Assassinato de ecologistas bate recorde e Brasil é o país mais perigoso da região

Pelo menos 185 ativistas morreram em 2015 e 66% das vítimas são latino-americanas

Protestos pelo assassinato de ecologistas, o passado setembro em Mindanao, Filipinas.  / GLOBAL WITNESS
Protestos pelo assassinato de ecologistas, o passado setembro em Mindanao, Filipinas. / GLOBAL WITNESS

O ambientalista colombiano Fabio Moreno, de 51 anos, passou 10 meses se escondendo dos algozes de um de seus companheiros mais próximos.  Ambos receberam a mesma ameaça uma semana antes do assassinato, em abril de 2015: “Se já sabem o que precisam, vão embora”.  Perpetrado o crime, Moreno abandonou a reserva indígena que defendia da entrada de mineradoras multinacionais e grupos armados em busca de ouro na região, a oito horas de carro de Bogotá.  “A grande mineração não respeita nossos territórios sagrados e polui as fontes de água”, queixa-se por telefone.  “Quando voltei para defender meu lar, eles também retornaram” e alertaram: “Temos um bom dinheiro para terminar o trabalho”, conta ele.

2015 foi o ano com mais ecologistas assassinados neste século, com 185 mortes, 69 a mais que em 2014, segundo um relatório publicado na segunda-feira pela ONG Global Witness. A América Latina voltou a ser, como nas contagens imediatamente anteriores, a região com mais vítimas (66%) e o Brasil, com 50 mortes, o país mais perigoso para os ativistas, com quase um de cada três assassinatos no mundo (27%). Filipinas (33), Colômbia (26), Peru (12) e Nicarágua (12) continuam na lista, que inclui 16 países. Cerca de 40% dos assassinados são indígenas.

Assassinatos por país 2010-2015.  G. W.
Assassinatos por país 2010-2015. G. W.

A brasileira Maria da Conceição Chaves Lima é uma sobrevivente desse tipo de crime. Em agosto de 2015, ela e seu marido, Raimundo dos Santos Rodrigues, voltavam para casa na região Nordeste quando caíram em uma emboscada. Ele morreu com 12 tiros e ela ainda se recupera dos ferimentos. O casal combatia o desmatamento na Amazônia e ela era assessora do Instituto Chico Mendes para a Conservação da Biodiversidade, que leva o nome do célebre ambientalista assassinado no final dos anos 1980. “Poucos dias depois, Maria foi incluída no programa de proteção a vítimas e testemunhas ameaçadas”, conta por e-mail Danilo Chammas, advogado da família. “Desde então, está longe de sua comunidade e sem poder contatar amigos e familiares”.

Um estudo independente de 2014 calculou que a madeira ilegal do Brasil representa 25% dos mercados mundiais. Os conflitos pelo desmatamento levaram ao assassinato de 15 ecologistas no mundo inteiro no ano passado, segundo o relatório da ONG. A mineração (42), a agroindústria (20), as hidrelétricas (15) e a caça ilegal (13) foram os outros setores cujas disputas ocasionaram mais mortes.

Por: Felipe Sánchez
Fonte: El País

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