Omar: uma história de sobrevivência nas águas da costa da Amazônia

É o primeiro registro de um peixe-boi marinho encontrado vivo na zona costeira do arquipélago do Marajó, desde 2013

É o dia 20 de julho de 2013.  Sob o sol forte, o vento com cheiro de rio soa como música a se impor contra as ondas que se encrespam, já cada vez mais miúdas, ao ritmo da maré: as águas e as lufadas úmidas vazam entre fileiras tortas desenhadas pelos galhos do curral de pesca, que emerge mais uma vez na praia.  Os homens, mulheres e crianças da vila de pescadores da Passagem Grande, no município de Salvaterra, no arquipélago do Marajó, correm para ver a novidade.  Naquele dia, mais um de trabalho duro nas águas rasas que ajudam a alimentar a comunidade, a rotina da labuta de repente é atravessada por sorrisos, expressões de surpresa, dó e alguma ou outra algazarra.  Diante deles, aos poucos, vai se mostrando o que se parece mais com uma aparição entre os peixes capturados.  Alguém se adianta, mais exaltado: “É um filhote de peixe-boi!”.

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Foto: Reprodução/Museu Goeldi

A fofoca correu de boca em boca. Saiu da areia da praia até virar uma corrida de urgência pela comunidade. Não demorou muito para que se chamasse por socorro e pelas autoridades de Salvaterra. O filhote encontrado preso, possivelmente desgarrado da mãe, precisava de cuidados. Se não fosse resgatado, poderia morrer. Assim começou a aventura de Omar, cuja história está mudando uma parte do que se sabe sobre a vida nas águas da costa amazônica. E tudo isso porque, quando finalmente pesquisadores e especialistas correram ao Marajó para encontrar o igarapé onde bebê foi inicialmente abrigado, descobriu-se algo mais inusitado ainda: Omar é um filhote de peixe-boi marinho (Trichechus manatus), uma espécie que, ao contrário do peixe-boi que ainda se encontra nos rios da Amazônia (o Trichechus inunguis), imaginava-se que estava extinta desde o início dos anos 1980 na costa leste do Marajó – uma parte da grande região do litoral norte brasileiro marcada pela gigantesca interação entre o oceano Atlântico e as águas doces e barrentas do estuário do rio Pará.

Raridade biológica

Omar é o primeiro registro de um peixe-boi marinho encontrado vivo na zona costeira do arquipélago do Marajó desde então. Já havia vestígios de que a espécie não havia desaparecido por completo da Costa Norte. Em 2005, um crânio de peixe-boi marinho foi achado numa praia do mesmo município marajoara de Salvaterra. Essa evidência de que a espécie não havia desaparecido por completo motivou um artigo científico, publicado ainda em 2007 pelos integrantes do Grupo de Estudos de Mamíferos Aquáticos da Amazônia do Museu Paraense Emílio Goeldi (GEMAM-MPEG).

Essas grandes peculiaridades da aparição de Omar, nas rasas águas de uma praia de Salvaterra, deram início a grandes esforços na ilha do Marajó para que se garanta a sobrevivência do filhote e também a integridade de outros exemplares de sua espécie. A necessidade de manter Omar vivo já venceu as dificuldades iniciais, como as de se criar um viveiro onde o bebê pudesse sobreviver – apesar de estar longe do seu habitat natural e dos cuidados da mãe. Agora o novo desafio exige a deflagração de uma grande campanha, dividida em duas partes.

A primeira já começou, com a ajuda das redes sociais, de pesquisadores, entidades ambientais e o apoio de autoridades do poder judiciário: é preciso arrecadar fundos e garantir doações para que se possa continuar fornecendo o leite que tem mantido vivo o peixe-boi marinho. Por fim, agora começa também uma grande mobilização para que Omar possa em breve ser solto novamente nas águas do Marajó – adaptado mais uma vez ao seu ambiente natural e a salvo de riscos de encalhe ou de algum tipo de agressão. Essa luta exigirá o engajamento não apenas de órgãos ambientais e de pesquisadores, mas também de comunidades inteiras da ilha do Marajó.

