Kawaiwete lutam para manter suas roças tradicionais

Encontro reunindo quatro aldeias no Parque Indígena do Xingu promoveu troca de saberes, desafios e perspectivas sobre as roças com foco nas sementes e nos cuidados com o manejo

Os Kawaiwete exibem na feira de trocas 40 variedades de produtos da roça|Isabel Harari
Os Kawaiwete exibem na feira de trocas 40 variedades de produtos da roça|Isabel Harari

Essencial para a subsistência, a roça é um elemento central na cultura das 26 comunidades Kawaiwete que vivem nas regiões do Baixo e Médio Parque Indígena do Xingu (PIX). Além disso, os Kawaiwete (Kaiabi) detêm a maior diversidade de produtos da roça no PIX. E querem manter e ampliar essa condição em nome de sua cultura e segurança alimentar. Por isso, vêm realizando ações para sistematizar, resgatar e valorizar os produtos tradicionais de suas roças.

Um bom exemplo foi o Encontro de Sementes da Roça, promovido pela Associação Indígena Tapawia entre 23 e 26 de julho. Cerca de 40 pessoas se reuniram na aldeia Tuiararé para conversar sobre técnicas de manejo, desaparecimento de produtos, entrada de alimentos não indígenas nas aldeias, merenda escolar, espiritualidade e alimentação, cultura, prevenção de incêndios, mudanças climáticas e outros temas associados às roças. Além de propiciar a troca de saberes, conhecimentos e estratégias de resistência o evento possibilitou troca de sementes e produtos tradicionais entre as famílias de diferentes aldeias – ao todo foram trazidos 40 tipos de alimentos. A Associação Tapawia apresentou as variedades das espécies produzidas no âmbito do projeto Centro de Estudos de Preservação e Multiplicação da roça Kawaiwete que está em execução e visa a multiplicação e preservação dos produtos da roça.

Jowosipet Kawaiwete, liderança da aldeia Tuiararé, conta que no primeiro ano do projeto, em 2015, foram colhidos sete sacos de amendoim de 14 variedades distintas e na colheita deste ano foram contabilizados 41 sacos.  “Por que estamos unidos?  Por causa da alimentação.  A comida faz parte da nossa cultura.  Temos que lutar pelo que é nosso”, alerta.  Preocupada com a entrada de alimentos não indígenas em sua comunidade e o desaparecimento de variedades agrícolas, Wisio Kawaiwete percorreu diversas aldeias para fazer o levantamento da roça de cada família e salvaguardar as diversas qualidade dos produtos tradicionais: “É a nossa comida verdadeira, que os nossos pais e nossos avós davam pra gente comer e não fazia mal.  Por que nós Kawaiwete não se preocupa com os produtos da roça e só consome os alimentos da cidade?  Eu tô procurando um jeito de ajudar o meu povo pra ver se alguma coisa melhora, como era antigamente, pra gente dar comida pros nossos filhos”.

Tuim Kawaiwete, liderança da aldeia Samaúma, contou aos jovens que tem o cuidado de separar as variedades diferentes dos produtos que aparecem na colheita – principalmente do amendoim. Tuiaraiup, pajé da aldeia Kwaryja, alerta para a importância dessa prática na continuidade dessas espécies. Segundo ele, se o trabalho não for feito com o devido cuidado, a dona da roça, chamada Kupeirup, pode retirar algum tipo de alimento, da mesma forma que se esse manejo for realizado de acordo com as práticas tradicionais, a produção e variedades tendem a aumentar (saiba mais sobre o mito de origem das roças no final do texto). Assim, a transmissão desses conhecimentos é essencial para a continuidade da produção das roças: “Se eu morrer de hoje pra amanhã quem é que vai contar? Os nossos filhos e netos vão precisar desse conhecimento futuramente. Muito tempo atrás, antes do contato com o homem branco, a gente já tinha a produção da roça. A gente não quer que acabe, é nosso, por isso temos que saber cuidar, utilizar, não deixar acabar”.

Desmatamento e mudanças climáticas são algumas ameaças

De fato, as atividades da roça são essenciais na organização e articulação das comunidades, e seu sistema agrícola, baseado no pousio da capoeira (roça de coivara) e na abertura de novas áreas para o plantio, promove um refinado mecanismo de enriquecimento da biodiversidade.  Entretanto, enfrentam diversos desafios para manter suas roças produtivas.  O confinamento territorial, as mudanças no clima, o intenso desmatamento e a prática da monocultura extensiva no entorno do PIX são ameaças que colocam em risco seu patrimônio agrícola e cultural.

O impacto do desmatamento nas regiões adjacentes ao Parque ainda não é totalmente mensurável, mas já é amplamente conhecido e vivenciado pelos indígenas em seus sistemas agrícolas. Uma das consequências mais evidentes é a intensificação do período de seca e a consequente perda de umidade da floresta, o que aumenta a probabilidade de descontrole do fogo quando este é manejado para o trabalho da roça. Os grandes incêndios florestais eram quase inexistentes até os anos 2000, em 2010 mais de 280 mil hectares, quase 10% da área total do PIX, foi queimada.

