300 anos após contato, índios pirahãs ainda resistem a aprender português

Criança pirahã dorme em rede de acampamento montado às margens do rio Maici, em Humaitá (AM) (Lalo de Almeida - 30.set.2016/Folhapress)
Criança pirahã dorme em rede de acampamento montado às margens do rio Maici, em Humaitá (AM) (Lalo de Almeida – 30.set.2016/Folhapress)

 

À primeira vista, parece um ritual de pobreza. O ônibus estaciona na lanchonete da Sula, a 90 km de Humaitá (AM), e logo mulheres e crianças pirahãs, descalças e em roupas puídas, se aglomeram em torno dos passageiros. Quando têm sorte, saem carregadas com sacos de salgadinho e garrafas de refrigerante.

Mas basta seguir o grupo até o acampamento à beira do rio Maici para entrar em um mundo à parte da rodovia. Sobre a canoa esculpida num tronco único, repousam arco e flecha. Dentro da água transparente, uma Bíblia aberta é folheada lentamente pela correnteza.

No fogo aceso no chão arenoso, peixes cozidos inteiros e sem tempero. As moradias se resumem a um teto de palha sustentado por paus, e abrigam bichos de estimação como macaco e gambá.

Mas o que mais impressiona é ninguém falar português, apesar de três séculos desde o primeiro contato com o branco. A única língua ali é a melódica pirahã, que não guarda parentesco com nenhum outro idioma vivo do planeta, só é falada no tempo presente e não inclui números nem cores.

A singularidade dos pirahãs tem sido descrita principalmente pelo linguista norte-americano Daniel Everett. Para ele, trata-se da etnia amazônica que mais resistiu às mudanças trazidas pelo homem branco.

A história pessoal de Everett corrobora a afirmação. Em 1977, acompanhado da mulher e de três filhos pequenos, ele se mudou para uma aldeia pirahã como missionário cristão. Nas três décadas de convívio, além de não conseguir converter ninguém, ele mesmo se tornou ateu e passou a se dedicar apenas à carreira acadêmica.

Em 2005, Everett provocou um terremoto no meio acadêmico ao usar a língua pirahã para contestar a gramática universal, teoria formulada por Noam Chomsky (MIT), o linguista mais renomado do mundo.

Em artigo, Everett argumentou que a gramática pirahã não se encaixa na teoria universalista de Chomsky, pela qual todas as línguas têm um conjunto de características em comum.

A principal ausência na língua pirahã seria a recursividade, que consiste em colocar uma frase dentro da outra indefinidamente, combinando pensamentos distintos. Um exemplo: as frases “O cachorro entrou na casa” e “o cachorro está molhado” se tornam “O cachorro que está molhado entrou na casa”.

A celeuma extrapolou os meios acadêmicos após Everett publicar, em 2008, o livro “Don’t Sleep, There are Snakes” (não durma, há cobras). A obra mistura seus estudos com memórias da vida na Amazônia e já foi traduzida para sete idiomas, mas ainda não há versão em português.

O interesse pelos pirahãs acaba de ser renovado. Em agosto, o aclamado escritor americano Tom Wolfe publicou o livro “The Kingdom of Speech” (o reino do discurso) com dois capítulos dedicados à etnia e a Everett, a quem credita ser o autor do mais importante estudo sobre a origem da linguagem humana.

 

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TUDO COMO É

Com a exceção de visitas esporádicas de pesquisadores, o acirrado debate em nada mudou a rotina dos pirahãs, estimados em cerca de 700 pessoas. Seminômades, continuam vivendo ao longo do ano pelas margens do Maici, quase todo localizado dentro de sua terra indígena, demarcada em 1996, com a ajuda de Everett.

No lugar de missionários, eles agora resistem aos professores do município de Humaitá (AM), que tentam, sem sucesso ensinar o português.

O pouco interesse pela cultura do branco se concentra no uso de alguns utensílios, como panelas, e em alimentos de má qualidade, que eles adoram. O uso do dinheiro é limitado pela ausência do conceito de números –no livro, Everett narra o fracasso em ensinar a soma de 1 + 1 ao longo de oito meses de aula.

O trecho do Maici atravessado pela Transamazônica está fora da demarcação, mas o limite legal é ignorado pelos indígenas, que continuam perambulando em toda a extensão do rio, como fazem há séculos. “Estamos aqui antes da ponte”, explicou o pirahã Hiahuai, por meio de uma tradutora.

O seu grupo, de cerca de 40 pessoas, costuma passar alguns meses por ano na beira da rodovia, revezando o lugar com outros pontos do rio. A aldeia principal fica a algumas horas de barco.

O convívio na beira da estrada nem sempre é pacífico. Um sitiante, irritado com a perambulação dos pirahãs por suas terras, lidera um abaixo-assinado para expulsá-los.

Proprietária de um restaurante, dona Dominga se recusou a assinar a petição e diz que não se importa com a visita dos pirahãs, a quem costuma dar pão velho. Ao comparar com outras etnias vizinhas, que moram em casas e são bilíngues, ela repete um bordão da região: “Eles é que são índios de verdade”.

RAIO-X
Cidade: Humaitá (AM)
Ranking de Eficiência (REM-F): 5.119º (0,282) Ineficiente
IDHM (2010)*: 0,605 (médio)
Área desmatada (km²): 728 (2,2%)

*Números de 2010. O índice varia de 0 a 1. Os municípios da Transamazônica são de desenvolvimento baixo ou médio. O IDH do Brasil é 0,755.

Fonte: Folha de São Paulo

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