Campanha pela vida

Quando o pequeno peixe-boi marinho encontrado em Salvaterra se perdeu da mãe, há três anos, ele tinha apenas três meses de idade. Hoje Omar está completando três anos. Já soma 1,84 metro de comprimento e pesa cerca de 121 quilos. Sua reabilitação hoje é feita em um igarapé na comunidade da Passagem Grande. Lá, ele recebe cuidados diários de dois tratadores, sob a responsabilidade de veterinários do Ibama e da Universidade Federal do Pará (UFPA), com ajuda do Grupo de Estudos de Mamíferos Aquáticos da Amazônia do Museu Parense Emílio Goeldi (GEMAM-MPEG), e também com apoio da Prefeitura de Salvaterra e da ONG Instituto Bicho D’Água, sediada no município marajoara de Soure.

Peixes-bois marinhos têm intolerância à lactose. Por isso mesmo, Omar precisa ser alimentado diariamente com leite de soja, além de óleo de canola e suplementos vitamínicos. “A intenção é que Omar seja transferido até o final de 2016 para um semi-cativeiro natural, e daí possa ser devolvido à natureza em um futuro breve”, diz Leandro Aranha, representante do Ibama em Belém.

Sim, já está chegando a hora de Omar ganhar a liberdade nas águas do arquipélago do Marajó. Mas até vencer essa nova etapa, que exigirá novos grandes cuidados, ainda é preciso continuar alimentando-o com leite especial. “Todos os dias Omar toma três mamadeiras de um litro. Fazendo os cálculos, são cerca de 33 quilos de leite por mês”, explica a bióloga Renata Emin-Lima, que é presidente do Instituto Bicho D’água, pesquisadora do GEMAM-MPEG. Doutora em Ciências pela FIOCRUZ, ela está à frente da coordenação do GEMAM/MPEG, juntamente com o doutor José de Sousa e Silva Junior, ligado à Coordenação de Zoologia do Museu Goeldi.

O desafio desse esforço para manter Omar vivo é pressionado pelos custos. Hoje, R$ 2 mil são gastos ao mês apenas com o consumo de leite de soja. O Ibama-Pará, o responsável legal pelo peixe-boi marinho, não tem como bancar sua manutenção na estrutura criada no Marajó. Alguma ajuda veio de recursos oriundos de multas ambientais, que agora estão suspensos. Outra ainda vem de coletas feitas entre os próprios colaboradores e pesquisadores ligados aos cuidados de Omar.

Por isso tudo, Omar agora está dependendo de campanhas públicas para arrecadação de dinheiro e doações que custeiem sua alimentação e manutenção em cativeiro, até que ele volte a ser solto natureza. No final de abril, o Instituto Bicho D’Água e o GEMAM-MPEG iniciaram uma mobilização em redes sociais, jornais, rádios, Tvs e noticiários na internet. Foi aberta uma conta bancária (veja no rodapé da matéria) para que doações em dinheiro possam ser feitas. Na primeira semana, arrecadou-se R$ 1.034,49. Hoje as doações já somam mais de R$ 1.264, mas este valor cobre a alimentação por apenas 20 dias.

Uma outra vitória desse esforço veio de um recente aceno positivo do Judiciário paraense. No último dia 2 de maio o Instituto Bicho D´Água e o GEMAM-MPEG conseguiram selar apoios com os juízes de Soure e Salvaterra para que transações penais aplicadas nas suas comarcas possam ajudar a custear a reabilitação de Omar. Ou seja: quando for possível, penas alternativas podem ser revertidas em donativos à campanha. “O Juiz de Soure disse que não há um grande volume de multas, mas que vai nos apoiar. E em Salvaterra, saberemos em junho o quanto terão de multas para nos ajudar”, comemora Renata Emin.

De volta ao mar

Paralelamente à campanha para se conseguir leite para Omar, hoje o filhote de peixe-boi passa por uma intensificação do processo de reabilitação para que ele possa ganhar a natureza em breve. Além da amamentação com leite de soja, suas refeições passaram a introduzir porções de paturá – macrófita aquática que é a base da alimentação dos peixes-bois marinhos que vivem em condições naturais -, além de outras espécies vegetais.

