Usinas hidrelétricas e seus reservatórios

9ue seja renovável, de menor custo, de baixo impacto ambiental e não intermitente: é o ideal alme-o quanto se planeja a exploração de recursos naturais ou a construção de obras de infraestrutura. Em se tratando de produção de energia elétrica, a solução que melhor atende a essas condicionantes é a usina hidrelétrica com reservatório de regularização. Além disso, a logística em países economicamente bem-sucedidos mostra que o transporte fluvial (que venha a hidrovia do Tocantins) é a solução mais econômica. Essas aplicações de engenharia hidráulica (energia hidrelétrica e navegação) convergem para a implantação de barragens com reservatórios de regularização. Todas as outra soluções para a geração de energia elétrica carregam consigo grandes inconvenientes, tais como: térmicas convencionais (caras e de alto impacto ambiental), eólicas (custo competitivo, baixo impacto ambiental, mas intermitentes), solares (custo alto, baixo impacto ambiental, mas intermitentes) e nucleares (custo competitivo, baixo impacto ambiental, mas grande produtora de resíduos radioativos de destino final ainda não resolvido).

Em nosso País, desde a criação da Eletrobras nos anos cinquenta do século passado, a produção de eletricidade foi atendida com a construção de numerosas usinas hidrelétricas com grandes reservatórios, principalmente na região Sudeste. Esse período de relativa tranquilidade começou a se deteriorar a partir dos anos oitenta. Depois disso novas hidrelétricas passaram a ser construídas com reservatórios de regularização cada vez menores ou até sem regularização, com usinas chamadas a fio d”água. Vale lembrar

que os reservatórios de regularização são feitos para garantir a produção de energia elétrica, mesmo nos períodos de baixa pluviosidade. Sem eles, a produção de eletricidade fica cada vez mais dependente do regime de chuvas e de usinas térmicas.

A primeira grande crise resultante do abandono da construção de usinas hidrelétricas com reservatórios de regularização ocorreu em 2001. Ela se deveu, em grande parte, à oposição de ambientalistas que viam na construção desses reservatórios ameaças ao MEIO AMBIENTE e às populações ribeirinhas, sem analisar corretamente e com isenção os benefícios resultantes da eletricidade de menor custo produzida para milhões de pessoas. Com ênfase apenas nos impactos negativos, entidades que se autoprocla-mam ambientalistas e com interesses muitas vezes obscuros exercem pressões políticas procurando inviabilizar qualquer novo empreendimento de infraestrutura, como lembrou, recentemente, meu colega e amigo José Maria da Costa Mendonça.

Nessa linha, o comandante do Exército geneneral Eduardo Villas Bôas, quando no comando Militar da Amazonia , declarou que nossa região é tratrada como uma colônia, em parte pela ação de ambientalistas, e citou o caso incrível da pavimentação da BR-319 que liga Manaus a Porto Velho.

Desde o final do século passado, não entram em operação novas usinas hidrelétricas com reservatórios de regularização plurianual. Como decorrência, o uso de geração termelétrica tem sido mais intenso nos últimos anos, mesmo para períodos com precipitação pluvial próxima à média histórica. A entrada em operação de grandes projetos na Amazônia, sem reservatórios de regularização, como nos casos de Jirau, Santo Antônio, Belo Monte, e por isso com acentuada sazonalidade, altera a oferta de energia disponível, com montantes significativos de geração na estação chuvosa e baixa produção na estação seca.

A diminuição da capacidade de armazenamento dos reservatórios das usinas hidrelétricas construídas a partir do final do século passado tem entre suas principais consequências o subaproveitamento da capacidade de produção de energia elétrica do País. Isto tem obrigado o uso cada vez maior do parque gerador térmico para compensar a escassez de oferta de energia elétrica durante os períodos secos. O resultado é onerar tudo em nosso País e causar impactos ambientais de difícil mitigação, contribuindo consideravelmente com a emissão de gases de efeito estufa. Por tudo isso, é fundamental para o nosso futuro que as novas hidrelétricas sejam repensadas, com a criação de reservatórios para compensar períodos de baixa pluviosidade e que deixemos de ceder a pressões e de nos intimidar diante de dificuldades com ambientalistas e com o licenciamento ambiental dessas novas usinas. É importante que as alternativas sejam definidas visando à maximização do desenvolvimento econômico e social, ponderando as soluções segundo sua importância regional (e não só nacional), mitigando adequadamente os impactos socioambientais, além de prever outras compensações em favor das populações locais.

Lutfala Bitar é engenheiro e empresário

Fonte: O Liberal

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