“Jyawawut [criador do homem branco] não teve condições de cuidar e educar os seus netos, e hoje você vê que o desmatamento avançou muito, aumentou o calor. Daqui a alguns anos vai atingir plantações do homem branco, assim eles vão sentir o que os índios tão sentindo hoje”, alerta Tuiaraiup, pajé da aldeia Kwaryja. Associado ao desmatamento, o uso intenso de agroquímicos nas lavouras de soja e milho no entorno do Parque preocupa os indígenas. Eles vêm acompanhando o desaparecimento de várias espécies de animais e plantas e o aparecimento de novas “pragas”, mais resistentes e danosas aos produtos da roça. Além disso, existe uma preocupação com os alimentos não indígenas que chegam nas aldeias, potencialmente contaminados pelos herbicidas e agrotóxicos jogados nas plantações. “A comida que a gente come é pulverizada pelo veneno pra não pegar praga”, alerta Wisio Kawaiwete, liderança da aldeia Kwaryja.

O mito de origem dos produtos da roça

“Antigamente não existiam as comidas na roça como o milho, mandioca, amendoim, feijão-fava, pimenta, cará, batata, inhame, algodão… Os Kawaiwete passavam muita fome e viviam se alimentando de frutas silvestres, como o inajá, o tucum e a castanha. O povo passou muito tempo, muitos anos nessa situação, até que um dia uma mulher viúva, chamada na nossa língua Kupeirup, sentiu a necessidade de dar mais alimentos para seus filhos. ‘Eu quero que vocês trabalhem, façam uma roça muito grande e derrubem as árvores. No dia da queimada vocês me levam para o meio da roça e depois toquem fogo, eu serei queimada, assim aparecerá a comida para vocês’”. (Tuim e Moré Kawaiwete narrando o mito de origem dos produtos da roça na historia de Kupeirup.)

Fruto de sua queima, Kupeirup é a dona da roça dos Kawaiwete, também conhecidos como Kaiabi, povo que habita o Parque Indígena do Xingu (PIX) e outras duas Terras Indígenas nos estados do Mato Grosso e Pará – Apiaka Kaiabi e Kayabi. Kupeirup, cansada de ver seus filhos passando fome, decidiu que eles deveriam queimá-la para que suas cinzas se transformassem em alimento. Assim, cada parte do corpo de Kupeirup deu origem a um produto da roça que o povo cultiva até hoje: são mais de 60 tipos de amendoim, munuwi, oito de cará, ka’ra, seis de milho, awasi, quase dez de batata doce, jetyk, e incontáveis variedades de mandiocas e mangaritos.

A mudança para o PIX

Os Kawaiwete (Kaiabi) originalmente viviam no entorno dos rios Teles Pires e dos Peixes, afluentes do Rio Tapajós, região que faz parte do interflúvio Tocantins/Tapajós/Médio e Baixo Xingu nas margens do Rio Teles Pires, na Bacia do Tapajós (PA). A extração de látex na região que acontecia desde os anos 1920 intensificou-se na década de 1950, gerando graves conflitos entre os seringueiros e os índios: aqueles que trabalhavam nos seringais viviam situação de extrema exploração e os que evitaram o contato assistiam a invasão e degradação de suas terras. A desigualdade na correlação de forças era patente e se somava à deliberada omissão do Estado em garantir os direitos territoriais indígenas, que já naquela época eram assegurados constitucionalmente.

Diante desse quadro, os indígenas foram induzidos a se mudar para o PIX, por intermédio dos irmãos Villas-Boas, entre 1956 e 1966, pois se permanecessem no seu território tradicional corriam risco de extermínio. Assim, parte do povo deixou suas terras, com sua cosmologia própria, recursos naturais, medicinais e produtos agrícolas. O território tradicionalmente ocupado pelos Kawaiwete no Teles Pires era consideravelmente maior do que a área no PIX e possuía condições ecológicas mais favoráveis ao seu sistema agrícola. No Xingu, seus cultivos ficam restritos a manchas de terra preta arqueológica, recurso cada vez mais escasso na região, dificultando a produção de seus alimentos tradicionais. Além disso, o sistema de agricultura itinerante, elemento importante da identidade Kawaiwete, fica prejudicado com a redução de espaço e de terras agricultáveis.

O projeto Centro de Estudos de Preservação e Multiplicação da roça Kawaiwete tem o apoio do ISA e é financiado pelo Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN) por meio do Programa de Pequenos Projetos Eco Sociais (PPP-Ecos).

Por: Isabel Harari, com colaboração de Manuela Otero
Fonte: ISA

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