Esse novo cardápio inicia a fase de desmame de Omar, que agora é acompanhado com avaliações mensais, através de exames de sangue e de acompanhamento de seu peso. Omar ainda continuará dividindo também seu tempo, pelos próximos meses, entre um igarapé e a piscina que servem de viveiro em Salvaterra, de acordo com a estação e o regime das chuvas.

O passo seguinte, para mais adiante, já à véspera da soltura de Omar, é transferir o peixe-boi marinho para outro viveiro – esse já em condições mais próximas às do ambiente natural, com regimes de marés e temperatura similares aos do ambiente aquático marajoara. Esse semi-cativeiro deve durar alguns meses, até que Omar mostre sinais de total ambientação ao local. Essa fase final do processo de reabilitação exigirá contratação de tratadores, vigias e obras para o novo viveiro. Para isso haverá apoio da Prefeitura de Salvaterra.

Comunidades mobilizadas

Para além desses cuidados de readaptação ao ambiente natural do Marajó, o plano que levará Omar a ser livre novamente precisa envolver as comunidades de Soure e Salvaterra, incluindo Jubim, Joanes, Passagem Grande, Pesqueiro e Caju-una. Para isso, uma campanha já está em curso. No final de abril iniciaram as reuniões nas comunidades de pescadores. Na Passagem Grande, o encontro aconteceu dia 30 de abril. No dia 5 de maio aconteceu a primeira reunião na comunidade de Jubim, em Salvaterra.

Essas comunidades de pescadores precisam estar preparadas para lidar com possíveis novos encalhes de Omar no período de adaptação após a soltura. Os moradores precisam também estar orientados a não capturar nem agredir o filhote enquanto ele ainda estiver no semi-cativeiro. Também é preciso atenção às possibilidades de rejeição do peixe-boi marinho junto a grupos da sua espécie que possam se encontrar nas águas da baía do Marajó.

A mobilização pela soltura de Omar, ao longo de todo o ano, servirá também de trunfo para outros dois objetivos: definir onde é o melhor local a ser escolhido para a soltura e ainda capacitar comunidades para fazer registros de observações de peixes-bois marinhos. E esses registros ainda ajudarão os pesquisadores a fortalecerem os estudos sobre ocorrências e os hábitos da espécie que acreditava-se extinta da costa marajoara. O GEMAM lembra: já há relatos de avistamentos de peixes-bois marinhos em várias outras comunidades de Soure e Salvaterra. “Já há monitores identificados em cada comunidade. Eles nos darão apoio”, esclarece Renata Emin. As reuniões devem ocorrer periodicamente, até a soltura de Omar. Ao todo, são 10 voluntários e pesquisadores da ONG Bicho D’Água e do GEMAM-MPEG envolvidos nas atividades que levarão o peixe-boi marinho à liberdade – além da equipe de fauna do IBAMA/PA e dos veterinários da UFPA-Castanhal, que cuidam da saúde de Omar.

Cuidados por satélite

Quando ganhar de novo as águas do rio-mar, Omar precisará ser monitorado. Para isso, além da campanha junto às comunidades, o filhote de peixe-boi marinho contará com o implante de um dispositivo para rastreamento via satélite. Com isso, será possível saber sua localização por dois anos. “Este tempo é o suficiente para a sua adaptação”, lembra Renata Emin.

“Vale lembrar que o peixe-boi-marinho é o mamífero aquático mais ameaçado de extinção hoje no Brasil. Omar é o único exemplar da espécie em processo de reabilitação hoje no Estado do Pará. Por isso é preciso a ajuda de todos para a conservação dos peixes-bois”, ressalta a bióloga do Museu Goeldi.

Com a ajuda da tecnologia, de esforços pela ciência e da sensibilidade de entidades, pessoas e até de comunidades inteiras, o filhote de peixe-boi marinho Omar começa agora a viver um novo capítulo da sua história e também da trajetória de sobrevivência de sua espécie na costa norte brasileira. O que começa agora é a fase final de uma aventura decisiva para que esse raro mamífero aquático possa voltar a nadar livre nas águas do arquipélago de Marajó. Um esforço crucial, que, nos próximos meses, mobilizará pesquisadores, autoridades e várias comunidades de pescadores de Soure e Salvaterra. Uma luta pela vida que agora pode contar também com a sua ajuda.

Fonte: Portal Amazônia
Com informações do Museu Goeldi

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