Áreas de Proteção Ambiental são destruídas por invasores em Manaus

Embaladas pela persistência dos ocupantes e pela morosidade dos órgãos de fiscalização, invasões avançam sobre APAs da Zona Norte

show_avenida_Nathan_Xavier_no_loteamento_Parque_das_Gar_as1
Áreas de Proteção Ambienta,l na avenida Nathan Xavier, no loteamento Parque das Garças, já teve boa parte de sua vegetação destruída pelos invasores (Foto: Evandro Seixas)

Eles chegam derrubando e incendiando a vegetação nativa. Demarcam áreas e as dividem em lotes. Não se importam com as leis, com os animais e, muito menos, com as nascentes e mananciais, sempre com as mesmas desculpas: “ninguém tem onde morar, não tenho como pagar aluguel…”. Justificativas à parte, boa parte dessas pessoas que alimentam a chamada “indústria da invasão” está ali apenas para lucrar com a venda do espaço adquirido de forma ilegal. Estamos falando dos invasores de terra, que aos poucos estão degradando as Áreas de Proteção Ambiental (APA) que restam preservadas na Zona Norte da capital amazonense.

Na rua 206, quadra 380-A, bairro Nova Cidade, por trás da avenida Curaçao, uma APA vem sendo desmatada há pelo menos duas semanas para construção de barracos de madeira e lona. As pessoas que moram próximo da área disseram que os trabalhos no local são feitos dia e noite. “Estamos muitos preocupados porque a qualquer momento eles podem ultrapassar para os terrenos que ficam nos fundos da área verde. Denunciamos várias vezes, mas os órgãos ambientais não tomaram nenhuma providência até agora”, revelou o pintor João Batista, 55.

Ainda no Nova Cidade, na rua Monte Davinha, ao lado da Escola Estadual Samuel Benchimol, outra invasão se consolida. Os invasores ocupam a APA há aproximadamente seis meses. Diversas casas de alvenaria foram construídas, muitas inclusive têm até TV a cabo. Carros populares e de luxo também integram o cenário e destoam do discurso de quem alega “não ter onde morar”. Água e luz foram puxadas de forma clandestina para os barracos. “Destruíram tudo. Tinha muitos animais, agora ninguém vê nenhum e o igarapé secou”, contou uma moradora do bairro, que não quis se identificar por temer represálias.

Outra APA que teve boa parte de sua vegetação destruída por invasores fica na avenida Nathan Xavier, no loteamento Parque das Garças. A área foi desocupada cinco vezes, a última no dia 29 de junho, mas neste final de semana A CRÍTICA constatou que os invasores retornaram ao local, como haviam prometido quando foram retirados da última vez, e os impactos de mais uma invasão são ainda maiores. Muitos buritizeiros foram para o chão para dar lugar aos novos barracos. A ocupação só aumenta, inclusive no único local onde ainda resta vegetação.

Uma grande área verde particular, na rua Mulateiro, bairro Monte das Oliveiras, também foi alvo de invasão. Há quase um mês, centenas de pessoas ocupam o espaço e, a cada dia, novos barracos e até casas de alvenaria são construídos no local. Até o momento não houve nenhuma tentativa de retirada das famílias invasoras. “Nós precisamos de moradia e vamos lutar até o final”, disse o azulejista Jardel Cardoso da Silva, 30.

‘Ações independentes’

Em todas as invasões visitadas por A CRÍTICA constatou-se que elas não contam com a participação de movimentos tradicionais de luta por moradia, ou seja, são “invasões independentes”. Uma delas, inclusive, a da rua Monte Davinha, que fica ao lado da Escola Estadual Samuel Bechimol, é supostamente financiada por traficantes, de acordo com moradores do conjunto Nova Cidade.

Há dois anos avançando na floresta

Há aproximadamente dois anos, uma área verde nas proximidades da segunda etapa do Conjunto Residencial Viver Melhor, no bairro Santa Etelvina, é ocupada ilegalmente por invasores. De acordo com moradores daquela região, até o momento nada foi feito para realizar a retirada dos barracos, que se multiplicam a cada dia. Ultimamente a área tem sido dominada pelo tráfico de drogas e as pessoas que estão comandando a invasão costumam andar armadas com facas pelas ruas.

