Cooperação Brasil-Inglaterra promove pesquisas interculturais sobre plantas do Rio Negro

Depois de 150 anos, a passagem do cientista britânico Richard Spruce pelo Rio Negro inspira atividades de etnobotânica junto aos povos indígenas do noroeste amazônico

O bolsista Jocival Rezende,Tuyuka, produz desenhos botânicos na comunidade|Pieter-Jan van der Veld – ISA
O bolsista Jocival Rezende,Tuyuka, produz desenhos botânicos na comunidade|Pieter-Jan van der Veld – ISA

Por meio de um projeto da Fundação Newton, do Consulado Britânico, de institutos de pesquisa do Brasil e Inglaterra, junto com a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn) e o Instituto Socioambiental (ISA) estão em curso iniciativas de treinamento e pesquisa etnobotânica no Rio de Janeiro e no Rio Negro com base nas pesquisas do botânico Richard Spruce.

Durante o século XIX, a Amazônia foi o palco de várias expedições de naturalistas britânicos. Um deles foi Spruce (1817-1893) que dedicou 15 anos de sua vida explorando a Amazônia e os Andes, colecionando plantas e fazendo anotações de como essas plantas eram usadas e processadas no dia-a-dia de comunidades indígenas e ribeirinhas. Um de seus trabalhos mais famosos é sobre a quinina, base dos remédios usados até hoje contra a malária.

Nas suas andanças Spruce também explorou o Alto Rio Negro e seus afluentes, e em novembro de 1852 chegou até a cachoeira de Ipanoré, no Rio Uaupés, considerada pelos povos Tukano o lugar de surgimento da humanidade. Lá ele presenciou a cerimônia Jurupari na qual os índios tomavam uma bebida alucinógena que eles denominavam kapi, também conhecida nos dia de hoje como ayahuasca. Spruce foi o primeiro botânico a descrever uma das plantas que compõe a bebida, um cipó que ele denominou como Banisteria caapii, incluindo na nomenclatura científica o nome dado pelos índios (posteriormente a planta foi renomeada como Banisteriopsis caapi).

Oito mil coletas em 15 anos 

Esse é só um exemplo do legado do naturalista: em 15 anos de expedições foram mais de 8000 coletas que atualmente estão sendo sistematizadas pelo projeto “O valor das coleções bioculturais no Brasil: integrando diversas bases de dados”. Este projeto dará acesso a imagens e dados das transcrições dos cadernos originais de Spruce e envolve capacitação de profissionais para trabalhar os dados sistematizados e outros acervos similares. A partir do projeto, pela primeira vez descendentes dos povos visitados pelo naturalista começam a ter acesso a essas informações.

As conversas e parcerias em torno do projeto começaram a se consolidar em julho de 2015 em um encontro em Kew, na Inglaterra, em que se discutiu o material etnobotânico e o repatriamento das informações associadas ao material coletado por Spruce na Amazônia. Do encontro participaram assessores do ISA, pesquisadores do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, MPEG, NEAI-UFAM, MAE-USP, UFMG e instituições britânicas e cientistas de diversas áreas com experiências nessa mesma região.

Posteriormente, agora como parte do projeto, de 18 a 21 de outubro aconteceu uma oficina na Escola Nacional de Botânica Tropical, no Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Dela participaram dois assessores do ISA , Adeilson Lopes da Silva, que trabalha no Rio Içana e Pieter-Jan van der Veld, que trabalha no Rio Tiquié. A Foirn (Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro) mandou como representante Dagoberto Lima Azevedo, Tukano do Rio Tiquié, mestre em Antropologia pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM).

Intercâmbio entre conhecimentos científicos e indígenas

No primeiro dia da oficina, Adeilson e Pieter apresentaram as pesquisas interculturais participativas realizadas no Alto Rio Negro, como a pesquisa sobre a pimenta Baniwa e os levantamentos florestais das capoeiras Tuyuka.  Dagoberto fez uma apresentação sobre a cosmologia Tukano, que era um assunto completamente novo para a maioria das participantes.  Os dias seguintes foram preenchidos com aulas sobre coleta, conservação e exposição de material biocultural e visitas ao herbário e biblioteca do Jardim Botânico.

Uma semana depois (de 27 de outubro até 5 de novembro) foi realizada uma oficina em São Gabriel da Cachoeira, dessa vez com a ampla participação de pesquisadores e conhecedores indígenas do Rio Negro (Saiba mais). O foco foi um intercâmbio de conhecimentos (científicos e indígenas) sobre as plantas e o treinamento em metodologias de pesquisa e ilustração botânica. Participaram do evento especialistas do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, do Jardim Botânico de Kew (Inglaterra), do Museu Paraense Emilio Goeldi (MPEG) e da Universidade de Londres Birkbeck, e pesquisadores indígenas dos rios Tiquié, Içana e de outros locais do Rio Negro.

Para Adeilson Lopes, assessor do ISA, “talvez esse seja um momento único em que pessoas que moram nas comunidades, aldeias e região onde Richard Spruce passou possam interagir com especialistas que trabalham com o material coletado por ele e hoje guardado nos herbários no Brasil e no exterior. Isso também ajuda no esforço de repatriação dos dados para as coleções brasileiras, para que as pessoas saibam como acessar tal conhecimento”.

Como desdobramentos da oficina, 12 pesquisadores indígenas receberam uma bolsa em que se dedicarão por cinco meses a pesquisar o uso e o processamento de plantas em suas comunidades, incluindo fotos e desenhos como parte de sua pesquisa.  Os temas escolhidos incluem a pesquisa sobre plantas usadas para fazer armadilhas de pesca, para construir malocas, plantas usadas como tintas e no contexto da culinária regional.  O projeto é financiado pelo Fundo Newton, uma iniciativa do governo britânico que visa promover o desenvolvimento social e econômico dos países parceiros, entre eles o Brasil, por meio de pesquisa, ciência e tecnologia.

Fonte: ISA

 

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