibidas por lei”, analisa Jurandir Costa.

É uma Amazônia pouco conhecida. “A partir da Amazônia podemos ter uma pequena noção de Brasil, de América Latina. Somos vizinhos da Bolívia, do Peru, da Colômbia, da Venezuela. Quem vive na Amazônia não tem medo de lugar longe, temos a verdadeira noção de Brasil. Precisamos entender também que a maioria das pessoas que está na Amazônia passou pelos movimentos de migração, muitos em busca de riqueza, borracha, madeira, ouro, gado. No fundo, o mito do Eldorado continua presente no imaginário. Acostumamos a enxergar o Brasil do tamanho que ele é”, avalia Costa.

Estar presente nessa contemporaneidade amazônica faz parte do ideário do Cineamazônia. Um exemplo: no início de 2015, Porto Velho praticamente submergiu. O rio Madeira transbordou de uma forma que há muito os moradores da cidade não viam. A cheia isolou Rio Branco, capital do Acre, já que a única rodovia que interliga o estado ao restante do país –a BR-364 – ficou submersa pelas águas do Madeira.

Para muitos, uma das causas da tragédia ambiental estava logo ali, a centenas de metros de Porto Velho. A imensa hidrelétrica de Santo Antônio, responsável por mudanças nas características do rio Madeira, historicamente conhecido como o maior afluente à esquerda do Amazonas.

Os organizadores do festival fizeram apresentações que podem ser consideradas históricas na comunidade que iria desaparecer por conta dos alagamentos das barragens da hidrelétrica. Ao mesmo tempo, gravou depoimentos importantes de antigos moradores que testemunharam o fim da conhecida Cachoeira de Teotônio, famosa no estado todo por um festival de pesca. “A gente tem um compromisso com as questões do nosso tempo. A história cobra isso”, defende Fernanda Kopanakis.

Ousadia e teor político e ambiental

O festival contagiou o público das cidades ribeirnhas (Foto: Avener Prado/Cinemazônia)
O festival contagiou o público das cidades ribeirnhas (Foto: Avener Prado/Cinemazônia)

O festival Cineamazônia começou pequeno. Desde os anos 1990 Jurandir Costa, diretor de documentários, militava pelo audiovisual em Porto Velho. À época, munido de pura intuição e vontade de fazer, corria atrás das próprias produções, com pouco apoio. Praticamente cobrava o escanteio e corria para cabecear, usando-se um jargão futebolístico.

Desde a primeira edição, em 2003, o festival surpreendeu pela ousadia e pelo teor político e ambiental intenso. De cara, a exibição do documentário Timor Lorosae- o massacre que o mundo não viu, de Lucélia Santos, causou impacto. A própria atriz e diretora esteve presente à sessão e debateu com o público.

O que era apenas um festival de cinema que certamente poderia ser confundido com dezenas de outros ao redor do país, tomou outras proporções. Em 2008, Jurandir e Fernanda ousaram ainda mais e levaram o festival a outras praças. Surgia o Cineamazônia Itinerante. A caravana cultural percorreria todas as capitais amazônicas, desceria e subiria rios como o Madeira e o Guaporé –este último na fronteira com a Bolívia -, e se espalharia pelo continente, chegando ao Peru, Bolívia e Colômbia.

Um mundo se abriria para os realizadores. Da entrada em garimpos clandestinos no Peru até a passagem por caminhos onde o narcotráfico domina, quase todo tipo de vivência seria experimentada pela equipe. Em grandes cidades ou em localidades minúsculas filmes eram exibidos. Além disso, atrações musicais e circenses também passaram a fazer parte da itinerância.

“A gente foi aprendendo a fazer fazendo”, lembra Jurandir Costa. Com apoio de instituições como Ministério da Cultura, BNDES e Petrobras, a caravana ganhou o mundo, indo até a África e Portugal. Ao mesmo tempo, escritores, músicos e cineastas dos países visitados eram levados para Rondônia, num interessante intercâmbio cultural – bem longe dos olhos das grandes capitais.

“Muitas das vezes nós chegávamos a lugares onde sequer havia energia elétrica, ou a outros onde cinema nunca havia sido experimentado”, afirma Fernanda Kopanakis.

Há momentos que se tornaram emblemáticos, como a noite em que o filme “O Palhaço”, de Selton Mello, foi exibido sob chuva numa tenda de circo numa comunidade que seria desalojada por conta das obras da hidrelétrica de Jirau, também no rio Madeira.

Segundo Fernanda Kopanakis, vários fatores fazem com que o festival se diferencie dos outros itinerantes realizados pelo país e pelo mundo, a começar pelos locais escolhidos. “Nós gostamos de ir a lugares de difícil acesso e que dificilmente receberiam a visita de um projeto que leve a sétima arte. Além disso, levamos conosco a missão de inserir nesses lugares a temática ambiental. Para muitos desses locais, falar sobre meio ambiente é quase um acinte. Fora que levamos muito mais que cinema. Tentamos sempre inserir outras formas de arte, como poesia e circo”, afirma Fernanda Kopanakis.

Para ela, o Cineamazônia ainda tem como algo único o trabalho de difusão do cinema brasileiro. “É algo que poucos fazem, porque vamos a lugares muito simples e onde não existem salas de cinema. Alguns mal têm energia elétrica, por exemplo. Então nós levamos o cinema nacional a esses locais em que, sozinho, ele muito provavelmente nunca teria alcance”, diz Fernanda.

Leia mais sobre o Cineamazônia aqui.

Por: Lui Machado e Ismael Machado
Fonte: Amazônia Real

Deixe um comentário