Uma moradora do residencial, que não quis se identificar por temer represálias, disse que 80% dos invasores são do próprio conjunto, ou seja, pessoas que ganharam casa e apartamento no Viver Melhor. Conforme ela, a invasão adentra cada dia mais na floresta. “Árvores centenárias foram destruídas com a ocupação desenfreada e animais como tucano, macaco, preguiça, cutia, arara, entre outros, que antes eram vistos na área, sumiram. Há pouquíssimas árvores em pé”, evidenciou.

A ocupação foi comparada pela moradora à Cidade das Luzes, no bairro Tarumã, Zona Oeste. “A invasão começou há muito tempo e está em ritmo mais acelerado que a Cidade das Luzes. Todos os dias ouvimos barulho de motoserra pra lá e toda noite eles fazem queimadas. Aumentaram os problemas respiratórios das crianças que vivem no residencial, como meu filho. Agora, é ‘proibido’ cortar árvore e fazer queimada. Por que os órgãos responsáveis não fazem nada?”, questionou.

24 Focos em sete meses

De acordo com a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semmas), o combate às invasões hoje é feito de forma conjunta por vários órgãos. Um braço do crime organizado se instalou nessas áreas e exige dos órgãos de segurança uma atuação em parceria com os órgãos ambientais, entre os quais a própria Semmas, Delegacia Especializada em Crimes Contra o Meio Ambiente (Dema), Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam) e Batalhão Ambiental.

Estes órgãos, junto com outros da esfera municipal e estadual, integram o Grupo Integrado de Prevenção às Invasões em Áreas Públicas (Gipiap), responsável pelo combate às invasões em Manaus e na Região Metropolitana. Conforme a Semmas, no total, 24 focos de invasão em áreas diferentes da capital foram registrados de janeiro a julho deste ano. A secretaria informou ainda que todos os órgãos que hoje compõem o Gipiap têm conhecimento acerca das referidos ocupações citadas na reportagem.

A Semmas informou que em todos eles já foram desenvolvidas ações. Entretanto, os invasores insistem em desobedecer às notificações e logo após as retiradas retornam aos locais. “Em todos houve mais de uma ação de desocupação. O desrespeito à ordem pública infelizmente parte do invasor, e acontece a reincidência. Em alguns pontos, como no Parque das Garças, foram cinco retiradas somente este ano”, enfatizou, em nota.

Conforme a pasta, logo que recebe a denúncia, encaminha equipe de fiscalização ao local, para coletar as coordenadas geográficas e fazer a devida caracterização da área. “Esse é o primeiro passo. A atribuição do município é a de atuar em áreas verdes de loteamentos aprovados pela municipalidade e Áreas de Preservação Permanente (APPs), que são as margens de cursos d’água”.

À espera da Justiça

Invasões como a da área verde nas proximidades da segunda etapa do Conjunto Residencial Viver Melhor, no bairro Santa Etelvina,aguardam sentença para desapropriação. Nas áreas particulares, o proprietário deve entrar com ação de reintegração de posse.

Por: Silane Souza
Fonte: A Crítica

Deixe um comentário

Um comentário em “Áreas de Proteção Ambiental são destruídas por invasores em Manaus

  • 14 de setembro de 2017 em 10:39
    Permalink

    Sabemos que o caminho não é esse, mas não podemos ser omissos e simplesmente esquecer a história de como os bairros de Manaus se desenvolveram. O poder público talvez seja uns dos grandes responsáveis por essa situação de falta de moradia. Vejam só. Com a criação da zona Franca de Manaus na década de 1960 , uma explosão demográfica ocorreu em nossa Cidade, várias pessoas vieram para Manaus com sonho de conseguir um emprego pessoas não somente do interior mas de outros Estados. A implantação do modelo Zona Franca trouxe impactos positivos e negativos para no regiaregião se tratando do ponto de vista habitacional. Boa parte dos bairros em Manaus, não sua totalidade é lógico, surgiram de movimentos sociais de invasões, um exemplo é o bairro de coroado e são José operário. No ano de 1991 só pra nós recordarmos Manaus tinha uma população de um milhão de habitantes, 23 anos depois , Manaus em 2014 chegou a dois milhões de habitantes, ou seja, Manaus só cresce e de forma bem rapidrápida. Não vamos simplesmente julgar, mas analisar toda a história da nossa Cidade para que não façamos um juízo equivocado das pessoas que realmente precisam de uma moradia.

    Atenciosamente,
    Elson Pinto Bitencourt.

Fechado para comentários.